Laura Pausini – Fatti Sentire (2018)

A fórmula pausiniana ainda não se esgotou

Por Eder Albergoni

Assim como um filme de robôs gigantes enfrentando robôs gigantes que entrega o que promete sem precisar se aprofundar e caprichar no roteiro mais do que nos efeitos especiais, um disco de Laura Pausini tem a mesma razão de existir. Fatti Sentire é o 13º disco da carreira dela e, pelo menos a última metade, é uma sucessão da fórmula sendo repetida à exaustão. Mas, ao contrário de franquias cinematográficas, Laura mostra um fôlego novo a cada lançamento.

A artista italiana mais bem sucedida de todos os tempos tem se dividido entre Itália e Miami, apostando no mercado latino, lançando versões em espanhol e com participações escolhidas a dedo. É o caso da versão brasileira do disco que conta com Simone & Simaria na faixa “Novo”, um vislumbre de modinha emulando “Despacito” e similares. Mas eis que a clássica Laura Pausini comanda o início com “Non è Detto” e “La Soluzione”, duas baladas tipicamente pausinianas e que indicam que o caminho, que ela diz ser novo no comunicado para a imprensa, não é tão diferente daquele de antes.

“E,STA.A.TE” é uma tentativa de jogar pra galera a tal renovação de ideias e absorver o que é feito e produzido quando o assunto é agradar públicos específicos ou de nicho. Não cola, assim como não cola e me desagrada, pessoalmente, Laura Pausini cantando em inglês. Acontece que a tentação de sobressair-se em outros mercados acaba por estragar e tirar do trabalho de Laura o que ele tem de melhor. O que “Frasi a Metà” e “Le Due Finestre” ensaiam, “Fantastico (Fai Quello Che Sei)” sublinha a excelência atuando no drama e intensidade criados na medida ideal pra apagar qualquer traço de “No River is Wilder”. Não se trata, musicalmente, da produção aplicada ou da característica do DNA sonoro de Laura, mas sim de uma sutileza que atravessa os anos e resgata momentos dos mais caprichados de Le Cose Che Vivi (1996).

Essa Laura é dotada de todo um roteiro concebido no início da carreira, que desafiava a postura musical de um país inteiro a favor de uma modernidade que nunca primou, apesar do vanguardismo dos anos 60. O tempo passa, afinal. Para todo mundo. Mesmo trabalhando com Rik Simpson, produtor de Coldplay e Jay-Z, Laura olha pouco para o que a própria música italiana tem a oferecer de novo, como vimos com Ultimo e Annalisa. E quando ela mesma diz, teve que – e precisa – trabalhar duas vezes mais que qualquer um pra conseguir o sucesso, então dá pra entender o pensar grande, o passo maior que a perna e intuir uma mudança de rumo, torcendo para que o rumo mude.

Quando ouvimos “L’ultima Cosa Che Ti Devo” e “Un Progetto Di Vida In Comune” esse argumento preenche os ouvidos e nos devolve ao questionamento inicial: É preciso fazer mais do que só entregar aquilo que todo mundo gosta? Crescimento profissional, buscar referências e soluções novas, assunto pertinentes que poderiam acrescentar ao trabalho. Tudo isso grita que sim.

A parte final do disco é muito inconstante, quase sem direção certa. O que se salva é, de novo, tudo o que já reconhecemos da sonoridade de Laura. “Il Caso è Chiuso” destaca a voz e a afinação sempre em dia. “Il Coraggio Di Andare” chupa um pouquinho de “Non è Detto” e termina o disco confirmando a repetição de uma fórmula que ainda não se esgotou só porque é Laura quem a utiliza. Fora isso, a inconstância é resultado da iniciativa de tirar o pé da forma e ver no que dá. Se comparar com o disco de Ermal Meta, o que falta é um pouco de confusão e conflito à Laura Pausini.

Eder Albergoni Autor

4º elemento, 10º homem (sempre do contra), pinkfloydiano e adepto do meteorismo. Cresceu ouvindo e herdou os LPs do tio. Às vezes suas resenhas parecem crônicas. Às vezes, contos. Às vezes parece resenha também.

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