Superorganism – Superorganism [2018]

Com produção brincalhona, Superorganism até parece uma startup

Por Lucas Scaliza

Orono Noguchi, a OJ, canta, escreve e pinta. Emily nasceu com o nome Mark Daviv Turner. Ele escreve e toca sintetizador. Harry, que é Christopher Young, também escreve e toca guitarra. O Dr. Tucan Taylor Michaels, também conhecido no RG como Timothy Shann, escreve, mixa e fica atrás do kit de bateria. Robert Strange, que também responde por Blair Everson, cuida do palco e dos visuais, mas já foi baixista. Os coringas Ruby, B e Soul dançam, cantam e tocam o que for preciso. Essa galera com diferentes funções e codinomes formam as engrenagens do Superorganism, uma banda indie com membros advindos do Japão, Coreia do Sul, Nova Zelândia, Austrália e da cidade de Lancashire, no noroeste da Inglaterra.

O nome faz sentido. São como diferentes células do corpo se comunicando cada um de um órgão para criar uma nova música. Alguns estão no mesmo órgão, em diferentes quartos. Enquanto uma célula manda uma progressão de acordes para outra célula em outro órgão que vai colocar a letra, já há outras células esperando para fazer a mixagem e os vídeos para YouTube. A internet facilita, é claro, a comunicação entre essa galera toda. Mais do que o resultado final do primeiro disco, Superorganism, a banda Superorganism é interessante pela forma como se organiza, parecendo mais uma startup do que uma banda.

Antes do Superorganism havia o The Eversons. A japonesa Noguchi conhecia a banda graças ao algoritmo de recomendação do YouTube. Ela vivia no estado americano do Maine desde os 14, mas estava no Japão quando a banda ia tocar lá. Foi ao show, conheceu a banda e virou amiga dos caras. Foi convidada para escrever e cantar uma canção, que se chamou “Something For Your M.I.N.D.”. Sem querer, foi a primeira música do Superorganism e entrou para a trilha do FIFA 18. Noguchi tinha só 17 anos quando entrou para a banda, bem mais novinha do que o restante do coletivo.

Todos, com exceção do sul-coreano Soul, se mudaram para Londres. Soul continua vivendo em Sydney, Austrália.

De certa forma, a banda parece um The Polyphonic Spree cruzado com um Little Dragon reformulado para este final de década. As músicas são bonitinhas, mas cheias de intervenções de vozes, colagens de sons e pequenos arranjos eletrônicos que pululam no meio dos versos. Orono Noguchi é uma ótima vocalista de voz suave, do tipo que cai bem para as bandas indies de inclinação mais fofa. “Everybody Wants To Be Famous” é um excelente single. A forma coletiva como cada faixa vai sendo escrita e produzida faz com que sempre exista um novo elemento dando movimento à canção. Embora não perverta as formas clássicas de composição, eles brincam bastante com timbres e a produção faz de tudo para que nada soe tradicional. O volume de “Nobody Cares” sobe e desce a cada batida, criando uma sinestesia fazendo com que nos sintamos em um escorregador de ondas. O refrão de “Relax” parece feito de diferentes buzinas.

A qualidade das mixagens e o bom gosto para colar os vocais de Noguchi com o resto das [várias] ideias dentro de cada faixa é nível Gorillaz. Os refrãos e coros com os backing vocals são bastante acessíveis, fazendo com que, no final das contas, se equilibrem entre aspectos bastante acessíveis e outros que farão nerds da produção musical se sentirem desafiados. Não é sobre como fazer uma canção ou uma sequência de acordes soar bem. É sobre como enfiar elementos ali dentro, colagens e mudanças no volume e no timbre sem perder a fluência pop.

Superorganism é bem interessante do ponto de vista de como foi feito e de como há tantas habilidades diferentes contribuindo para que ele seja o que é: um produto savvy em produção. Não chega a ser um baita álbum, com músicas superdivertidas ou que deem muita vontade de ouvir de novo e de novo. Talvez “Night Time” seja a exceção, mas é também a música pop mais tradicional desse álbum de estreia, direta e menos afetada pela criatividade intervencionista dos oito membros do Superorganism.

A gente gosta de música diferente e de colagens maluquinhas, mostrando que a música pode ser feita com referenciais sonoros que não sejam produzidos por instrumentos, mas a alta rotatividade desses elementos diferentes pode causar cansaço. Vai ver, é por isso que o álbum tem apenas 33 minutos. A medida certa de esforço que o organismo aguenta.

Lucas Scaliza Autor

Jornalista e ariano, joga truco e tarô. Nunca teve amnésia alcoólica. Tem vários discos mas não tem vitrola. É host do Escuta Essa Podcast e ouve tanta música tão alto que é capaz de ficar surdo um dia.

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