Sunflowers – Castle Spell (2018)

Um dos álbuns de noise rock mais interessantes dos últimos anos

Por Gabriel Sacramento

Na década de 60, os trios dominavam o rock. À medida que o estilo foi ficando cada vez mais guitarreiro e pesado, as bandas foram se limitando ao que mais importava – o famoso formato guitarra-baixo-bateria, que imperou por muito tempo como o principal formato de bandas do gênero. Aliás, esses trios focavam em uma rusticidade e economia que faltavam nas grandes bandas de rock progressivo, compostas por mais gente – com exceção do Rush, claro. Cream, Jimi Hendrix Experience, Mountain, Blue Cheer, Grand Funk, a lista de trios é imensa. Fora os exemplos mais novos que fizeram a cabeça da garotada mais jovem, como o Nirvana e Green Day nos 90s e o Muse nos 00s. Pois bem, se os trios eram a moda de antigamente, hoje em dia são os duos, como os portugueses do Sunflowers, que são responsáveis por manter parte da chama do rock’n’roll acesa.

Só para citar alguns: Black Keys, Royal Blood, White Stripes, The Kills e no Brasil, o The Baggios. Dá pra dizer que o formato – que é bem comum em outro universo, o da música eletrônica – fora popularizado na virada do século por Jack White e sua esposa, que também influenciaram as bandas da nova geração a resgatarem aspectos mais crus do rock. O Sunflowers é formado por Carlos Jesus (guitarra, baixo e vocal) e Carolina Brandão (bateria e vocal) e faz um som que chama a atenção pela crueza, uma crueza pouco calculada, muito improvisada e atmosférica, difícil de comparar com quaisquer dos nomes que citei acima. O primeiro álbum deles foi o The Intergalactic Guide To Find The Red Cowboy (2016), um festival de canções impressionantemente mal acabadas, no melhor sentido da palavra.

Castle Spell foi produzido por João Brandão e pela banda, gravado e mixado pelo João, no estúdio Sá da Bandeira em Porto. A produção dele foi extremamente certeira ao captar fúria agressiva, psicodelia, um clima ameaçador, e ao fazer essa sonoridade ser plenamente convincente e imponente. Há também um perfeito senso de fantasia que perpassa essas faixas, se satisfazendo na grande quantidade de efeitos e ruídos hipnóticos e lisérgicos que são utilizados para fazer o ouvinte viajar por outro universo, um universo de ficção científica com terror, talvez, onde alienígenas convivem com humanos, em paz e em guerra ao mesmo tempo. “The Maze” é tão sorrateira e semi-terrificante, quanto um alien desconhecido perturbando a paz em um planeta distópico. Já os dois fazendo vocais juntos na faixa-título é muito, mas muito Melvins. A alegria jovial também está presente em canções como “Monomania” – uma das minhas favoritas – com “papapás” no meio de toda a balbúrdia noisy.

É um disco extremamente caótico, com mínimo espaço para alívio. Embora eles consigam encaixar momentos mais calmos, com menos instrumentação acontecendo, o caos sempre é o foco e sempre volta à cena. Há uma paleta diversificada de timbres, captados de formas diferentes, que são sempre lamacentos e incômodos, com a produção fazendo questão de explorar o que há de mais barulhento neles. A mixagem explora a ideia de sobreposição coalescente de instrumentos e ruídos, borrando a ideia perfeita do que é mesmo um instrumento e do que é simplesmente ruído e afetando drasticamente o senso de largura e profundidade do espectro. Não é um trabalho garageiro que beira ao belo, como no álbum mais recente do Ty Segall, aqui o foco é soar esquisito mesmo, cru, punk e levar o ouvinte a algum nível diferente de contemplação através dessa forma maluca de expressão.

Os arranjos focam tanto no desenvolvimento dos riffs simples e da interconexão entre eles, deixando-os soar lentamente enquanto o tempo passa, que, em alguns momentos, parece que estamos ouvindo um álbum instrumental com pequenos momentos de participação dos vocais. Sem contar que o senso de improvisação é muito forte, o que deixa tudo com um quê de free rock. E mesmo focando na garageria, os Sunflowers conseguiram criar arranjos fabulosos, que nos mantém totalmente imersos, criando tensão, manipulando nossas expectativas, e nos surpreendendo, ora com explosões inesperadas, ora com pausas super dramáticas. As soluções deles para progredir as seções são criativas e bem elaboradas, e mesmo que contem com um número reduzido de instrumentos – com foco na guitarra e baixo -, eles nunca parecem se repetir ou vazios de ideias. Além de tudo isso, o senso de mau presságio permanece em cada nota tocada, ou seja, eles nunca deixam o clima cair ou saem do foco (até mesmo quando a instrumentação para e fica só o ruído que é gerado pelo instrumento plugado no amplificador. Sim, até isso, eles usam para o bem da proposta).

Castle Spell é um dos álbuns noisy mais interessantes dos últimos anos. O duo português consegue nos deixar impactados ao término da audição, com o poder de fogo das ideias que eles conceberam e com a experiência única que proporcionam com estes 51 minutos de puro rock. Um design de ruídos impressivo, arranjos fascinantes e uma liberdade maluca. Um álbum que precisa ser ouvido e devidamente compreendido. 

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante. https://twitter.com/gabrielsacr https://medium.com/@gabrielsacramento

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.