Batman: O Cavaleiro Das Trevas (2008) – 10 anos da Trilha Sonora

10 anos da vibrante trilha do filme de super-herói do milênio

Por Gabriel Sacramento

O projeto da Warner de rebootar um dos heróis mais implacáveis das HQs, depois de filmes lamentáveis nos anos 90, acabou caindo nas mãos de um diretor e roteirista britânico em ascensão na indústria, Christopher Nolan, e ele pôs a mão na massa dando início com Batman Begins (2005). O diretor tinha feito apenas um filme com um orçamento grande – o ótimo thriller psicológico Insônia de 2001 -, mas já tinha uma boa reputação por filmes como o fabuloso Amnésia (2000) – que segundo David Cronenberg e este que vos escreve, é o melhor trabalho do diretor. E foi no Begins que Nolan trabalhou pela primeira vez com o veterano compositor alemão, Hans Zimmer, que já tinha trabalhado em trilhas para projetos grandiosos como O Rei Leão e Gladiador. E dali, começou uma parceria que se estendeu por muito tempo e rendeu belíssimos momentos para o cinema moderno.

Para Batman: O Cavaleiro Das Trevas, o volume 2 da planejada trilogia, Chris Nolan se uniu ao seu irmão Jonathan e David Goyer, e juntos decidiram escrever um filme que continuasse o primeiro e introduzisse os vilões Coringa e Duas Caras. Assim como o primeiro, o roteiro se destacou por apresentar uma visão mais realista, pessimista e humana dos personagens, fugindo de arquétipos previsíveis: o Batman, um herói destemido e pronto a se arriscar para o bem de sua cidade, mas também inseguro, que se questiona e luta contra a própria necessidade de que ele exista; o Coringa, um anarquista, que objetiva o caos absoluto, mas não sente necessariamente ódio pelo seu antagonista, mas fascínio, pois sente que eles são iguais (influência de A Piada Mortal); e temos também um Jim Gordon, que busca o bem e a ordem, mas com outras intenções escusas.

E essa característica do roteiro influenciou a visão de Hans Zimmer e do James Newton Howard, compositores da trilha. Eles decidiram não focar em canções-tema fáceis de cantarolar, pois acharam que não condizia com a complexidade e característica sombria dos personagens como foram escritos. E o próprio fato do diretor ter escolhido dois compositores foi para oferecer diferentes visões à parte musical do filme, assim como o personagem principal, que está dividido em duas personalidades: a do Bruce Wayne e a do seu alter-ego. Na divisão das composições, Howard ficou com os temas mais dramáticos e Zimmer, com os mais energéticos.

O álbum traz as características típicas das trilhas do Zimmer: elementos eletrônicos modernos misturados com temas orquestrais. O destaque é a forma como a trilha evita ser emocionalmente manipulativa, optando por menos volume e mais sutileza e frieza nos momentos mais dramáticos (salvo raras exceções). E quando parte para o oposto, temos momentos mais eletrizantes, com vários instrumentos acontecendo, sempre com um ótimo senso de movimento e perigo gerados por melodias circulares, compostas por poucas notas, crescendos fantásticos e percussões impactantes. Isso foi combinado inteligentemente pelo diretor com a edição ágil das sequências de ação do filme, e suas técnicas de movimentação de câmera, criando vida, energia e empurrando o filme para frente.

Assim como o Nolan explora a Gotham grandiosa, mas abalada e destruída, com sua câmera fazendo movimentos expansivos e planos mais abertos, a trilha também parece traduzir o estado da cidade e o da população. Em momentos como “A Little Push”, por exemplo, a instrumentação é ameaçadora, sorrateira, a fim de nos fazer imergir no contexto do filme. Afinal, um grande vilão está aterrorizando a cidade, e mesmo que Harvey Dent, Jim Gordon e o Batman estejam se levantando contra ele, os estragos são enormes e não podem ser desfeitos. A trilha reflete essa sensação de caos progressivo em muitos instantes, mesmo que sempre quebrando esse caos com paradas para momentos contemplativos.

Mesmo não focando em temas que podem ser facilmente memoráveis, Zimmer e Howard compuseram temas para os personagens. A urgente “Dog Chasing Cars” possui o tema do Batman. “Why So Serious” contém lâminas como percussão, agudos agonizantes e uma série de instrumentos ruidosos como guitarras, tudo isso para traduzir a personalidade perturbada do Coringa do Heath Ledger. Já o tema para o Harvey Dent é o “Harvey Two-Face” e é um dos poucos momentos em que a trilha cria uma sensação de euforia heróica, que lembra um pouco trilhas de filmes de aventura.

Se o roteiro é um dos melhores dos irmãos Nolan, com uma consistência absurda, sensacionais rimas narrativas e temáticas, personagens profundos e misteriosos e linhas memoráveis – como “a noite é sempre mais escura antes do amanhecer” ou “ou você morre como um herói ou vive o suficiente para se tornar o vilão” -, a direção também merece destaque, por aliar os elementos para chegar a sequências muito bem orquestradas visualmente, que conversam bem com a parte musical. O cuidado da direção é notável na forma como a mixagem de som é precisa nos momentos mais dinâmicos, e na forma como ele alterna foco na diegese e foco na música, deixando o espectador entender o som da cena, mas também ser estimulado pelas composições. Inclusive, em alguns momentos-chave nos quais qualquer outro diretor de ação teria deixado a trilha para criar mais conexão com o espectador, Nolan corta a música e deixa a frieza da cena falar por si só. Com isso, a música nunca é muito intrusiva, nem anti-climática, embora seja alta quando necessário.

Cavaleiro Das Trevas é a melhor adaptação do Batman para as telonas e, depois de dez anos, seu reconhecimento continua unânime. A ideia do Zimmer e Howard de não seguir o que já tinham feito antes para o Batman nos cinemas foi corajosa, mas eles conseguiram honrar a proposta e fazer jus ao tamanho do projeto. A parceria dos dois gerou um trabalho dinâmico e forte, que veste perfeitamente a ação, mas também o aspecto frio, sombrio e sisudo do filme. Além disso, o trabalho com o Zimmer na trilogia do Batman foi fundamental para que ele e Nolan pudessem desenvolver depois A Origem e Dunkirk, filmes que reforçaram que esses dois se entendem perfeitamente e conseguem simbioticamente conversar com o espectador usando formas de expressão diferentes, embora a mesma linguagem.

 

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *