“Dirty Computer” é a máquina 3.0 de Janelle Monáe

Janelle Monáe – Dirty Computer [2018]

Por Eder Albergoni

A persona de Janelle Monáe é, decididamente, mais importante do que a própria música. Não que a figura da artista seja mais interessante por si só, como se a criação, que vai muito além da música, não conseguisse transmitir a mensagem que justifica a concepção artística desenhada desde o início da carreira, quando Janelle Monáe viveu sua Cindi Mayweather e nos presentou com uma narrativa distópica, dividida em cinco atos que ocuparam os lançamentos do EP Metropolis: Suíte I (The Chase) [2008], The Archandroid [2010] e The Eletric Lady [2013]. O ponto primordial dessa discussão é o quanto Janelle Monáe analisa e reflete questões das mais urgentes pautas na América de Trump e de toda uma coletividade cultural artística que foca não em tendências recém produzidas, mas em ideias futuristas que se mesclam ao passado.

Se o OK Computer [1997] do Radiohead era sobre o homem lidando com a máquina, Dirty Computer é sobre a máquina lidando com a máquina. Lógico que tudo é parte de uma metáfora que maximiza os debates sobre raça e racismo, sexo e sexualidade, mulher e feminismo, política e binarismo, comportamento e alienação, pra desenvolver o conceito de distopia que parece ser mais atual do que pensamos. Tudo isso regado à influências de Pantera Negra, Prince e elementos vintages dos mais variados e aspectos dos mais controversos. Cindi Mayweather pode ser considerada apenas um espelho diante de Jane 57821, a dirty computer do filme lançado junto com o disco e que pode ser visto no YouTube.

O filme amplia a voz de Janelle Monáe para além do que se pode ouvir na música e torna a experiência de imersão de conceito mais visual e receptivo, também aberto a interpretações que as músicas acabam delimitando por tratarem, obviamente, do conceito sonoro e de como essa sensação vai afetar o que se ouve entrelaçando com a sensação do que se vê. No fundo, tudo é muito mais simples do que uma intrincada narrativa distópica que tem pretensão de elevar a ficção científica a um novo patamar filosófico e, por que não, quântico. Janelle Monáe apresenta seu ponto de vista, se retratando nas letras das canções, ora enaltecendo, ora manifestando, ora reconhecendo, ora renovando o seu R&B e suas influências. O afrofuturismo em forma comportamental sendo analisado diretamente na sua própria relação com um passado não muito distante e as mudanças mais urgentes que ganham simbolismo e significado a cada aparição pública do presidente americano, a cada nova declaração de Kanye West, a cada lançamento considerado feminista ou politicamente engajado.

A música, é lógico, tem seus precedentes, que de certa forma se tornam ultrapassados. Até discos mais recentes, como Man of the Woods, são soterrados por conta de manifestações mais diretas de empoderamento e justiça. É um conceito que explora a liberdade da expressão humana e emana uma nova direção de pensamento e influencia o próximo produto cultural e político que entrar na fila das grandes expansões de pensamento. O disco, assim, se assemelha a um monte de coisa que já foi lançado e visto antes. Do funk dançante e datado de Prince, passando pelos saltos tecnológicos de Blade Runner, até chegar à premonição certeira de Black Mirror, Dirty Computer faz de tudo isso a análise mais completa que um ser humano pode se valer do conhecimento adquirido por inteligências artificiais puras e traça linhas que a limitação do cérebro humano consegue assimilar.

Por isso “Dirty Computer” fala de deus no céu, do computador na terra e do amor entre eles. Por isso “Crazy, Classic, Life” fala da festa da juventude que pensa ter todo o tempo do mundo. Por isso “Take a Byte” brinca com o pedacinho do virtual e “Screwed” usa o rap pesado no sexo, não sem antes passear por uma levada psicodélica exalando um pan-romance. Por isso “Django Jane” é a concepção mais adequadamente natural das heroínas guerreiras de Wakanda. Por isso “Pynk” é a constatação daquilo que a gente só vai adiando e que é inevitável. Por isso, a primeira parte de Dirty Computer consegue extrair de Janelle Monáe absoluta elegância no desenvolvimento de sua ideia e personalidade como a compositora de uma narrativa sobre um mundo que nos rodeia e nos faz absorver a mesma consciência. Por isso o emotion picture que acompanha Dirty Computer é um complemento perfeito, e a segunda parte do disco traz muito mais das sensações da Janelle Monáe real.

E essa exposição real pode ser libertadora. Como também pode ser a experiência metafórica da narrativa que a artista real experimenta. Repare nas manobras de Janelle Monáe para poder emular o Prince de outrora, e como crava um desejo real em “Make Me Feel” e “I Like That” respectivamente. Já “Don’t Judge Me” é a “Let Down” da máquina. Ao mesmo tempo, é Janelle admitindo que errar um bom erro é tão perfeito quanto acertar, assim como às vezes é totalmente válido não chegar a uma conclusão definitiva.

Em “So Afraid” e “Americans”, Janelle evidencia a luta real, do dia a dia, com as coisas reais que despencam em nossas cabeças, com a falta de ação e responsabilidade das partes e setores responsáveis, com a inabilidade e desorganização que geram descrença e medo de transformação e renovação. Talvez, como se o poço mais fundo na rua mais sem saída ainda tivesse como teto o céu, Dirty Computer termina com uma declaração de amor de alguém redescobrindo o seu lugar no mundo, cercada por todas as influências que a conduziram até ali e que agora servem a como uma maneira de entendimento e recriação. Como tudo no universo, nada é perfeito, e nem pode ser definido com a certeza mais plena. O desenvolvimento musical de Janelle é algo para se admirar e olhar com mais cuidado. Seus conceitos são amplos e muito bem controlados. Suas indagações são colocadas em momentos específicos de jeitos específicos para render o debate mais saudável dentro da exploração e exposição temática do álbum. Sua mescla vintage e futurista do som contorna alguns defeitos de data, registro e intervenção, mas se mantém o tempo todo conversando com o público e mantendo vivos o caráter e as aptidões alcançadas nos discos anteriores. Sua música cabe em pista de dança, sala, cozinha e cama.

No mais, a cultura pop precisa aprender a digerir melhor discos que se colocam como evidentes obras progressistas e humanas, acima de tudo. O que é melhor do que uma máquina para desenhar e repercutir essa visão? Isso nem é recente, essa reflexão vem de pelo menos 100 anos. Estou certo de que Dirty Computer é um meio muito mais eficaz do que o orgulho pela bandeira ou um conceito de sociedade altruísta e trabalhadora. Janelle Monáe acerta em assuntos que deveriam ter ficado pra trás, que deveriam ter deixado de ser tabu, ou que pelo menos fossem discutidos com equilíbrio e honestidade. O mundo que Janelle Monáe desenha em Dirty Computer é muito mais complexo e acidentado do que a Terra plana ou a Terra redonda, e a beleza da simplicidade mora toda aí. Somos todos máquinas e computadores sujos.

Eder Albergoni Autor

4º elemento, 10º homem (sempre do contra), pinkfloydiano e adepto do meteorismo. Cresceu ouvindo e herdou os LPs do tio. Às vezes suas resenhas parecem crônicas. Às vezes, contos. Às vezes parece resenha também.

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