Lucy Dacus – Historian (2018)

Folk e rock misturados de uma forma bem original

Por Gabriel Sacramento

Ela canta como uma cantora de folk. Mantém a serenidade, a articulação das palavras típica dos cantores do gênero, a melancolia das escolhas melódicas e harmônicas, enfim, as idiossincrasias mais comuns. Mas volta e meia, tempestades de guitarras distorcidas e fuzzy surgem em seus arranjos, sem que isso a faça ter que levantar sua voz e gritar. Essa mistura curiosa entre folk e rock também marcou seu primeiro álbum, No Burden (2016), só que nesse segundo álbum, soa diferente: ainda mais inventivo e bem produzido.

Muito amiga da Julien Baker, com quem partilha visões particulares de mundo e também musicais, Dacus surgiu em 2015 e logo assinou com o selo Matador, mesmo selo da Baker. E se Julien lançou um álbum singelo e profundo no ano passado, Lucy, esse ano, concebeu um álbum forte, que mistura bem a solitude do folk com a catarse das guitarras em ascensão de uma forma tão marcante, que esse álbum se destaca tanto entre os álbuns de rock, quanto entre os de folk lançados nos últimos anos.

Para trabalhar essa mistura no novo álbum, Lucy contou com Jacob Blizard e Collin Pastore auxiliando na produção junto com ela, além de três outros produtores exclusivos para pré-produção. E o resultado é uma aula de como chegar com estilo a um conceito proposto. Os produtores conseguem introduzir as guitarras sujas no meio das faixas de uma forma que não tira o brilho e foco do vocal – o instrumento principal -, estabelecendo também perfeita harmonia com os outros instrumentos. Algumas vezes, as guitarras só entram quando os vocais param e vice-versa. O trio no comando explorou muito bem o instrumento, buscando diferentes nuances dele, diversas formas de expressão, seja com os pedais ligados ou com eles desligados, com pegada mais singela e dedilhada ou com execução mais forte.

Os arranjos dão sempre a sensação de começarem mais lentos e irem aos poucos ascendendo e crescendo em agonia e em distorção, com timbres diferentes surgindo e saindo dos enquadramentos sonoros de uma forma bem organizada, enfatizando ideias novas a cada seção. A monotonia dos acordes e das melodias é colocada lado a lado com o dinamismo desses arranjos. A mixagem do John Congleton, veterano mixer conhecido por trabalhos mais independentes mesmo, isola as guitarras em um dos lados do panorama, alternando entre eles criativamente, e deixa os vocais redondos no meio. Lucy soa limpíssima, em um tratamento de folk mesmo, sem muitos efeitos. Já as guitarras sempre ganham contornos maiores com reverbs expressivos, que fazem com que o instrumento soe como uma ambiência, mais do que um instrumento muitas vezes – e isso ajuda para que as guitarras não engulam os vocais. Os arranjos também conferem certo protagonismo ao baixo, em momentos adequados e a mixagem destaca-o muito bem também.

Outro grande destaque de Historian são as letras. Lucy é super honesta e conta histórias pessoais, evocando profundas reflexões nos ouvintes e edificando-os no processo. Em “Nonbeliever”, ela fala sobre ter deixado de ser cristã e como isso afetou a relação com sua mãe, já que a mesma a criou sob os preceitos religiosos. Só que a letrista não fica só na religião, fala também sobre a descrença na cidade, descrença nos relacionamentos humanos, fazendo da faixa um grande tratado sobre o perder a fé e a esperança em algo; Em “Addictions”, ela admite que não é viciada em nada, só em relacionamentos; “The Shell” é sobre bloqueios criativos que os artistas enfrentam e sobre as inseguranças que eles trazem sobre a capacidade e o talento; Já “Yours and Mine” foi inspirada nos protestos de Baltimore contra o racismo em 2015 e versa sobre o medo de protestar que muitas pessoas têm e sobre como ela tenta superar esse medo e ir em frente se expressando com relação ao que acredita.

Duas faixas trazem reflexões sobre a morte: em “Next of Kin”, ela fala sobre estar “em paz com a morte”, se referindo ao momento em que aprendeu a lidar com o medo; já em “Pillar of Truth”, Dacus parece se conectar novamente com as raízes cristãs em uma música que parece um hino, na qual ela clama ao senhor por ajuda no momento da partida. A faixa foi escrita em homenagem a sua avó, que era uma cristã. Se na primeira, ela parece conformada com o destino inevitável de todo ser humano, em um tom mais confiante, na segunda, o eu-lírico está fraco, confiante na força superior e não na sua própria.

Historian é um dos melhores álbuns já lançados até agora em 2018, com muita sinceridade e simplicidade e uma produção que administra bem os climas contrastantes para gerar um efeito memorável. É um álbum difícil de rotular, justamente por ser tão original e tão único. E essa originalidade não vem necessariamente do que ela faz, mas de como ela o faz. É intimista e envolvente, do tipo que anda de mãos dadas com o ouvinte, enquanto o leva para passear por uma estrada tranquila e o conta histórias profundas. 47 minutos que nos deixam com um grande sorriso no rosto.

Foto por Erika Goldring

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.