PRhyme – PRhyme 2 (2018)

Eles estão de volta. Com mais faixas, mais ousadia e solidez

Por Gabriel Sacramento

O P é de DJ Premier, o R é de Royce Da 5’9””: é já explicando o nome e o conceito do projeto que o DJ Premier abre o aguardado PRhyme 2, segunda colaboração entre esses dois grandes nomes do hip-hop contemporâneo. A parceria que já tinha dado muito certo em 2014, com o álbum PRhyme, segue com a mesma premissa: juntar os versos e o rapping do Royce com samples providos por um artista apenas, sendo que em cada álbum é um artista diferente, e beats e scratches do DJ Premier. Isso sem contar as participações que enriquecem o álbum com diferentes pontos-de-vista.

Ou seja, se a maioria dos beatmakers por aí se apoiam na possibilidade de buscar samples de diversas fontes, o duo se limita, mas ao mesmo tempo, cria uma outra gama de possibilidades para que o produtor Premier brilhe, tenha o total controle e explore os diferentes rumos criativos. Assim como no primeiro álbum, as bases, a variação entre eles e a formatação das faixas vêm dele e ele acerta bastante deixando tudo muito bem arrumado e intrigante de ouvir. Para esse álbum, a fonte dos samples e das composições foi o AntMan Wonder.

O primeiro registro tinha apenas 34 minutos em 9 faixas. PRhyme 2 se aproxima mais do padrão comercial do hip-hop moderno, com 53 minutos e 17 faixas. Naturalmente, o tamanho do álbum pesa um pouco, pois o impede de ser sensacional. No entanto, o brilho das faixas mais marcantes permanece inalterável, devido ao bom trabalho da dupla principal e a boa alocação dos convidados. “Black History” é a primeira faixa que chama a atenção de cara, contando a história dos artistas ao longo de um arranjo com dois beats principais – que demarcam justamente a mudança de ponto de vista da narrativa. “Rock It” é cheia de energia e de vitalidade, com scratches que funcionam perfeitamente no sentido de grudar na mente do ouvinte e fazê-lo lembrar da frase principal: “I come around and rock it. Aliás, muito desse álbum consiste nessas repetições estratégicas e efetivas com o efeito que o Premier faz, o que dá um tom old-school para o trabalho como um todo.

Outro grande destaque do álbum são as letras do Royce e seus colaboradores. Cheias de punchlines e referências a outros rappers, à cultura pop (filmes como A Rede Social e Corra!) e com direito a um contundente manifesto em defesa ao uso de armas para a defesa pessoal e da família (“Respect My Gun”), boa parte do aspecto atrativo desse álbum vem da forma como foi escrito: as letras são tão inteligentes quanto as do Rashid foram em seu Crise (2018). E assim como o rapper brasileiro, os envolvidos brincam com o elemento ficcional das letras, que vem das referências, e aliam isso à vida real, criando um significado maior e bem aplicado. Não é um disco de grandes conotações políticas – e isso pode ser um problemas para muitos ouvintes -, mas tem comentários valiosíssimos isolados nos versos que significam bastante coisa. A grande sacada é justamente essa: dizer muito sem necessariamente estar dizendo algo, usando o poder da boa escrita ao seu favor. Some isso ao flow do Royce que vai de visceralidade total ao melódico mais calmo e perceberá que as letras crescem de uma maneira incrível na execução.

Além dos scratches, tudo nos beats do Premier cheira à nostalgia. Mas o que vale ressaltar é a sua imaginação na confecção deles, que o permite criar algumas passagens realmente memoráveis. Assim como no primeiro álbum – que, inclusive, ganhou um lançamento só com o instrumental – as bases são sempre tão interessantes de ouvir quanto o rapping e as letras, e algumas são especialmente complexas e aplicam uma boa lógica de rotação de ideias. Não espere bases batidas de trap aqui, e nem todas as faixas precisam de um som de bateria, vide “You Gotta Love It”. Premier consegue ficar em um meio termo entre o hip-hop noventista e o rap orgânico atual, incluindo no meio delírios eletrônicos que deixariam o Vince Staples feliz, elevando o conceito do que é ser um beatmaker dentro do gênero e afirmando a sua personalidade e sua assinatura.

PRhyme 2 só perde para o primeiro no quesito tamanho. Aqui, não pode-se dizer que as 17 faixas funcionam tão bem como as 9 no debut. Mesmo que, justiça seja feita, não haja nenhuma faixa rigorosamente ruim no tracklist, ele é só um pouco cansativo. Mas, mesmo assim, temos um dos mais álbuns mais fantásticos de hip-hop do ano e, talvez, o melhor lançado em terras ianques até o momento. Forte, imaginativo, marcante, sem se entregar à tendências fáceis e prontas: é o resultado de quem escolhe, pelo bem do conceito, ir pelo caminho mais difícil para no processo se forçar a se superar artisticamente. E se no primeiro álbum, pareceu um experimento de teste, aqui, parece coisa séria mesmo, consolidada, uma prova de que o grupo veio para ficar e para fazer seu nome na história do hip-hop. E que venham os volumes 3, 4, etc.

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante.

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