Kassin chega a um resultado singular e marcante, que inaugura uma nova fase em sua carreira solo

Kassin – Relax (2018)

Por Gabriel Sacramento

Alexandre Kassin é um baita produtor. No currículo do cara constam obras adoradas como Sim (2007) da Vanessa da Mata, o Ventura (2003) dos Los Hermanos, além do ótimo Tomada (2015) do Filipe Catto. Mas também temos Problema Meu (2016), fraco registro da Clarice Falcão, porque ninguém é perfeito, afinal. Em 2011, Kassin decidiu dar uma de Jonathan Wilson e começou a vender suas próprias canções no seu estilo e interpretação. O resultado? Sonhando Devagar, um álbum que mesmo não sendo ótimo, já trazia um toque pessoal bem interessante que viria a ser explorado ainda mais neste segundo, Relax.

Relax é, sim, relaxante, como propõe o nome, mesmo que trate de temas difíceis. Kassin consegue abusar de uma leveza estonteante e explorar climas diversos atrelados a isso. Sua produção é minimalista, com focos bem definidos, mas deixa bem claro o que quer para cada música, indo do lúdico ao jazzy, com uma certa timidez bem charmosa. Ele consegue também vestir as faixas com características semelhantes, que garantem a perfeita coesão, mesmo que elas não sejam percebidas em uma audição apressada.

“O Anestesista” abre o álbum com um riff cromático, bem jeitoso, que incorre em um rockzinho climático, com uma bateria sensacionalmente quebrada e um baixo melódico. “Estrada Errada” é uma faixa do cantor Hyldon que ganha uma versão bem psicodélica aqui, com participação do próprio cantor e do Orelha Negra. “Seria o Donut?” parece bastante com a atmosfera psicodélica que o Jonathan Wilson conseguiu em seu Rare Birds (2018), com teclados etéreos e um baixo dominante. A faixa-título é extremamente dançante sem exageros, convidando o ouvinte aos poucos para os movimentos corporais. A faixa é vestida com uma classe e elegância, que fica muito evidente por conta dos ótimos timbres. Kassin soa quase natalino em “Coisinha Estúpida” – versão de “Stupid Thing”, faixa que foi gravada pelo Frank Sinatra, e que já tinha sido gravado em português por Leno e Lilian – e em “Taxidermia”, na qual, ela declama a letra. Em “Digerido”, ele soa bem cool com violões calmos e clima de fim de tarde.

É interessante notar como Kassin extrai sempre uma instrumentação livre e extremamente criativa na base, que compete diretamente com sua voz linear e acrescenta uma profundidade incrível ao seu conceito. É o típico exemplo de quem pensa os instrumentos como complemento para a voz, e não somente como base climática para que sua voz e as letras se destaquem. Seja o baixo, que rouba a cena na maior parte do registro, com ótimas linhas melódicas e cheias de notas beirando o walking bass em determinados instantes, ou a bateria que brilha com dinamismo e técnicas complexas – com o baterista lembrando inclusive Neil Peart -, ou até mesmo sintetizadores e outros instrumentos. Os arranjos são sempre muito bem desenvolvidos, mesmo que não sejam lotados, com uma administração precisa das ideias, do que é improvisado e espontâneo e do que é controlado. E essa soltura de ideias deixa a sonoridade dele bem mais divertida, mais agradável, mas racional também.

E tanto no quesito arranjos, principalmente nas harmonias e na instrumentação usada, quanto nos timbres e na mixagem bem equilibrada em termos de panorama, notamos um certo anacronismo na sua sonoridade. Quando tenta algo mais funkeado na faixa que dá nome ao álbum, por exemplo, parece que estamos ouvindo algo dos anos 60 ou 70, lá no início do gênero. O disco proporciona uma ótima sensação de nostalgia, mas uma nostalgia que depende diretamente da forma como o Kassin enxerga essas épocas, e não uma clichê.

Isso porque de sua maneira de pensar os arranjos à maneira como confeccionou os timbres, Kassin esbanja originalidade nesse álbum. Uma certa semelhança com Guilherme Arantes é notável em muitos momentos, assim como alguns momentos que lembram a sofisticação do Ed Motta, mas o músico envolve tudo com uma certa inocência muito típica de sua persona. É um álbum muito dele.

Depois de anos comandando gravações e chegando a melhores resultados com outros artistas, ele finalmente conseguiu um álbum solo que, é verdade, não equipara sua veia artista solo com seu eu produtor, mas anuncia uma fase super frutífera em sua carreira solo e escancara as possibilidades para o futuro. Relax é um disco daqueles que se fosse feito e produzido por outra pessoa, com os mesmíssimos instrumentos, mesmos músicos,  mesmos timbres e no mesmo estúdio, soaria totalmente diferente, pois o que importa aqui é a forma singular como o Kassin se expôs aqui, uma que talvez nem ele mesmo consiga imitar depois.

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante.

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