Lonely Kamel – Death’s-Head Hawkmoth (2018)

Noruegueses entregam um bom resultado para o contexto metal 2018

Por Gabriel Sacramento

Ativo desde 2008, o trio norueguês Lonely Kamel continua muito bem até hoje na sua proposta sonora stoner, misturada com doom e blues, de um jeito inspirado pelo grupo do Ozzy Osbourne, com leves variações ao longo da discografia de três discos e dois EPs. O som do grupo é o que muita gente gosta de rotular como “dark trip e relaciona tendências que já foram exploradas pelo Black Label Society com um pouco da podridão que marca o Spiritual Beggars. Mesmo que em Shit City (2014), eles tivessem ido por um caminho mais hard rock cervejeiro dos anos 80, passaram pela ressaca de cerca de quatro anos e voltaram à sobriedade neste robusto Death’s-Head Hawkmoth.

O álbum foi produzido por eles mesmos na Noruega e mixado por Ruben Wilem em Oslo. Na produção deles, o interessante é como focam em manter a veia stoner/doom, mas variando ao máximo os arranjos, em termos de velocidade das faixas e variabilidade de ideias mesmo. Ao mesmo tempo em que a produção resgata bem os riffs de uma nota só dos primeiros álbuns, mistura isso com o riff em stacatto de “Psychedelic Warfare”, por exemplo, e com um foco maior na velocidade em “More Weed Less Hate”. O trio consegue fazer com que as sete faixas soem bem distintas uma das outras – o que fica claro pelo fato de que apenas duas faixas têm quase a mesma duração. “The Day I’m Gone” começa com pegada de balada, desenvolve para o jeitão stoner de sempre e cai numa jam lisérgica com efeitos de guitarra em primeiro plano. A estranha “Move On” segue uma lógica de edição bem interessante: começa com uma espécie de gravação de um som de festa, que depois vira a música mesmo, com atmosfera meio despretensiosa e instável, uma marcação de bateria, uma guitarra pequena marcando harmonia e vocal do Thomas cantando uma melodia, que, por fim, descamba perfeitamente em “Inside”. Grande acerto da masterização do Brian Gardner.

Eles não têm nenhuma pressa: os riffs são desenvolvidos com lentidão, soando bastante, com as distorções lentamente ocupando os espaços na nossa cabeça, mesmo que isso faça com que as canções tenham mais de cinco minutos e não variem muito. Só que em nenhum momento isso joga contra o álbum, já que a administração dos minutos é muito bem feita, levando em conta a atenção do ouvinte. Os riffs são, no geral, simples e parecidos entre si, o que reforça a sensação de estabilidade que a música deles passa. As músicas são bem centradas nas guitarras, com boa liberdade para entrada de solos que parecem bem improvisados.

Além da guitarraria, temos um momento em específico de mais apelo pop: “Inside”, que possui muitas das características já citadas, mais o acréscimo de um refrão marcante – muito mais forte pela performance vocal do Thomas Brenna do que pelas melodias, é verdade. A melodia do refrão parece muito com algo que poderia ter sido composto por bandas alternativas do início do milênio como Three Days Grace e 3 Doors Down. A faixa acrescenta ainda mais complexidade ao álbum, mesmo não afetando a integridade do todo.

Vale destacar o show que o Espen Nesset dá na bateria desse álbum: levadas precisas, seguras, que variam o suficiente para dar um certo brilho ao instrumento e uma demonstração de técnica apurada na forma como pensa o kit e passeia por ele. É prazeroso ouví-lo. A mixagem da bateria é muito bem feita também, pois sentimos até mesmo o efeito causado pela mudança de prato condutor das levadas e a bateria se sobressai bem ao peso das guitarras.

Foto: Peter Marques Figueiredo

Quanto à engenharia, as mesmas características dos álbuns anteriores são resgatadas, como os timbres sujos lo-fi propositais de guitarra, para gerar um efeito mais agressivo. E a mixagem engrandece essas guitarras, arrumando bem de forma uníssona as diversas faixas gravadas, focando no aspecto mais grave do instrumento para preencher o espectro. A mix também consegue soar mais rítmica em alguns momentos, como “More Weed Less Hate”, com sua abordagem que flerta com o punk.

O álbum é todo pesado, mas com bons momentos de alívio. Tudo soa muito bem arquitetado e produzido, reforçando o que a banda faz de melhor e misturando bem com o que eles tentam trazer de novo à equação. No entanto, Death’s-Head Hawkmoth não tem o mesmo frescor e carisma de blues for the dead (2010) e do ótimo Dust Devil (2011), deixando a sensação de que, mesmo sendo um bom resultado, eles já fizeram melhor. Talvez tenha faltado um pouco mais de esforço ao Thomas Brenna vocalista ou talvez tudo tenha ficado guitarrado demais. Mas, quer saber? Se é melhor ou não, pouco importa. Dentro do contexto metal 2018, que já teve Machine Head e Black Label explodindo cabeças, funciona perfeitamente bem. Temos testosterona, guitarras na cara, uma produção que não tem medo de sujar e de deixar as canções fluírem e sem necessidade de formatação pop. Só falta os headbangers pararem de reclamar da falta desse tipo de som, saírem da centralização Estados Unidos-Inglaterra e descobrirem bandas como essa.

Foto: Erik Moholdt

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante.

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