Rhye – Blood (2018)

Som minimalista e onírico que não sairá da sua cabeça tão cedo

Por Gabriel Sacramento

Um dos álbuns mais interessantes do ano passado foi o I See You do The XX. O álbum era caracterizado por uma mixagem espetacular e um estilo muito peculiar do trio britânico, marcado pelo minimalismo sonoro e por um foco na construção de atmosfera que se equipara ao foco nas melodias. Esse tipo de som está se tornando cada vez mais comum ultimamente e tem conquistado muita gente dentro do cenário do pop. O grupo canadense Rhye, formado inicialmente por Michael Milosh e Robin Hannibal – que deixou a banda -, também investe na mesma ideia no seu R&B alternativo e vem chamando a atenção para a sua fórmula sonora que une elementos do pop, R&B, eletrônica e soul a essas idiossincrasias. O segundo álbum chama-se Blood, foi gravado em diversos estúdios e produzido pelo Milosh com ajuda do Thomas Bartlett – conhecido por tocar em discos de gente como Ed Sheeran e The National, além de ter mixado o ótimo Carrie & Lowell (2015) do Sufjan Stevens.

O estilão deles que nos foi apresentado no redondo Woman, em 2013, permanece perfeitamente intacto. A produção enfatiza poucas ideias simples e pequenas sutilezas da instrumentação, repetindo essas ideias bastante entre as seções e criando um sonoridade cíclica, que parece não progredir, como um grande sonho que fica em loop na nossa mente mesmo depois de acordarmos. A conexão com o neo soul, com toques de lounge, é bem estabelecida pelo foco na sensualidade e no swing leve, mas sem nunca se render a clichês fáceis. E assim como no primeiro, a produção engrandece o vocal marcante do Milosh, que é sussurrado, suave e agudo, com uma articulação de palavras que torna quase impossível a compreensão total das frases em alguns momentos. Além no foco na criação de clima, eles conseguem ainda soar dançantes, como em “Taste”, e elegantes com o bom uso de orquestrações em muitos momentos nos arranjos. Já nas letras bem pessoais, Milosh conta a história do fim do seu casamento anterior e relaciona com o início de um novo relacionamento, que é o seu atual.

Por Genegive Medow Jenkins 

O grande destaque do Blood é sua mixagem absurdamente bem feita, assinada pelo Lexx, que também mixou o último do Jessie Ware. A mix atinge o minimalismo ao dividir os instrumentos no panorama, com muito cuidado pela geografia do espectro, e por atribuir pouco volume a eles – seguindo uma ideia de prioridade ditada pelos arranjos -, prezando pela manutenção de silêncio e espaços vazios. É tudo muito limpo, compreensível e econômico, mas o suficiente para que as canções sejam convincentes quanto à proposta. A mixagem estabelece perfeitamente o clima mais onírico em muitas faixas, sem necessariamente precisar de grandes quantidades de reverb – o recurso geralmente utilizado para atingir esse objetivo. O trabalho de engenharia de som também é fabuloso: uma paleta diversificada de timbres, que vão de sons mais nostálgicos – como a bateria e o synth do início de “Stay Safe” – a sons mais atuais e modernões, todos muito bem tratados pela mixagem.

Entre os timbres, vale destacar o som de guitarra, que em muitos momentos é mais rítmico e agudo e em outros, quase imperceptível, nem parecendo uma guitarra mesmo. A voz do Rhye surge dobrada em alguns momentos e ganha outros efeitos viajantes, mas sem nunca sacrificar as características típicas do estilo do vocalista. Há também outros instrumentos, como os violões leves e doces em “Sinful”, com dedilhados entrelaçados que vão se relacionando com as camadas de outros instrumentos com o passar do tempo.

Um detalhe nesse álbum que me lembra bastante o Thriller, clássico absoluto do Michael Jackson e um dos álbuns mais perfeitos da história, é o fato de possuir muitas faixas de instrumentos gravadas, e algumas que surgem apenas para executar pequenas frases simples no meio dos arranjos – os chamados overdubs. O destaque é como o mixer arrumou tudo isso, sempre seguindo uma direção bem definida, deixando musicalmente lógico, e organizando os instrumentos com um senso de movimento – como uma montagem de takes, que dá a lógica de continuidade para um filme. É como se toda essa instrumentação andasse de mãos dadas. A harmonia e a sintonia dos elementos é impressionante, e mesmo em momentos mais intensos das faixas, com muitos instrumentos acontecendo ao mesmo tempo, não ficamos jamais com a sensação de estarmos perdidos, pois fica muito claro o que estava na cabeça do Milosh na hora da confecção daquilo.

Blood ressalta o poder de fogo desse projeto do Michael Milosh, que está cada vez mais forte. Com uma sonoridade que pode ser associada a outros atos, ao mesmo tempo em que parece muito original, o Rhye segue fazendo o seu nome dentro desse cenário do pop diferente, criando produtos que proporcionam verdadeiras experiências imersivas e incrivelmente fantasiosas. A singularidade do grupo e do som, e a falta de grandes surpresas pode incomodar muitos ouvintes, mas, incomodados ou admirados pelo trabalho feito aqui, uma coisa é fato: a forma como o Milosh arranja suas faixas, sua forma de expressão musical e o design de som do álbum não vão sair da sua mente tão fácil.

por Autumn Andel

 

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante.

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