S. Carey – Hundred Acres (2018)

Mais pop e menos ambiente, álbum novo cansa com o tempo

Por Gabriel Sacramento

De dia, baterista do Bon Iver. De noite, cantautor folk em uma carreira que já rendeu dois álbuns, sendo esse Hundred Acres o terceiro. As comparações com a banda principal de que faz parte são inevitáveis, principalmente levando em conta a importância da banda no cenário, embora Sean se esforce bastante para construir sua carreira como um som à parte do da banda liderada por Justin Vernon. Se esta ficou mais maluca e experimental no terceiro álbum, 22, A Million (2016), no seu terceiro, Carey está ainda mais folk, trafegando no terreno do Sufjan Stevens, Fleet Foxes e do próprio Bon Iver no primeiro lançamento, lá atrás em 2008.

Estimulado pelo bom momento em que vive o folk independente atualmente, Carey e o produtor Zach Hanson (The Staves) trabalham bem os clichês e elementos típicos de folk atmosférico no formato-canção, chegando a um resultado que se encaixa perfeitamente nessa caixinha. Basicamente tudo que um fã desse gênero quer ouvir atualmente. A produção não perde muito tempo com elementos paralelos, nem com desenvolvimentos desnecessários ou ideias mais ousadas, concentrando nossa atenção na voz do Sean, no que as suas letras têm a dizer e na atmosfera em torno da sua voz apenas. Obviamente, eles conseguem com isso, explorar uma melancolia intrínseca, que é impressionante, agradável e muito bonita. Aliás, esse é um bom exemplo de como usar a tristeza para o bem da arte.

A percussão distante de “Emery” se destaca, junto com as vozes sobrepostas. A faixa-título é marcada pelas ótimas melodias, que surgem não somente no refrão e são beneficiadas pelo minimalismo do arranjo, marcado pelo violão onipresente e percussões intermitentes. Nesta, Carey mostra que, assim como o Passenger, sabe construir bons refrãos pop com a mesma fórmula do folk. “Have You Stopped To Notice” também é lindíssima, com um refrão que consiste basicamente na pergunta retórica do título. “More I See” possui uma bateria mais forte, aqui executada pelo próprio Sean, e brinca com mudanças sutis de compasso, que dão uma variada, embora a essência seja a mesma das outras faixas.

Comparado com o anterior, o brilhante Range of Light (2014), esse novo álbum diminui o foco na ambiência que tanto marcou o anterior e se volta mais para as melodias e para a poesia. Os arranjos estão sempre preocupados em apresentar os instrumentos típicos do gênero, como piano, violão e guitarra slide, com simples progressões de acordes e outras ideias minimalistas. Em termos de mixagem, temos um trabalho interessante, mas menos imersivo que o The Boy Who Cried Wolf (2017), por exemplo, menos criativo que outros trabalhos, como o True Care (2017) do James Vincent McMorrow, e sem timbres tão marcantes quanto o Range of Light. É uma mix que mistura atmosfera com instrumentação, sem deixar muito claro onde estão os limites entre ambos, o que contribui para o fato da instrumentação ser pouco impactante e mais leve. Também contribui para que o álbum tenha esse quê de bucólico, campesino, mas ao mesmo tempo com um charme associado. Não é um trabalho sensacional, mas é efetivo.

No entanto, o grande problema do álbum é que a monotonia dele acaba pesando com o passar do tempo. A audição vai ficando mais difícil, quando notamos que o tracklist não surpreende e as canções seguem sempre o mesmo formato e a mesma lógica. Sean Carey interpreta as canções com mais suavidade, com nuances específicas para seções diferentes, incluindo belos falsetes, e conduzindo as canções com uma certa tranquilidade que combina com a proposta. No entanto, sua voz acaba se tornando familiar demais no decorrer do play e as melodias perdem um pouco de força.

Hundred Acres não consegue manter o nível do que Sean Carey vinha fazendo antes, e mesmo trazendo um som diferente, acaba falhando por arriscar pouco e sair pouco da zona de conforto. Mesmo assim, as canções quando separadas conseguem transmitir a força e a beleza do seu folk lento que flui bem, como águas de um rio que levemente correm para encontrar o mar. Carey já deixou claro que sabe criar boas canções folk, que manipulam bem as emoções dos ouvintes, mas em um cenário tão concorrido, ele não é o único. Se quiser reforçar mesmo sua carreira como um artista solo, precisará de mais personalidade para vender.

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante.

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