Myles Kennedy – Year of The Tiger (2018)

A libertação do artista em um disco doloroso e amargo

Por Gabriel Sacramento

Myles Kennedy perdeu seu pai aos quatro anos de idade e, como acontece com todo evento traumático que ocorre na infância de qualquer ser humano, ele foi duramente marcado por isso em todas áreas da sua vida, inclusive na sua arte. 44 anos depois, o músico decidiu voltar a essa história e despejar sobre seus fãs a decepção, a mágoa, a raiva e a saudade que aquela morte causou nele, abrindo seu coração com uma honestidade brutal em seu novo álbum, Year of The Tiger. O título é uma referência ao calendário chinês, que demarca o ano de 1974 como “o ano do tigre” – justamente o ano que perdeu seu pai tragicamente. O título é bem claro e a capa traz o músico com seu violão em um fundo preto. Sim, é um disco contundente sobre morte.

Com isso, Kennedy anunciou o trabalho mais ambicioso e pessoal da sua carreira. Conhecido por seu trabalho com o Alter Bridge e com o good-vibe Slash, em Year of The Tiger, o cantor nos apresenta uma faceta mais intimista e obscura que ainda não conhecíamos. Uma persona forte, angustiada, marcada pela melancolia, mas que busca redenção, de alguma maneira, na forma de melodias marcantes e eficazes.

Para a produção, Kennedy contou com o Michael Baskette, que produziu o fraco The Last Hero (2016) do Alter Bridge e o ótimo World on Fire (2014) do Slash. Baskette é bem conhecido por seu trabalho com bandas de metal pesado, mas aqui, em um disco predominantemente acústico, sua aposta foi bem segura: extrair excelentes performances vocais e focar nas letras do álbum, pensando na instrumentação calcada nos violões como segundo plano, sem muito desenvolvimento, para criar climas que fortalecem o conceito. O álbum concentra-se bem no Myles compositor, engrandecendo os espaços em que as vozes estão presentes. Caso a instrumentação tivesse um grande peso no álbum, poderíamos imaginar remover os vocais do Kennedy e ainda teríamos um álbum completo. Mas no caso de Year of The Tiger, se tirarmos os vocais, o disco desfalece totalmente, pois sua força e todo seu atrativo está em sua figura principal, Myles Kennedy cantor e compositor. A instrumentação é simples e as ideias transversais são pouco relevantes para o impacto da audição.

Em termos puramente musicais, a faixa mais interessante é “The Great Beyond”. Desde o primeiro verso, percebemos como as melodias compostas pelo Myles parecem ter sido pensadas para o metal melódico, e para intensificar a sensação, Baskette coordenou a instrumentação – de violões, violino, cello e cordas – para chegar a um tom épico, teatral e ficcional. Em alguns momentos, é impossível não pensar que, caso tivéssemos guitarras abafadas e distorcidas e uma bateria acelerada, teríamos uma grande canção de power metal. A faixa parece mesmo algo que poderia ter sido composto pelo Angra na fase Edu Falaschi. A forma como eles conseguiram desenvolver um clima tão expressivo com instrumentos incomuns e sem truques de mixagens lembra muito o álbum The Coyote Who Spoke In Tongue (2017) do John Garcia e ressalta a força da composição como foi pensada: seus acordes e sua linha melódica falam mais do que várias guitarras e uma bateria pesada falariam.

O fato do produtor ser de metal fica evidente na forma como ele pensa os violões e principalmente na forma como os mixa: pesados, cheios, agressivos e sombrios. A falta da guitarra forte com distorção é algo notável e o violão substitui bem o instrumento ganhando contornos diferentes do usual. A mixagem do Baskette também se destaca por criar um senso rítmico que permanece presente e impactante, mesmo quando a bateria não está sendo tocada. A instrumentação é bem confusa e monocromática em alguns momentos, propositadamente, para gerar um desconforto no ouvinte e deixar os vocais brilharem.

Em termos líricos, as mais fortes são “Nothing But a Name” e “Blind Faith” – cujo título faz referência ao fato de que o pai do Myles morreu devido à fé na sua religião chamada Ciência Cristã, já que ele acreditava que não precisava de remédios. Nelas, Kennedy deixa ainda mais evidente o tema do álbum, com tom de carta aberta, falando sobre o vazio gerado pela falta do pai e sua mágoa com a religião dele. As outras letras casam bem com essas mais abertas, sempre abordando o eu-lírico diante de algum sofrimento, angústia ou pesar. É interessante o fato das melodias serem sempre belas e inspiradas, tocando o ouvinte, contrastando com o tom amargo das letras.

Myles tocou uma série de instrumentos: guitarra lap steel, violão, baixo e mandolin. Contou com Zia Uddin para as baquetas e Tim Tournier para o baixo. Mesmo tocando bastante coisa – e principalmente guitarra, que é considerado outro dos seus grandes talentos – suas performances mais marcantes são as vocais. Sua voz soa gigante e próxima do ouvinte, mas bem limpa, enquanto ele transita de belos graves à fortíssimos e potentes agudos, mesmo que ao violão – aliás, essa combinação agudos potentes + violão me lembrou o que o Chris Cornell adorava fazer em seus shows solo. Kennedy interpreta muito precisamente suas canções, sendo bem power metal na já citada “The Great Beyond”; sendo teatral naquela que parece uma música do Johnny Cash e ao mesmo tempo uma trilha de um western, “Haunted By Design”; e sendo forte e seguro em “Mother”. Seus agudos se encaixam perfeitamente às canções e engrandecem as belíssimas melodias – que realmente clamam por esse tipo de interpretação -, não sendo tão mal colocados e histriônicos como soaram em The Last Hero.

Year of The Tiger é o primeiro disco que o Myles Kennedy gravou que é bem ele mesmo. Seu estilo vocal, suas letras pessoais, seus demônios internos e seus gritos agudos ressoando por nossas cabeças e criando empatia em nós. Mesmo com o ótimo trabalho que ele já vinha fazendo com o Slash, esse é seu primeiro grande disco, e é interessante que ele já tenha começado a carreira com álbum tão consistente. Um álbum que tem muito o que dizer e que chama a atenção para a coragem do vocalista e produtor em suas escolhas não convencionais, artísticas e seu conceito arrasador. Já que em seus outros projetos, ele está sempre preso pelas obrigações musicais e pelos desejos dos outros membros, nesse álbum, ele usa temas pesados e dolorosos para alcançar a libertação do grande artista que tem dentro de si. Já é o mais intrigante disco de estreia desses primeiros três meses.

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante.

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