Snoop Dogg – Snoop Dogg Presents Bible of Love (2018)

Uma ótima coletânea com vários gêneros da música negra conectados pela espiritualidade

Por Gabriel Sacramento

Lá vem o Snoop Dogg com mais um de seus lançamentos para atestar o que veio dizendo há um tempo: a forma como os americanos encaram a música gospel difere muito da como nós encaramos aqui em terras tupiniquins. Lá, eles veem o gênero com carinho, respeito e admiração, afinal, o gospel como estilo musical tem o registro de paternidade de estilos tipicamente afro-americanos, e influentes mundialmente, como o soul e o R&B. Ou seja, o gospel para eles é algo tradicional – mais ou menos, dá pra dizer, como a Bossa Nova para nós -, o irmão do blues, componente da pangeia musical que gerou o rock, o soul, country, funk e o R&B. A música gospel americana não é somente um meio de unir espiritualidade à música, mas uma forma musical derivada de um meio de expressão dos afro-americanos nos momentos de trabalho nas lavouras, as Spiritual Songs. Isso deixa claro o porquê de artistas como Elvis Presley, Johnny Cash, Al Green, Aretha Franklin sempre terem reverenciado o gospel, implícita ou explicitamente em suas faixas e álbuns, e torna mais fácil compreender o motivo que levou um rapper conhecido por seu gangsta rap a lançar um álbum com canções do estilo.

Dogg ficou com a curadoria e produção executiva do projeto Bible of Love, que envolveu mais de 27 artistas. Mas ele também surge com alguns versos em algumas faixas. O rapper chamou gente bem conhecida no circuito gospel, dos mais antigos como Fred Hammond – que além de um cantor excepcional, é um dos melhores baixistas da sua geração -, Patti LaBelle e Kim Burrell à artistas mais novos como Mali Music e o já frequente colaborador, October London. Bible of Love já é, junto com o Beloved Antichrist do Therion, um dos álbuns mais ambiciosos e grandiosos deste ano em termos de produção vocal. São diversos cantores, timbres e estilos diferentes que conversam perfeitamente bem.

Uma das grandes contribuições do gospel para a música popular no geral foram justamente as grandes vozes e as técnicas vocais. Esse álbum é deleite para quem curte boas performances vocais, com um baile de exibicionismo técnico que é bem utilizado e adequado ao contexto: bom uso de melismas, drive, swing em vocalizações de vão do energético ao sensível. Isso sem contar as harmonias, que são muito bem elaboradas, como em corais mesmo. O álbum tem material suficiente para fazer o trabalho de professores e preparadores vocais bem mais fácil. E o que faz as técnicas funcionarem tão bem aqui são as interpretações dos cantores: o feeling das vozes cantando as melodias é notável e essa sensibilidade serve de guia para que eles saibam o que usar e quando usar.

Em se tratando de estilos, temos canções que, em uma análise por cima chamamos de gospel, mas que se aumentarmos o zoom, percebemos uma coletânea com elementos de soul – de antigamente e neo -, R&B, funk, hip-hop e o próprio estilão gospel contemporâneo. O álbum combina pianos aconchegantes com órgãos lounge, baterias quebradas e sincopadas com beats eletrônicos, além de linhas insanas de baixo, com uma variedade impressionante de timbres. O que falei na crítica do Chris Dave and The Drumhedz vale para esse álbum também: é um resumão de várias tendências da música negra de vários momentos históricos diferentes, que funcionam perfeitamente, pois o álbum consegue encontrar o ponto de interseção entre eles.

As letras são o componente que define o álbum como gospel. E claro, elas não fogem à reprodução dos clichês típicos do gênero, mas isso não chega a ser um fator negativo. Em alguns momentos, como em “Pain”, Dogg traz as letras para um nível mais pessoal, falando sobre si mesmo e seus problemas que ele esconde quando pega o microfone para cantar. Mas no geral, as letras são bem positivas e versam muito sobre amor, o que, segundo o rapper, é o que o mundo atual precisa.

Bible of Love é um registro culturalmente importante, pois aborda um gênero tradicional com uma linguagem moderna de uma forma competente. Além disso, é mais um reencarnação musical do Snoop Dogg, em um trabalho diferente no qual ele se afasta mais do microfone e que se dá bem agindo mais “dos bastidores”. Com isso, Dogg mostra que é um artista complexo e multidimensional e busca mais uma vez novos caminhos e novas experiências em sua carreira. Já para os fãs de gospel, temos o álbum do gênero mais interessante dos últimos anos, uma boa playlist de nomes de peso, que coloca todo mundo para refletir, mas também para dançar com grooves irresistíveis.

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante.

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