Jonathan Wilson – Rare Birds (2018)

Jonathan Wilson em busca do transcendente

Por Gabriel Sacramento

Tenho me interessado cada vez mais por álbuns de produtores que detêm o total controle artístico dos seus projetos, às vezes gravando tudo sozinho mesmo, outras vezes contando com apoio de amigos. A verdade é que, diferente de álbuns mais populares que envolvem dezenas de produtores opinando e direcionando – além do próprio artista principal -, esses álbuns de um-homem-só, ou quase isso, são geralmente marcados pelo alinhamento perfeito de cada referência inserida, beneficiado pela coordenação de uma mente apenas. Jonathan Wilson é um famoso produtor, que é conhecido por trabalhar nos álbuns do Father John Misty, mas também tem uma carreira solo, em que põe em prática o que escrevi acima. Além disso, é guitarrista da banda do Roger Waters na sua turnê e ajudou a gravar o Is This The Life We Really Want (2017).

A carreira do Wilson é marcada por momentos sublimes, diga-se de passagem. Gentle Spirit é seu debut, e já em 2011, ele já demonstrava total jeito para criar canções que iam além dos conceitos predeterminados de gênero para levar o ouvinte a uma espécie de nirvana musical. Indo do folk ao rock psicodélico com muito organicidade, Wilson chegou a um resultado tão perfeito que parece fazer com que os dois estilos soem perfeitamente unidos, como se tivessem nascidos um para o outro mesmo. Depois veio o Fanfare (2013) e agora, Rare Birds.

Geralmente, coesão é algo importante em uma obra musical, sem ela, os álbuns podem soar confusos e desconexos como, por exemplo, o Wonderful Wonderful do The Killers. Neste, as canções apontam para direções diferentes de forma pouco convincente, e faltou uma “cola” para fazer o todo fazer mais sentido, o que daria mais força ao álbum e o venderia melhor. Em Rare Birds, entretanto, Jonathan Wilson consegue desenvolver muito bem conceitos diversos e humores distintos, focando em cada faixa e na experiência individual que elas proporcionam – como se o álbum assumisse uma direção diferente a cada faixa. A produção dele é totalmente sensível e orientada às canções, não à convenções ou regras predeterminadas. Por isso, a duração, quantos e quais instrumentos vão surgir, os desdobramentos do arranjo e as características sonoras da finalização: tudo parece ter sido decidido tendo unicamente como base os caminhos que as composições ditam. E isso, evidentemente, é custoso para a coesão do álbum, já que não necessariamente os direcionamentos musicais de uma faixa conversam com os de outra.

No entanto, não chega a prejudicar o álbum, pois a falta de cuidado rigoroso com relação à coesão curiosamente faz o álbum encontrar essa conexão entre as faixas em outros detalhes, como nas sutilezas inerentes da lógica de composição delas. Afinal, não estamos falando de um álbum que viaja por diversos estilos musicais com compromisso, mas um que suplanta as definições típicas de gênero, e isso é comum à todas as faixas. Ou seja, o álbum encontra coesão buscando não ter coesão.

No seu jogo de contrastes, ele dá espaço para elementos diferentes e atmosferas diferentes aflorarem e conviverem juntas. Por exemplo, se em “Me”, o timbre de bateria é abafado e o reverb, solitário e triste, junto com o andamento lento, em “There’s a Light”, eles surge felizão com timbres ensolarados e uma guitarra slide, típica de country. Já a própria “Trafalgar Square” começa abafada e lenta e descamba em um rockzinho tímido, mezzo energético, mezzo contido. Se em “Hard to Get Over”, ele prefere manter um riff de bateria perdurando na música inteira, em “Hi Ho The Righteous”, ele dinamiza, quebrando um country com uma sonoridade mais espacial e inserindo um solo de bateria impressionante no final.

Além disso, Wilson aproveita para nos ensinar como trabalhar elementos comuns em seus arranjos, sem perder o brilho da originalidade. Por exemplo, quando ele usa melancolia, parece que está sugerindo com um novo tipo de tristeza, ou ao menos, ele consegue criar essa ilusão e envolver o ouvinte nela. Sua melancolia é traduzida em arranjos lentos, demorados, uma certa quietude e monotonia, interpretações mais calmas e harmonias simples. É uma grande administração não convencional de elementos que cria um sentimento palpável, real, crível, que, aliás, lembra a forma como o Radiohead manipula bem seus sons para alcançar a mesma sensação.

Seus arranjos também são marcados por uma preferência ocasional pela atmosfera em detrimento da definição precisa dos instrumentos que os compõem e por reviravoltas que intercambiam gêneros e climas. Por exemplo, o country é muito usado para definir uma seção instável, que ora vai para mudar para outra, ora é a resolução de uma outra. Essas mudanças bruscas de clima funcionam perfeitamente bem enriquecendo ainda mais o trabalho e fazendo as faixas serem ambíguas, como se elas fossem duas em uma só. Além disso, Wilson também faz uso intensivo de harmonias intrincadas, cheias de dissonâncias dramáticas, e fluxos melódicos sofisticados, além de brincar com noções mais complexas de tempo. Só que tudo isso é usado no momento certo, durando o necessário para gerar o efeito esperado no ouvinte.

A mixagem funciona bem estabelecendo uma sensação de solitude quando necessário; evocando um aspecto nostálgico e intenso que reforça traços de rock progressivo anos 70; criando uma sensação de várias camadas sobrepostas, que dão um caráter onírico a alguns momentos; e ainda criando uma sensação de contenção, reduzindo os instrumentos a marcas sonoras pontuais no espectro – influência notável do trabalho do Nigel Godrich no último do Roger Waters. Para um álbum tão diversificado e imaginativo, uma mixagem especial para cada caso deve ser feita, e foi assim que o engenheiro Dave Cerminara abordou a mix.

Rare Birds funciona bem como um todo, mas se destaca pela forma como impõe suas canções acima do conjunto. Jonathan Wilson consegue transcender conceitos que geralmente são tidos como obrigatórios em uma obra musical, mas também nossas expectativas, chegando a um álbum curioso e incrivelmente fantástico. Não é um álbum de canções grudentas, para serem ouvidas a todo instante nos nossos smartphones, mas são faixas compostas e arranjadas com um senso autoral muito forte, que refletem perfeitamente a complexidade artística da mente e das visões musicais do seu criador. Como perfeitamente definiu o próprio Jonathan: um álbum cheio de “surrealismo indulgente, viagens sonoras e investidas psicodélicas”.

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante. https://twitter.com/gabrielsacr https://medium.com/@gabrielsacramento

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