Kate Nash – Yesterday Was Forever (2018)

Kate fofa X Kate rebelde. Quem vai vencer?

Por Gabriel Sacramento

Lembram da Kate Nash? A britânica que surgiu com um hit em 2007, ganhou um prêmio no Brit Awards de 2008, lançou alguns álbuns bem curiosos e participou em alguns filmes, inclusive em uma série da netflix, GLOW. Em seus discos, Nash ficou conhecida por uma proposta diferente: misturar uma certa fofura pop com uma veia mais garageira, quase como se a Taylor Swift se envolvesse em um projeto colaborativo com a Courtney Barnett. Seu anterior, Girl Talk (2013), foi marcado por essa dicotomia e pela influência do movimento feminista noventista riot grrrl, e o resultado foi intrigante.

No processo de escrita do novo álbum, Kate releu seu diário de adolescente e relembrou a forma como via o mundo naquela época. Isso naturalmente influenciou sua forma de conceber o álbum, acrescentando uma certa ingenuidade adolescente que perpassa todo o projeto, mas o conceito que mistura suas personas contrastantes continua intocado. Yesterday Was Forever é a eterna batalha entre a Kate fofa pop e a Kate rebelde indie roqueira.

A primeira parte do álbum parece que foi escrita, produzida e pensada pela Kate fofa. Mesmo que esteja cantando sobre sérios problemas psicológicos, como em “Life In Pink”, ela reveste as faixas com uma liquidez e uma delicadeza propositais, além de arranjos devidamente formatadinhos, que deixam tudo muito acessível e feliz. No entanto, a Kate rebelde não está totalmente ausente: em “Life In Pink”, a letra possui um tom dark e em alguns momentos, ela parece querer extravasar um pouco mais de fúria na interpretação. Aliás, o refrão dessa faixa soa como uma mistura de trilha sonora ensolarada de filmes adolescentes dos anos 2000 com a grandiosidade do som de bandas pop que tocam no Rock in Rio e são odiadas por isso. “Drink About You”, que é sobre a obsessão pós-fim de relacionamento e possui uma certa urgência controlada também. Em “Karaoke Kiss”, ela cai no eletropop, em uma faixa que, podemos supor, também foi mais controlada pela Kate pop. A faixa caminha por um terreno quase synthpop, com um quê quase futurista acontecendo.

A briga entre a Kate pop e Kate indie se intensifica em “California Poppies”, a faixa mais maluca do álbum. O pré-refrão parece ter sido contribuição da Kate pop, já o refrão é tomado por uma voz agressiva e forte, da Kate indie. A dicotomia deixa a faixa bem interessante, curiosa e manipula bem a expectativa do ouvinte. “Always Shining” e “Today” é a Kate indie cantando folk como as cantoras de indie folk costumam cantar: acentuando algumas palavras, rasgando outras, sem tanta preocupação com afinação. Destaco a forma como a mixagem deixa a voz crua e próxima do ouvinte. “Twisted Up” é a Kate rebelde, um pouco adolescente, mas com participação breve da Kate pop. E “My Little Alien” é uma faixa especialmente maluca, com uns sons esquisitos, lisérgicos ao fundo, enquanto ela conduz um indie folk bem comportadinho.

O que naturalmente seria considerado um transtorno de identidade musical, e que geralmente prejudica os álbuns, aqui na verdade foi o ingrediente a tornar esse álbum ainda mais intrigante. A própria Kate afirma em entrevistas que se considera uma pessoa “dark”, mas também uma pessoa feliz, e por isso, escolhe tratar de suas fraquezas e de temas difíceis com uma sonoridade mais feliz e acessível, buscando sempre misturar em equilíbrio essas características. Kate se preocupou bastante com o tracklist: dá para dividir e separar bem as partes do álbum mais pop das partes mais insurgentes. É como se ela quisesse mesmo agradar a diferentes tipos de públicos que se deparassem com sua música. Até a mixagem trata bem o som de acordo com as diferentes demandas, deixando os universos diferentes bem demarcados e palpáveis.

Yesterday Was Forever é o registro mais corajoso da Kate, no qual, ela vai fundo nas questões que invadem sua mente o tempo inteiro e traduz isso para o som. A experiência é agradável do início ao fim, e o disco é brilhantemente coeso, mesmo que estejamos ouvindo uma artista que abre mão de um estilo só para simular a Taylor Swift em um momento, a Lana Del Rey em outros, incluir eletropop à europeia, hip-hop (“Musical Theatre”) e outros delírios. É uma mixórdia sonora, mas bem direcionada, com um conceito muito forte e um cuidado absurdo com a clareza desse conceito. Na eterna batalha entre a Kate fofa e a Kate rebelde, quem ganha é o ouvinte.

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante.

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