The Temperance Movement – A Deeper Cut (2018)

Menos foco no blues rock, mais em melodias generosas

Por Gabriel Sacramento

Você já deve ter ouvido e lido bastante a ladainha sobre as bandas que “começaram pesado, depois amoleceram”, tanto de fãs, quanto dos críticos, que adoram pontuar isso e muitas vezes usar o simples fato da mudança de rumo como um argumento contra os trabalhos analisados. A verdade é que o rock pós-millenium é um estilo bem volátil, ou seja, poucas tendências realmente duram muito – o que não deixa de ser coerente com o nosso vigésimo-primeiro século, da velocidade da informação e dos stories que têm apenas 24 horas de vida. E é normal que, depois de um tempo, as bandas busquem novas formas de expressão. Entendido isso, fica mais fácil assimilar o que o Temperance Movement nos apresentou nesse álbum novo, que levou o nome de A Deeper Cut.

O sucessor do excelente White Bear de 2016, traz uma banda diferente daquela que gravou o álbum anterior. Simon Lea assumiu as baquetas no lugar do Damon Wilson, e esta foi a segunda mudança significativa no line-up da banda desde que lançaram o primeiro álbum em 2013. O novo álbum foi produzido pelo competente Sam Miller, que produziu os anteriores, continuando a parceria que definiu o som dos britânicos.

Ouvindo de cara a “Built-in Forgetter”, já notamos algo diferente no som e na atitude da banda. A produção do Sam, que tinha conseguido extrair e captar energia rústica e blueseira nos primeiros, agora diminuiu o foco no blues rock e concentrou-se mais nas melodias e na capacidade vocal do Phil Campbell, criando assim um som mais particular. A primeira impressão que se tem é que o álbum parece algo que poderia ter sido produzido pelo Dave Cobb, com as características tão conhecidas das bandas com as quais ele trabalha. A Deeper Cut soa como se o Rival Sons sentasse para escrever um álbum com o Anderson East.

Mesmo assim, canções como “Caught in The Middle” e “Love and Devotion” – minha favorita -, mostram que as boas doses de vigor e testosterona ainda estão lá, só são pouco acessadas. A faixa-título é uma balada belíssima calcada no violão, e a sulista “Backwater Zoo” impressiona pela mix que deixa os instrumentos pulando em lados opostos no panorama, e por uma certa movimentação energética no espectro envolvendo guitarras e piano, que lembra a abordagem que os Rolling Stones usavam e os Black Crowes também. A divisão de guitarras em “Beast Nation” é muito bem feita e “The Way It Was and The Way It Is Now” lembra alguma coisa que parece ter sido composta pelo Mr.Big na fase Actual Size (inclusive fiquei imaginando o Eric Martin cantando).

Mais do que cumprir a cartilha e dizer que a banda se tornou mais melódica e menos agressiva, preciso ressaltar o poder das melodias do novo álbum. O trabalho de produção foi muito bom no sentido de catar as melhores ideias e construir as canções pensando nelas, fazendo com que tenhamos ótimas melodias em diversas seções das faixas, e não somente nos refrãos. As melodias contam histórias para o ouvinte, fazendo com que ele se identifique com elas, e isso as torna memoráveis e deixa a proposta deles ainda mais convincente.

E Phil Campbell se destaca nesse álbum como um dos melhores vocalistas da sua geração, carregando o álbum com os ombros. A mixagem deixa a sua voz crua, mais crua do que em qualquer outro registro dela, e por isso, conhecemos um Phil diferente; estamos mais próximos dele, mais íntimos. Suas interpretações dão vida e solidez às faixas mais sensíveis, impedem que elas caiam em clichês melosos, mas também fornecem o aspecto agressivo e insurgente das faixas mais pesadas. Aqui, ele usa drive e agudos fortes, que são até clichês para cantores de hard rock e blues rock, mas jamais prejudicam a proposta – o que reforça o fato de que o problema não está no clichê, mas sim no mal uso dele.

Já o trabalho de instrumentação é notavelmente mais tímido, surgindo bem quando necessário, com riffs fortes e inspirados, mas no geral, serve de base harmônica para os vocais. É um trabalho de arranjos bem simples que foca mais em sequências lineares de acordes e uma estrutura mais formal e padrão, sem grandes variações. A mixagem deixa tudo arrumadinho nos momentos mais leves, já nos de mais instrumentação, notamos uma certa confusão no posicionamento, no ajuste de volume e equalização, dificultando a compreensão de tudo que foi tocado. No entanto, ela é fundamental para atribuir um aspecto mais rural aos timbres, que reforçam a influência de southern soul e de country.

A Deeper Cut não é melhor que os álbuns que vieram antes, mas é uma banda madura sabendo bem lidar com a mudança de sonoridade. Vale ressaltar que a mudança aqui foi mais do tipo que revela e desenvolve melhor facetas pouco exploradas anteriormente, e não do tipo forçado por obrigação comercial. Por isso, o álbum conversa bem com os outros, complementando tudo que já mostraram para nos fornecer um retrato mais completo da banda, que ajuda a entendê-la melhor. Eles continuam uma das mais interessantes do cenário do blues rock moderno, com álbuns irrepreensíveis e um futuro promissor. Pode ouvir sem medo.

 

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante.

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