Orphaned Land – Unsung Prophets & Dead Messiahs (2018)

Seguindo a fórmula e a missão já consolidadas, Orphaned Land acerta em cheio novamente

Por Lucas Scaliza

Já vão se aproximando os 30 anos da missão de Kobi Farhi. À frente do Orphaned Land, o principal nome do heavy metal do Oriente Médio, uma região do planeta em que a música pesada não é bem vista e muito abafada por questões políticas e religiosas e pelo som de explosões, sejam dos mísseis que Israel dispara contra a Faixa de Gaza ou seja dos homens-bombas. Não há bumbo, mesmo no metal, que soe mais alto que essa violência, infelizmente.

Desde antes de sua estreia com o nome que ostenta hoje, o Orphaned Land (“terra órfã”) segue uma estética e um ethos que continua imutável e atual. A mistura de metal melódico, death e escalas orientais, judaicas e arábicas segue sendo o principal diferencial musical do grupo. E não fazem isso como uma mera inserção de um elemento étnico para depois caírem no metal tipo exportação. Os sons orientais são parte fundamental do som, localizando a banda em seu berço de origem e já indicando o seu principal tema: a união dos povos. Álbum após álbum, a mensagem de Farhi e de sua banda é sempre a de superar as diferenças – e as violências – entre cristãos, judeus e muçulmanos.

Unsung Prophets & Dead Messiahs, sexto disco de estúdio, segue à risca a fórmula e a missão e acerta novamente! Melódico e sinfônico, progressivo com laivos de death metal e grandes porções de melodias orientais. A longa “The Cave” abre o álbum com todos esses elementos servidos de uma vez em uma faixa bastante para cima. “My Brother’s Keeper” mistura com maestria as melodias árabes com o rock progressivo e com levadas de metal. “Like Orpheus” (participação do vocalista Hansi Kursch, do Blind Guardian) é quase um Iron Maiden do Oriente Médio, com direito até a violão em destaque no refrão. “Chains Fall To Gravity”, com participação de Steve Hackett, passa dos 9 minutos e mostra a versatilidade do grupo mais uma vez. “Left Behind” é curta, mas poderosa. Candidata a uma das preferidas do disco e dos shows. Já “Yedidi” é a peça mais étnica, onde a música árabe toma conta da musicalidade e apenas empresta a força de uma banda de rock.

Algo que continua infalível no Orphaned Land é a quantidade de solos de guitarra com uma qualidade invejável. Em um momento em que a guitarra é mais usada como instrumento de textura ou de preenchimento no mainstream, os solos perderam a força ou sobrevivem como um amontoado de notas rápidas em tantas bandas de metal. Mas o trabalho de Idan Amsalem (que substitui o guitarrista original da banda, Matti Svatitzki) chama a atenção por não deixar de entregar os clichês do metal (sobe e desce de escalas, frases rápidas) e conseguir criar melodias que realmente podem ser cantadas pelo ouvinte depois de ouvi-las algumas vezes. Além disso, quase todas são dotadas de uma intenção emocional facilmente absorvível. Em “The Cave” predomina o épico, por exemplo. Já a introdução de “The Manifest – Epilogue”, na outra ponta do disco, é um show de sensibilidade.

Amsalem tinha a difícil tarefa de substitui Matti Svatitzki, guitarrista original que estabeleceu altos padrões de guitarra solo e saiu da banda em 2012. Mas Unsung Prophets & Dead Messiahs prova que Farhi fez uma escolha acertada e Amsalem está excelente e aparentemente à vontade como novo guitar hero do metal oriental.

Continua sendo muito legal ver como usando os mesmos elementos o Orphaned Land vai propondo músicas diferentes, pesadas, bonitas, emocionantes, mais orientais ou mais ocidentais – como a “All Knowing Eye”, outra das grandes composições do álbum, e ainda bastante acessível. Uma música que poderia ser do Steven Wilson, amigo da banda que, aliás, produziu o disco The Never Ending Way of ORWarriOR (2010).

O que pode ser um problema é que os elementos sinfônicos geralmente dão um grande estofo sonoro a cada faixa, fazendo-as soar enormes e épicas. Isso é muito bem feito, mas repetido tantas vezes acaba fazendo com que tudo soe alto demais e prejudique a fruição das alternâncias de dinâmicas entre as faixas. No mais, a inclusão de Chen Balbus, que toca guitarra, xilofone e instrumentos típicos da região, como o bouzouki (cordas gregas), o saz (instrumento de corda tradicional da Turquia) e o oud (cordas árabes), dá mais cor e ainda mais contornos orientais ao som do Orphaned Land.

Assim como acontece com outras bandas que passaram 20 anos tocando metal pesado, o Orphaned Land soa menos preocupado com o heavy metal em Unsung Prophets & Dead Messiahs e mais concentrado em fazer boas composições. Isso não quer dizer que não existam faixas, riffs e viradas de bateria suficientes para o/a headbanger bater cabeça. Ainda é claramente uma banda de metal. Contudo, percebe-se que elementos de prog e rock também funcionam muito bem dentro da concepção musical de Kobi Farhi.

Para uma banda que sempre foi ideologicamente mente aberta, o novo álbum soa ainda mais aberto. Em uma região de tensões políticas, sociais, culturais e religiosas aparentemente insuperáveis, o Orphaned Land usa sua arte para apontar um caminho de compreensão e mútuo respeito entre os povos.

Lucas Scaliza Autor

Jornalista e ariano, joga truco e tarô. Nunca teve amnésia alcoólica. Tem vários discos mas não tem vitrola. É host do Escuta Essa Podcast e ouve tanta música tão alto que é capaz de ficar surdo um dia.

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