Rubel – Casas (2018)

Simples e corriqueiro registro da vida

Por Gabriel Sacramento

Sabe aquele prazer em ouvir coisas pequenas e simples? Superproduções são sempre bem-vindas, como, sei lá, a ótima trilogia do Batman da Warner Bros., feita com um diretor super requisitado, o Christopher Nolan; ou o álbum novo do Queens of The Stone Age, uma banda enorme dentro do cenário do rock mundial. Mas existe uma beleza muito cativante nas produções pequenas, independentes, como o filme Corra!, que concorreu ao Oscar desse ano, dirigido pelo Jordan Peele; ou um álbum como o Pearl (2015), do Rubel, gravado em quatro dias apenas em Austin no Texas, em um estúdio improvisado. A grandiosidade das produções caras é atraente, mas o quê de artístico, pessoal, criativo e sincero de produções menos afortunadas é conquistador, e é o que nos faz preferir estes ao invés daqueles muitas vezes.

Depois do seu Pearl, o jovem carioca Rubel surge de novo com mais um trabalho interessantíssimo. O cantor segue dentro da cena conhecida como nova MPB, tentando construir seu nome no meio de tantos outros jovens talentos, competindo e ao mesmo colaborando, nesse jogo ambíguo de vitórias e derrotas que é o mercado musical. Aliás, muito se fala hoje em dia sobre qual seria essa MPB, qual que realmente merece herdar o título de outros nomes emblemáticos da nossa música como Caetano, Vinícius e Tom. Será que o pop? Sertanejo? Funk carioca? Ou só mesmo os cantautores que estão sempre com um violão por perto? Rubel não parece estar preocupado demais com isso. O que realmente importa é que ele esteja nesse meio e que estar no meio o impulsione a fazer álbuns melhores.

Ao ouvir essas simpáticas canções, o primeiro grande destaque que merece ser feito é que Casas é muito mais um esforço de banda do que Pearl. Assim como o Cícero, que recentemente mudou o formato da sua música para abarcar mais instrumentação, Rubel consegue ir muito bem por esse caminho. Junto com o produtor Martin Scian, ele consegue um resultado que destaca arranjos instrumentais belíssimos, tocados por uma variedade de instrumentos, como trompete, trombone, cello, violino, entre outros. A produção consegue, em muitos momentos, contrapor perfeitamente a voz e as letras com seções instrumentais elegantes, que engrandecem um pouco a proposta independente que o voz-violão tenta impor, complementando essa proposta, e enriquecendo o trabalho de uma forma incrível.

É notável também um certo senso de desequilíbrio que acompanha o álbum desde o primeiro acorde ao instrumental belíssimo que fecha. Esse desequilíbrio se traduz em alguns pequenos detalhes, como o fato da vocalização dele parecer menos musicada e mais falada em alguns momentos, devido aos versos que parecem não se encaixar no ritmo direito. O desequilíbrio caminha lado a lado com uma produção que não é muito rigorosa com relação à direção vocal, deixando o Rubel livre, relaxado e tranquilo, mesmo que isso gere algumas leves desafinações charmosas. Suas interpretações não variam muito e sua voz sempre dita o tom leve, tímido e despreocupado do álbum, como quem se opõe à aceleração frenética dos nossos tempos malucos. Timidez essa, que, aliás, se contrapõe ao fato de que ele realmente se expõe bastante com suas letras.

O disco conta com várias participações. As meninas da serrinha, que são Lazir Sinval, Deli Monteiro e Luiza Marmello, e o Emicida surgem em “Mantra”, que tem um toque de lounge, reforçado principalmente pela ótima linha de baixo do Pablo Arruda – que aliás, está muito bem no álbum todo, encontrando sempre espaços vazios para encaixar belas e efetivas frases. A feliz “Chiste” conta com pungentes versos do rapper Rincon Sapiência e uma letra bem interessante, que personifica a dor e o riso de forma bem inteligente. E em “Passagem”, um dos vários interlúdios do álbum, Rubel compilou três depoimentos de estudantes do ensino médio no Rio Janeiro falando sobre sonhos e sobre o futuro – retirados inclusive de um curta-documentário chamado Passagem que ele mesmo roteirizou e digiriu. 

A mixagem do álbum, também do Martin Scian, deixa a solitude dos momentos voz-violão ser marcante e tocante, mas também lida bem com a instrumentação densa. A mix favorece o baixo na maioria das faixas, com timbragens excelentes, enquanto trata a bateria e as percussões com mais cuidado, deixando soar, mas nunca deixando rítmico demais. Ela consegue ainda deixar orgânica a mistura entre a instrumentação mais convencional e os beats eletrônicos, estabelecendo um bom diálogo entre os elementos, que contribui com a atmosfera do álbum.

Casas traz um belo registro de pequenas canções, pequenos retratos da vida comum do Rubel, que representam bem artisticamente a sua personalidade. Um disco de MPB, que dialoga bem com o anterior, tenta um pouco uma conexão com o samba, mas sem nunca soar grande demais e perder o chão. E a humildade do trabalho é justamente o seu maior trunfo: mesmo dotado de um valor muito grande em termos de talento, ainda temos um simples conjunto de faixas sinceras, que não tem a ambição de conquistar o mundo, como um dos jovens de “Passagem”, mas que se importa com o legado que cada forma de expressão artística deixa por aí.

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante.

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