Nathaniel Rateliff & The Night Sweats – Tearing at the Seams (2018)

Ainda faz sentido falar em teste do 2º disco? Nathaniel Rateliff não liga para esse clichê

Por Eder Albergoni

Um dos clichês mais sedutores da música discorre sobre o segundo disco de uma banda ou artista. Invariavelmente, eles penam com a questão que certamente batuca na cabeça dos fãs e da crítica especializada, louca pra cair matando de paulada. Isso, de certo, é muito mais ilusão do que a realidade pura e simples. OK, bandas e artistas se empenhem mais da segunda vez, até pra contornar o possível problema, mas anos luz de passarem todo o tempo analisando o que fãs e críticos vão falar de seu trabalho.

Tearing At The Seams é o segundo disco de Nathaniel Rateliff & The Night Sweats, e vem pra comprovar a tese que ninguém liga muito pro tal clichê. Não que a banda não pareça preocupada em entregar o melhor que pode e que foi apresentado no autointitulado disco de estreia, lançado em 2016. É que agora há parâmetros que ou destacam ou escondem os pontos que julgamos fortes e atraentes da banda. “Shoe Boot” e “Be There” dão um chute nessa desconfiança logo de cara.

Entenda que Nathaniel Rateliff passou anos e anos em busca de uma sonoridade que representasse a maneira e a própria e complicada vida. De inclinações mais atuais até se juntar aos Night Sweats, Nathaniel redesenhou o caminho pelo qual andava e finalmente alçou voos entre o soul das big bands adentrando um espaço folk e country de características peculiares ao grande público do sul e interior americano.

Sem cair na pegadinha do moderno contra o vintage, a banda cria texturas sonoras dançantes e ainda tensas o suficiente pra pausas mais reflexivas. Existe algo que os conecta à mesma estrada pela qual trafega Kings of Leon e qualquer outra manifestação mais pop do cenário. Às vezes pela voz, às vezes pelo instinto de preencher lacunas e dar vazão à criatividade. Nesse aspecto, os metais se destacam, como em “Litlle Honey” e “Hey Mama”, ainda que essa última mantenha as coisa muito mais equilibradas entre as harmonias do órgão Hammond e dos violões.

A participação da Lucius em duas faixas rende bons momentos introspectivos, além de te lançar por um túnel sentimental direto aos anos 50. É onde Nathaniel modula as emoções, soando até como um tipão de Bee Gees mais soul e menos disco. “Babe I Know” é a mais inocente e “Coolin’ Out”, a mais transgressora. “Intro”, que aparece no meio delas, é uma tentativa de amarrar as pontas de Tearing At The Seams com o primeiro disco, ainda que o funk frite nossas cabeças com o arranjo e disposição dos metais.

No fim das contas, nada mal para um segundo disco que se propõe o desafio de ser experimentado, reavivando marcas muito profundas do passado que se mistura às propostas pouco menos atuais utilizada em “You Worry Me”, com seu baixo liderando, o piano servindo de tempero, dando a pulsação certa pra todo o conjunto mostrar, afinal, de que ano estamos falando e compondo novas canções. E se a música, particularmente, dialoga com o passado, os temas das letras servem como um bom chute na bunda, ainda que quase nada politizado. A banda consegue a sutileza de ser ouvida com atenção enquanto se prepara pra mais uma seção de ótima dança.

Eder Albergoni Autor

4º elemento, 10º homem (sempre do contra), pinkfloydiano e adepto do meteorismo. Cresceu ouvindo e herdou os LPs do tio. Às vezes suas resenhas parecem crônicas. Às vezes, contos. Às vezes parece resenha também.

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