Snoop Dogg – 220 (2018)

Nada novo, nem surpreendente, só o velho Snoop e referências de R&B obsoletas

Por Gabriel Sacramento

Meses depois do seu EP anti-trump, Make America Crip Again, Snoop Dogg está de volta com um EP que lançou de surpresa, com o mesmo número de faixas, oito. A notícia do lançamento fica ainda mais surpreendente quando lembramos que ele prometeu aos fãs um álbum de gospel, que deve sair em Março, daqui a alguns dias. Ou seja, depois de divagar por estilos diferentes em 2012, com o Reincarnated e em 2015 com o Bush, Dogg voltou ao seu estilão de sempre e está se esforçando bastante para trazer sempre material novo.

E se seu anterior possuía uma motivação, que era manifestar-se contra o presidente em atividade nos Estados Unidos, 220 não tem uma motivação aparente, a não ser presentear aqueles que têm acompanhando seu trampo desde o início, como ele diz na faixa de abertura do EP. Aí nos perguntamos: foi mesmo necessário lançar essas faixas dias antes do aguardado álbum novo?

Frazer Harrison

O álbum foi produzido por um rapper e produtor em ascensão, My Guy Mars, e possui vários convidados como October London – que também contribuiu com o anterior -, LunchMoney Lewis e Kokane. A produção foca mais nas participações e no R&B dos refrãos melodiosos e das vozes dobradas, deixando o estilo gangsta em segundo plano em muitos momentos. Essa estratégia de dar mais protagonismo aos convidados foi interessante, pois salva o álbum de ser um esforço cansativo de um só artista e faz parecer um fruto de um coletivo, como uma pequena mixtape. Por exemplo, “Waves” possui mais de dois minutos focados em desenvolver as melodias executadas pelo October London, com o Dogg surgindo lá pelo meio para o final somente, como se ele fosse a participação. “Motivation” e “Everything” são outras que deixam claro que, não fosse pelas melodias, o álbum teria sido um deslize total. Mas também temos faixas de rap mais pesadas tanto tematicamente quanto musicalmente como “I Don’t Care”.

Os beats do My Guy Mars são bem interessantes e diversificados, indo de referências mais noventistas à bases mais modernas inspiradas pelo trap. Eles são estimulantes, pesados e levemente viajantes. Mesmo sendo um disco focado no hip-hop gangsta e no R&B, temos um trabalho de timbres que se destaca, com synths que estabelecem conexão com outros gêneros e que alargam a proposta. Não é um trabalho soberbo que mistura instrumentação orgânica com sintetizada, por exemplo, mas também não é um esforço simples que dá para chamar de preguiçoso. Houve um cuidado na seleção dos beats, que diz muito também sobre o produtor escolhido.

Já as referências de R&B do álbum sugerem que o Dogg parece estar preso em algum momento dos anos 2000. Em alguns momentos ouvindo o álbum, me senti ouvindo algo que o Usher faria em 2004, por exemplo, com aqueles clichês do gênero que quase nem se ouve mais hoje em dia – nem mesmo o Usher utiliza, levando em conta o seu último álbum. Aliás, isso diz muito sobre a música do Snoop: ele parece pouco preocupado em se atualizar e se inserir nas tendências. Para ele, saber executar bem o seu som é o suficiente, já que seu nome, e a marca associada a ele, garantem o interesse. Isso é bom e é ruim. Ao mesmo tempo em que é válido manter-se fiel ao seus elementos de raiz, é interessante uma leitura do que rola no contexto musical atual, que mostra que o artista está antenado e buscando surpreender.

220 não é ruim, é redondo e honesto, com uma produção que arruma bem todos os artistas envolvidos e oferece uma gama variada de sensações rítmicas. No entanto, não é nada memorável e não fica com o ouvinte depois da audição, mesmo que suas melodias sejam articuladas para isso. A qualidade e o timing ruim com certeza farão com que o álbum seja perdido no meio da discografia do Doggfather, e o fato de não trazer nada rigorosamente novo e corajoso talvez nem cause interesse a muitos. Talvez tenha sido só uma mensagem para tranquilizar os fãs mais velhos sobre a fidelidade do rapper ao som que o revelou. Talvez.

Enfim, que venha o álbum gospel.

Amy Harris

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante.

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