Tais Alvarenga – Coração Só (2018)

Musicalidade generosa e gentil com arranjos intrigantes

Por Gabriel Sacramento

Discos são obras de arte com mistérios a serem desvendados e detalhes secretos que só vem à tona depois de um bom tempo de audição. Por isso que, toda vez que me submeto a ouvir um disco para analisar aqui no Escuta Essa Review, eu costumo ouvir várias e várias vezes até me tornar “íntimo” dele e, assim, ser capaz de falar sobre. À medida em que ouvimos, passamos das impressões mais superficiais, que focam mais em letras e em quão marcantes são as melodias, para perceber os componentes internos e detalhes de lógica da construção dos arranjos, execução e da parte da finalização técnica. Uma boa crítica não está preocupada somente com a primeira impressão, mas, sim, com os valores escondidos que um álbum possui.

Tais Alvarenga começou a cantar nas igrejas, e depois foi para Boston para estudar música na Berklee. Antes da universidade americana, sua visão de música era limitada, depois, expandiu para algo tão inspirador, que ela resolveu compor e criar um álbum. Coração Só é seu primeiro registro e foi produzido pelo Pupillo, excelente baterista do Nação Zumbi e produtor de diversos outros grandes álbuns, como o A Gente Mora no Agora (2017) do Paulo Miklos e o Tropix (2016) da Céu.

Foto: Rael Barja

Escrever uma boa crítica é uma arte. Escrever um álbum também. Tais sabe disso e surgiu com um álbum bem poético e pessoal, na medida certa. Suas letras refletem sobre suas experiências amorosas, fechando o álbum com um tom positivo e esperançoso. A análise das letras também passa por aquilo que citei no primeiro parágrafo, indo de uma compreensão mais simples a uma experiência de acesso à intimidade do artista nas audições posteriores. E o nível de contemplação que Coração Só cria faz com que o ouvinte se pegue totalmente envolto na escrita da cantora.

Pupillo conseguiu desenvolver uma complexidade impressionante na estruturação dos arranjos: é como se a instrumentação estivesse focada em contar uma história diferente da que o vocal da Taís conta, na maioria dos arranjos. As ideias da base instrumental seguem andando livremente, sem se prender aos vocais, com uma autonomia que favorece os delírios criativos – e leves experimentações em seções mais voltadas para isso. Mas não é uma autonomia confusa, há um cuidado com isso. É como se os vocais estivessem limitados pela estrutura padrão linear (verso-refrão-verso-refrão-ponte) e a base instrumental seguisse uma lógica diferente, cumulativa, em que cada seção acrescenta algo ao que veio antes, ou com uma base que se mantém linear do início ao fim, independente das mudanças de seção das letras. O que faz com que, por exemplo, a base de um refrão seja diferente a cada execução ou a base do verso seja a mesma do refrão. O que contribui para que nossa noção da transição entre as seções das faixas seja borrada.

A estratégia do Pupillo na produção dos arranjos é inventiva e soa como se, fazendo uma analogia com a construção de um texto, um escritor seguisse uma linha de raciocínio nos parágrafos pares do seu texto, e outra nos ímpares, contando duas “histórias” paralelas. As execuções também se destacam bastante: Pupillo conseguiu explorar seu lado baterista e criar levadas incríveis, bem elaboradas e linhas dinâmicas, abusando das possibilidades do kit; o produtor também conseguiu um controle fabuloso da execução dos instrumentos, que vão de sons mais fracos à mais fortes de uma forma muito orgânica – o que fica evidente nos crescendos do meio da faixa-título. Além disso, a voz da Tais é sempre suave, mas cheia de fôlego e uma simpatia emocionante.

Tais não parece ter a pretensão de soar comercial e ganhar as novelas urgentemente – mesmo que as faixas tenham sido incluidas em algumas delas. Mas sua ambição é de fazer algo particular, que fale com o ouvinte e o mantenha ligado. Mesmo não tentando ser mais acessível, “Duna” se destaca por seu refrão cativante e gostoso de ouvir, que se destaca pela tranquilidade com que a cantora executa frases bem longas por verso. Se fosse apostar no sucesso de outros singles, minhas fichas iriam para: “Ainda Penso”, com seu refrão melodioso com o nome da faixa, “Outro Sol”, que cresce de algo solitário para uma sonoridade mais cheia, com uma melodia mais melancólica e ganchos com muito potencial no refrão e na ponte. E a outra é “Tudo”, que foi realmente um single e conquista pelo seu ritmo forte, dançante e relaxado, com um quê de brasilidade mais intenso.

A mixagem investe numa leveza muito agradável, com uma demarcação clara dos instrumentos que nunca deixa o ouvinte perdido com relação ao que está acontecendo. A criação de clima é muito expressiva, com timbres mais preto-e-branco em algumas faixas, para favorecer o aspecto contemplativo, e outros mais coloridos, como em “Tudo”, para fortalecer a ideia de movimento e energia. Quando Tais surge sozinha com o piano, a capa parece ser traduzida para a música, com uma mixagem seca, que reforça a solitude da artista e o nível de inspiração e de verdade que sua expressão transmite.

Mesmo possuindo uma certa influência do jeito de pensar música dos americanos, a cantora conseguiu desenvolver algo que não soa completamente copiado de qualquer artista de lá. Da mesma forma, ela não esconde as características brasileiras do seu som, mesmo que não deixe nenhuma referência evidente demais. É como se ela pegasse todas as experiências lá e cá, unisse à sua visão musical e produzisse canções híbridas. Aliás, é por isso que em nossas listas aqui no site nós não dividimos entre nacionais e internacionais, pois acreditamos seriamente que um álbum como Coração Só não perde em nada para o que é produzido lá fora e merece estar no meio deles.

Coração Só já um dos destaques do ano na nossa música. Um álbum que merece ser ouvido diversas vezes e devidamente compreendido. Por ser de estreia, é ainda mais fascinante pensar que a artista foi pelo caminho mais difícil e não abriu mão da sua independência artística para confeccionar uma musicalidade generosa e gentil. Ouça esse álbum o quanto antes!

 

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante.

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