Brazilian Girls – Let’s Make Love (2018)

Futurista, multicultural e climático

Por Gabriel Sacramento

O Brazilian Girls é um projeto bem interessante. Primeiro pelo fato de que, apesar do curioso nome, não há brasileiros na equipe, muitos menos várias mulheres – só uma: Sabina Sciubba, a voz. Mas isso você lê em qualquer site de recomendação de música. O destaque dessa turma é o som: uma mistureba de diferentes referências culturais, diferentes toques de eletrônica com lounge e letras em espanhol, inglês e francês. Delírios experimentais e alternativos que se encontram em um conceito difícil de definir, mas fácil de envolver.

A banda, que é Sabina, Jesse Murphy, Didi Gutman e Aaron Johnson, está voltando do hiato que começou depois do premiado álbum de 2008, New York City, que ganhou grammy e tudo. Mesmo com tanto tempo sem estar na ativa, a volta foi muito orgânica, com a gravação se estendendo por anos, no tempo que encontraram entre os shows. No comando do novo álbum, Let’s Make Love, temos o produtor do primeiro álbum e mixer do segundo, Frederik Rubens. Segundo eles, o título do álbum fala sobre a necessidade de amor para um mundo como o nosso, não necessariamente no sentido sexual do termo, uma mensagem que tem sido endossada por diversos artistas, como o Snoop Dogg em seu projeto gospel recente.

Foto: Nora Lezano

A produção do Rubens conseguiu extrair um tom futurístico do álbum, reforçando a esquisitice e identidade dos timbres eletrônicos, mas fazendo esse aspecto dialogar bem com outros elementos típicos da sonoridade do grupo, como o ambientalismo lounge, o multiculturalismo sonoro e a cobertura pop. Em alguns momentos, parece que estamos ouvindo uma perfeita continuação para o que o Automaton do Jamiroquai foi no ano passado: a música eletrônica que assume o controle e anuncia uma revolução na forma de se fazer música no futuro. E esse futurismo é associado a uma característica dançante forte. Chamar os robôs para dançar não é exclusividade da banda do Jay Kay, nem dos Daft Punk, afinal.

“Go Out More Often”, por exemplo, consegue ser moderna, dançante e, ao mesmo tempo, ter um quê roqueiro. Aliás, roqueira também é a faixa-título. “Wild Wild Web” usa esse charme futurístico, esquisito, com timbres alienígenas e sons que parecem trilha de documentários de tecnologia para falar dos problemas das relações humanas na era da internet, em que as pessoas deixam de interagir com outras e “esquecem do mundo, dos amigos e até de si mesmo”. “We Stopped” é um futurismo meio dark, que implode em um refrão tímido. “Karaköy” é a veia lounge da banda viva, “The Critic” é uma balada pianística com destaque total para voz crua da Sabina, enquanto “Balla Balla” e “Salve” é a banda enveredando por formas rítmicas predominantes em outros países, como de praxe.

A principal diferença para o álbum do Jamiroquai talvez seja o fato de Let’s Make Love possuir múltiplos focos, ao contrário daquele. O Brazilian Girls é um grupo muito menor e tem muito o que provar ainda, para ir, aos poucos, conquistando mais público. O som do Let’s também não deixa a desejar, com uma mix que trabalha bem o foco no eletrônico em primeiro plano, bem como a ideia de prioridade entre os sons, criando ainda um bom senso rítmico com foco no baixo em muitos momentos, por exemplo, entretanto, não é tão marcante e tão multicamadas como a do álbum do Jay Kay e sua turma.

No geral, Let’s Make Love agrada como um eletrônico interessante que acena para o futuro positivamente – o fato de misturarem referências culturais diferentes com futurismo aponta para um futuro onde a diversidade em termos de cultura vai ser reforçada e respeitada, será? Em tempos de muita gente no gênero olhando para trás, buscando influências no synthpop dos 80s, por exemplo, como o Porches, e poucos tão efetivos em misturar presente-passado-futuro como o Daft Punk fez em seu masterpiece Random Access Memories, a estratégia do Brazilian Girls é olhar para o futuro, sem perder de vista o norte que guiou o grupo no passado. A mistura é bem feita, bem natural, e o álbum não se entrega a uma tendência somente, nem se perde no ecletismo que tenta. A chave está no equilíbrio.

Foto: Roger Williams

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *