Blackberry Smoke – Find a Light (2018)

Cheia de fôlego como uma banda nova

Por Gabriel Sacramento

Confesso que fui receoso ouvir esse novo álbum do quinteto Blackberry Smoke. Não que eles sejam experts em discos ruins: Like An Arrow (2016) e The Whippoorwill (2013) são ótimos; mas é que, para nós ouvintes, sempre existe um medo de um dia a fórmula não dar mais certo e as bandas acabarem na autorreferência vazia. O segundo que eles lançaram – e o primeiro que ouvi da banda -, Little Piece of Dixie (2009), é um disco sensacional, que considero, inclusive, o melhor álbum de southern rock dos últimos anos. É um disco com tudo em cima: refrãos pop saborosos; sotaques de southern e country perfeitamente ajustados nos arranjos; e letras divertidíssimas. Já este Find a Light é o sexto registro, foi gravado na Geórgia e no Tennessee e produzido pela própria banda, assim como o anterior.

Todo o medo e falta de confiança encontram certos obstáculos quando finalmente apertamos o play. “Flesh and Bone” já começa com um fade-in estiloso e um riff fortíssimo, conquistando totalmente o ouvinte antes mesmo de cair no refrão. O impressionante é como a produção conseguiu uma fórmula rejuvenescedora e cheia de fôlego, que faz o grupo soar tão disposto a correr riscos como no primeiro álbum, lá de 2004. O álbum não parece resultado de um cumprimento de contrato de uma banda cansada depois de tantos anos de estúdio e estrada, mas, sim, um resultado de uma renovação, de um injeção de ânimo e de vitalidade.

O grande destaque dos arranjos é a criatividade. Pode parecer um grande clichê elogiar a criatividade de um álbum, mas o que quero dizer com isso é que a produção acertou bastante em priorizar o fluxo de ideias diferentes e modernas, sem tentar impor uma limitação para satisfazer as demandas do gênero e do “som típico”. Sendo um disco de um gênero tradicional como o southern rock, de uma banda com visual nostálgico, barbas enormes e instrumentos vintage, já dá para inferir que lançar mão de referências modernas não é tão comum. Isso é o que coloca Find a Light em um patamar acima de outros álbuns do estilo lançados nessa década.

Ou seja, é um álbum guiado pelos riffs, por pequenas ideias conectadas e não por regras estáticas de gênero, e isso é muito bom, pois surpreende o ouvinte a cada instante, mesmo que o álbum tenha um escopo definido com clareza. A construção do arranjo de “The Crooked Kind” ilustra bem a abordagem ousada e livre da banda. Começa com um riff bem alternativo – quase como algo composto para uma banda de grunge – e desenvolve para um refrão dotado de uma certa complexidade harmônico-melódica estonteante – nunca ouvi nada parecido na discografia deles. O riff da ponte é bem diferente e parece introduzir um outro clima dentro da música e, então, eles quebram isso para finalizar repetindo o refrão. A forma como “Medicate My Mind” mistura violão, percussão e guitarra em um mesmo trecho também merece destaque. Sem contar os tracejos bluegrass de “I’ll Keep Rambling”, o segundo solo de “Flesh and Bone” que funciona como um outro, ou o interlúdio de “Lord Strike Me Dead”, que parece um solo louco improvisado do Paul Gilbert.

Desde o início ao fim do álbum, o trabalho de guitarras é soberbo. Na parte dos arranjos, o instrumento sempre rouba a cena, conduzindo os riffs principais ou com ótimos solos – que não fogem ao padrão do gênero com muitos bends lentos e expressivos – e boas divisões que dão a plena noção de que estamos realmente ouvindo duas guitarras se complementando e se divertindo. Essa cooperação e harmonia entre as guitarras pode ser notada na forma como um pequeno fill é executado por uma e logo depois por outra nos versos de “Best Seat in the House”, ou no riff tocado pelas duas ao mesmo tempo no interlúdio de “Till The Wheels Fall Off”. Já a timbragem das guitarras destaca a agressividade do instrumento, mas também possui uma característica brilhosa e sedosa bem marcante. É uma distorção gostosa e doce de ouvir.

O disco perde uns dez por cento da sua força quando investe demais em baladas country como “I’ve Got a Song” e “Mother Mountain”. No começo da audição delas, parece funcionar bem como um alívio, mas acaba sendo os momentos mais burocráticos do álbum, já que eles escolhem desenvolver as faixas sem muita dinâmica. Talvez elas em si soassem melhores em outro contexto, mas no de Find a Light, com toda a inquietação e energia que eles apresentam nas faixas mais heavy, acabam arrastando o álbum e impedindo-o de seguir fluído até o fim.

Depois de ouvir Find a Light, continuo achando Little Piece of Dixie o álbum mais marcante em termos de melodias e letras, mas este novo é, sem dúvidas, o trabalho mais sólido e mais criativo deles. É ótimo para curtir despretensiosamente como um bom disco de rock cheio de energia, com canções que certamente funcionarão bem ao vivo. Aos fãs de southern rock, segue o manifesto musical de uma banda em quem eles podem, de fato, confiar disco a disco.

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.