Sons of Kemet – Your Queen is a Reptile (2018)

Ritmos dançantes e polifonia jazzeira contra a realeza britânica, seus privilégios e a desigualdade social

Por Gabriel Sacramento

Em meu perfil pessoal do twitter, tenho criticado frequentemente os artistas do mainstream da música brasileira e a total incapacidade deles de se posicionar politicamente. Mas não digo postar textos nas redes sociais referindo-se a algum ocorrido minutos depois, mas, sim, utilizar a música como meio de expressão política. É claro, não posso fechar os olhos para artistas como Marina Lima e para o pessoal do hip-hop, que mostram-se sempre dispostos a utilizar a arte para pensar o país e debater o caminho para onde estamos indo. Entretanto, os artistas mais populares, que vendem mais, tem sua voz mais ouvida e possuem mais influência permanecem apáticos. A verdade é que a classe musical mais mainstream está sofrendo com a catastrófica “síndrome de Tiago Leifert”, que faz o artista preferir só o entretenimento e calar-se diante da responsabilidade de elaboração de uma mensagem musical mais contundente e mais cidadã. O pop brasileiro precisa de mais conteúdo, de mais profundidade, de mais seriedade.

Mas, felizmente, a música em outros lugares assume essa responsabilidade. Você já deve ter lido diversos exemplos de artistas que foram ao microfone se posicionar contra o presidente vigente dos Estados Unidos, Donald Trump, por exemplo – nesse cast aqui, citamos vários. Pois bem, hoje trago um exemplo de um supergrupo britânico de jazz, formado basicamente por instrumentos de sopro e de percussão, que resolveu utilizar sua música para se expressar contra a realeza britânica. Isso mesmo que você leu. Esses caras resolveram recuperar o espírito contestador de bandas como Sex Pistols e de gente como o Morrissey para protestar contra os privilégios dos monarcas e contra o racismo.

Talvez o jazz não seja um gênero que as pessoas facilmente associem com esse tipo de mensagem, o que faz esta proposta de Your Queen is a Reptile ainda mais curiosa e intrigante. O título do álbum é bem agressivo e os títulos das faixas trazem referências à heroínas das diásporas africanas (Ada Eastman, Angela Davis, Anna J. Cooper, Albertina Sisulu, entre outras), que, segundo os músicos, são as rainhas deles. E o conceito musical está totalmente relacionado com as raízes africanas: o som dos caras possui traços regionais e uma forte influência da boa e rica música que se produz lá.

A produção foca intensamente no ritmo: temos a tuba, que funciona como um baixo, quase sempre muito forte sustentando os arranjos e quase sempre em stacatto. As baterias – sim, “as”, pois temos não uma, mas duas! – soam sempre muito criativas para fills e para enveredar por ritmos complexos e polirritmia, com uma maravilhosa mixagem que deixa os tambores tridimensionais e perfeitamente claros. O fato de haver dois bateristas tocando só engrandece o ritmo e o aspecto dançante. Os instrumentos soam bem independentes entre si, o que deixa o disco bem denso em alguns momentos, com vários contrapontos acontecendo. Mas temos belíssimos e específicos momentos em que eles se unem em uníssono para engrandecer os temas. E há uma boa administração de foco nos temas, no geral, que guia o ouvinte. Além das mais sacolejantes, também temos no tracklist canções mais contemplativas e mais calmas como “My Queen is Anna Julia Cooper” e “My Queen is Nanny of the Maroons”.

O disco possui vocais que entram em alguns momentos, como em “My Queen is Ada Eastman”, faixa que abre. As letras são meio que declamadas e complementam o conceito, mas em nenhum momento tomam o centro das atenções: o foco aqui é fazer com que o instrumental grite a mensagem, sem precisar de cordas vocais. Os direcionamentos e escolhas musicais engrossam o coro dos ingleses contra aquilo que eles abominam: a desigualdade gerada pelo sistema hereditário de poder. Eles deixam implícito que, assim como no álbum em que eles dão voz e igualdade a todos os instrumentistas, estimulando a harmonia e empatia entre eles, assim acreditam que deve ser na sociedade.

Dizem que o Shabaka Hutchings, saxofonista do grupo, é o Kamasi Washington do Reino Unido. Não acho que Your Queen is a Reptile seja tão focado em proporcionar uma experiência cósmico-espiritual como geralmente os trabalhos do Kamasi são, e o fato dos britânicos se concentrarem bastante no ritmo acaba padronizando bem mais o som deles e tornando menos livre para experimentações. No entanto, com esse álbum, Shabaka se estabelece como um jazzista de respeito, que tem muito a dizer sobre o mundo em que vive, e o faz com um som absurdamente impressionante de ouvir. Merece ser ouvido e suas ideias merecem ser discutidas e consideradas. Sua coragem, acima de tudo, merece aplausos. Aqui estão os meus.

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante.

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