Jack White – Boarding House Reach (2018)

Artista e gerente de sua própria arte, Jack White entende o que é a música contemporânea e o que ela pode ser

Por Lucas Scaliza

Boarding House Reach, 3º disco da carreira solo do polivalente Jack White, é um trabalho que escancara algumas mudanças na música como um todo e na forma como White passa a encarar sua obra.

A primeira mais notável mudança é a inclusão de processos digitais no acabamento das músicas. Até então, Jack White era analógico até o talo e sentia um prazer sádico na dificuldade de, em plena segunda década do século 21, continuar gravando todos os instrumentos em fita magnética e depois mixar tudo sem a ajuda de programas de edição no computador. Era um tipo de orgulho em dizer que tudo era o mais orgânico possível. Mas aí ele ouviu de Chris Rock que “ninguém se importa” como sua música é feita, e ele percebeu que isso realmente não faz muita diferença. Pois bem: em seu novo disco, Jack gravou todos os instrumentos em fita, e pode apostar que usou amplificadores valvulados, mas editou todo o material no Pro Tools, programa que Jack já disse se tratar de “roubar” na hora de produzir música.

Além desse detalhe extremamente técnico – que para o ouvinte realmente não faz a menor diferença, porque Boarding House Reach é vintage nos timbres e na alma – é possível ouvir baterias eletrônicas e efeitos adicionados digitalmente, algo até então nunca associado a uma composição de Jack White. E antes que os mais puristas comecem a dizer que JW se vendeu ou se rendeu, todas as adições eletrônicas são usadas com uma sabedoria enorme e parcimônia, servindo para incrementar o retrofuturismo do álbum.

Jack sempre foi retrô, sabemos disso desde os tempos de White Stripes. Em Lazaretto (2014) o que ficou evidente de uma vez foi a mão única para criar canções que misturavam rock garajeiro, rock clássico, rock noiser, blues, country e folk de uma maneira muito própria, às vezes apagando as fronteiras entre um e outro. Mais do que isso, ele conseguiu incluir no 2º disco uma música instrumental de guitarra bizarra (“High Ball Stepper”) e outra que mostrava a influência do hip hop (“That Black Bat Licorice”) pela primeira vez. Dessa vez ele coloca em sua mistura ainda mais hip hop – que perpassa pelo menos 1/3 dos 44 minutos do disco – e uma belíssima dose de funk setentista, fazendo uma incursão pelo reino do Funkadelic e do Sly & The Stone Family (“Corporation”, “Hypermisophoniac” e “Get In The Mind Shaft”). E tudo isso sem perder a própria voz e o estilo construído desde o fim do século passado, quando ainda tocava com Meg. “Ice Station Zebra”, rica em balanço, groove, texturas vintage e vocal mais rappeado não me deixa mentir, deixa?

Nenhuma faixa é puramente funk ou puramente hip hop, ou puramente blues ou puramente rock. Ainda que os timbres remetam aos anos 70, essa mistura toda é muito contemporânea. A adição de batidas eletrônicas e efeitos digitais, assim como mais elementos de hip hop, a vertente da música pop mais “pop” nos EUA neste momento, faz de Boarding House Reach um produto retrofuturista. Talvez seja bom evocar “Respect Comander” agora. Ou “What’s Done Is Done”.

Outra mudança é que White não o gravou em Nashville, onde mora e estabeleceu a sede da Third Man Records, sua empresa/gravadora/selo. Ele foi para Nova York e Los Angeles gravar com artistas que ainda não conhecia, mas tinha recebido um bom feedback. Grande parte deles era músicos de hip hop, jazz e fusion. Entregou algumas ideias ou progressões de acordes para eles e começaram a fazer jams. Criaram diversas versões das mesmas músicas. JW pegou todo esse material, gravado com pessoas muito diferentes, e levou para o Pro Tools em Nashville. Lá editou tudo, misturou gravações de uma banda com outra e fez a mágica de organizar aquele mundo de possibilidades em algo que fizesse sentido (pelo menos para ele).

Jack White não é nenhum novato e sabe que seu disco, por mais diferentão que possa parecer, precisa de apostas mais seguras. E aí temos “Connected By Love” que serve como a balada de acordes maiores e radiofônica de Boarding House Reach e a animada “Over And Over And Over” é o rock certeiro, com ritmo fácil de assimilar e riff incendiário. Assim ele garante os singles para o público geral e deixa as maiores estranhezas que surgem ao longo do disco (“Abulia and Akrasia”, “Everything You’ve Ever Learned” e a parte final de “Humoresque”) para quem está a fim de mergulhar no projeto de forma mais completa.

Mesmo sendo um guitar hero (do tipo que se contrapõe à figura clássica do guitar hero, aliás), Jack White deixou que o disco tivesse doses significativas de sintetizadores e teclados. Eles aparecem a todo momento. Até mesmo a guitarra de JW às vezes soa como se processada para soar como um sintetizador (“Why Walk a Dog”).

Boarding House Reach não é o disco que ficará conhecido como o detentor dos maiores singles de Jack White na carreira solo. Poucas faixas são realmente acessíveis ou lineares como o grande público está acostumado. O modo de compor e de editar as músicas gravadas serviu para que o músico saísse novamente da zona de conforto e isso influenciou a confecção das faixas, que obedecem muito menos ao formato canção (presente nos dois álbuns anteriores) e mais a um exercício estético. Se não é um disco de canções, o charme de Boarding House Reach está em ser um projeto mais audacioso, como muitos têm a oportunidade de fazer atualmente e poucos de fato encaram o fardo de criar algo estranho e imprevisível ao público, seja ele uma grande massa que ainda não foi mais fundo em JW ou até mesmo os fãs de longa data.

Jack White não usava Pro Tools para remar contra a maré. Abriu mão desse princípio e mostrou uma noção musical ainda mais alternativa do que antes. Artista e gerente de sua própria arte, ele continua sendo uma das peças que melhor entende o que é a música contemporânea e o que ela pode ser.

Lucas Scaliza Autor

Jornalista e ariano, joga truco e tarô. Nunca teve amnésia alcoólica. Tem vários discos mas não tem vitrola. É host do Escuta Essa Podcast e ouve tanta música tão alto que é capaz de ficar surdo um dia.

Comentários

    Aquino Batista

    (29 de março de 2018 - 08:17)

    O cara continua remando na onda e contra a maré. Bem por ai. Valeu (através dessa) saber que ele está sempre em ebulição.

    Renan

    (13 de setembro de 2018 - 17:19)

    Falou, falou, falou… mas o álbum continua ruim.

      Lucas Scaliza

      (15 de setembro de 2018 - 13:02)

      Estranho seria se as palavras mudassem o som do álbum. rsrs
      Falando sério agora, tem muita gente que não gostou e muita gente que não entendeu a proposta, porque foi a forma como ele foi gravado e editado que determinou o som no final das contas. Sempre ressalto que é importante ver ao vivo como ele está soando. Jack White continua super rock’n’roll.

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