Simple Minds – Walk Between Worlds (2018)

Simple Minds mais Simples Minds do que nunca!

Por Eder Albergoni

Quem nunca, em um momento de desatenção, escutou “Repetition” do Information Society, e achou que era Tears For Fears? Ou escutou algum trecho de “Truly, Madly, Deeply” do Savage Garden, e pensou se tratar de Backstreet Boys? Ou ainda, no exemplo mais batido, ouviu o Creed tardio e estranhou o som do Pearl Jam? Assim como, em território nacional, achou que a Legião Urbana havia lançado material póstumo quando escutou o vocalista do Catedral e pensou logo em The Dandy Warhorls quando só prestou atenção no riff de “Ainda Gosto Dela”, que é quase um plágio de “You Were The Last High”.

Demorou alguns anos para que o público conseguisse desvincular “Alive and Kicking” do U2. Por conta da óbvia semelhança dos timbres de voz de Jim Kerr e Bono Vox, o Simples Minds ficou anos limitado ao mero posto de banda parecida com os irlandeses, isso quando já não era mais uma banda simplesmente underground da Escócia, e pouco importavam seus discos e suas músicas, mesmo que Sparkle in the Rain (1984) e Once Upon a Time (1985) tenham se tornado clássicos com o tempo.

Walk Between Worlds é basicamente um álbum nostálgico. Seja pelo entendimento musical que resgata uma sonoridade oitentista, seja pelo registro lírico que traduz a mudança de pensamento e amadurecimento, além de um ciclo que se volta contra si e não sabe se encerra ou começa um ciclo novo. “Magic” fala exatamente da mudança de pensamento e usa de metáforas climáticas pra alcançar a intenção. Igualmente em “Summer”, o sol tem papel específico em tratar do renascimento de modo prático. O mundo pelo qual atravessa o Simple Minds é o da própria existência.

O que mudou de Big Town (2014) pra cá é pontualmente a forma de expressar musicalmente a constante intervenção dos ciclos musicais. Big Town se encaixava cruamente em bases sonoras modernas, pós anos 2000, e chega a soar como um Depeche Mode bem menos claustrofóbico eletronicamente falando. Esse era um Simple Minds seguindo adiante, olhando somente o presente, sem matar sua identidade, e por isso mesmo, por mais alcance e experiência, ainda esquecido no meio de um catálogo imenso.

Quando Jim Kerr e Charlie Burchill resolvem olhar para trás e recuperar a veia pop da metade dos anos 80, então acenam que a semelhança com U2 nunca foi ruim. Se Songs of Experience (2017) é o U2 se resgatando ao mesmo tempo que segue adiante em relação a Songs of Innocence (2014), Walk Between Worlds também pode ser um passo a frente mesmo se fechando em um remoto voto de confiança em velhos tempos.

De certa maneira também me faz pensar no mais recente álbum do Fastball, que desenterra os anos 90 sem vergonha nenhuma pra criar algo minimamente atual com todas as referências sonoras noventistas intactas. É desse mesmo modo que o Simple Minds consegue se manter. Às vezes classificado como banda de um hit só, eles se sustentam em seus maiores clássicos para continuar criando canções que as mantenham minimamente vivas, atualizando-as conforme as necessidades mercadológicas. Além do mais, as pessoas sempre recorrem aos clássicos e os revitalizam, seja qual for o formato.

A nostalgia de Walk Between Worlds não é tão marcante, mas funciona muito bem em alguns momentos. A atmosfera sintética de “The Signal and the Noise” é o melhor exemplo de como recorrer aos anos 80. A voz feminina e a programação acelerada de “In Dreams” grita “somos aquela banda parecida com U2”. Já “Barrowland Star” se apoia inteiramente em David Bowie e sua tão alardeada fama camaleônica. “Walk Between Worlds” só confirma a nostalgia furada que permeia durante todo o tempo. E embora podendo servir de agravante, a versão de “Dirty Old Town” é muito amorzinho.

Porém, não se deixem levar por nada pré-concebido como nostálgico ou evidente mudança de fase/troca de ciclos. O Simples Minds pode até tentar parecer com outras bandas e artistas, mas na realidade é mais Simple Minds do que nunca.

PS.: A curiosidade do disco é que toda a arte gráfica foi feita pelo artista brasileiro Heitor Magno.

Eder Albergoni Autor

4º elemento, 10º homem (sempre do contra), pinkfloydiano e adepto do meteorismo. Cresceu ouvindo e herdou os LPs do tio. Às vezes suas resenhas parecem crônicas. Às vezes, contos. Às vezes parece resenha também.

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