Chris Dave And The Drumhedz – Chris Dave And The Drumhedz (2018)

Resumo de tudo de melhor que a música negra produziu nas últimas décadas, mas com a assinatura do autor

Por Gabriel Sacramento

Chris Dave é um jovem apaixonado pela bateria desde os seus três anos de idade, quando começou a tocar. Desde criança, foi exposto ao jazz dos mestres Miles Davis e John Coltrane, junto com a influência do seu próprio pai, que também era um baterista. Como muitos jovens promissores nos Estados Unidos, foi para as igrejas moldar e aperfeiçoar o seu talento, para então cair no mercado e virar um nome requisitado. Seu currículo, invejável por sinal, contém álbuns de sucesso como o 21 (2011) da Adele, o X (2014) do Ed Sheeran, o Purpose (2015) do Justin Bieber e o Black Messiah (2014) do D’Angelo. O músico é considerado um dos melhores bateristas da atualidade e agora dá o primeiro passo para um novo papel: o de bandleader.

Para isso, resolveu reunir um time de 50 músicos e gravar o primeiro álbum, que levou o nome da banda, Chris Dave and The Drumhedz. O álbum, cuja capa é claramente inspirada pelo I Want You (1976) do Marvin Gaye, saiu pela icônica Blue Note e foi gravado no Kingsize Soundlabs em Los Angeles. A ficha técnica é impressiva e contém nomes como Pino Palladino – baixista sensacional que fez parte daquele trio de blues do John Mayer e colabora frequentemente com o músico – e o vocalista Anderson .Paak. A produção é do próprio Chris e a mixagem é do Ben Kane.

Seguindo a ideia dos produtores clássicos, como Phil Spector, que costumavam escrever o material e ter mais controle do produto final – o que os americanos gostam de chamar de auteur -, Chris Dave escreveu quase tudo e chamou diversos artistas para gravar para ele. É uma ideia parecida com o que o Mark Ronson fez com seu Uptown Special (2015) e o Calvin Harris com seu Funk Wav Bounces Vol.1 (2017), ambos ótimos, diga-se de passagem. Dave teve total controle dos rumos artísticos de todas as fases do projeto, conseguindo um álbum perfeitamente coeso em termos estilísticos, e ainda tocou bateria em todas as faixas.   

Como produtor, o trabalho dele é sensacional. Soube perfeitamente desenvolver os climas e texturas, gerando uma sonoridade fortemente hipnótica, hipnagógica e lisérgica, mas também soube paralelamente desenvolver arranjos que chamassem a atenção para o seu virtuosismo como instrumentista e que dessem foco para o instrumento principal, a bateria. Além disso, Dave coordena e dirige bem o seu grande elenco de artistas, dando espaço para todos e favorecendo as composições. Por exemplo, o Anderson .Paak surge em alguns momentos, com seu ótimo timbre, fazendo o que ele faz bem, mas também cooperando precisamente para as canções e para a coesão do todo.

E se dizem que o ar de Nashville é inspirador e influencia os músicos que vão para lá a se voltarem para o country, dá para dizer que o ar de Los Angeles tem sido inspirador para fazer os músicos desenvolverem sonoridades jazzísticas modernas que se misturam bem com outros estilos da música negra. O som de Chris Dave and The Drumhedz é totalmente focado nesse crossover maluco entre jazz, hip-hop, funk, soul, R&B, muito influenciado pelos losangelianos do West Coast Get Down e associados, como Kamasi Washington, Kendrick Lamar, Thundercat, Miles Mosley e outros. Mas o álbum também bebe da fonte dos nova-iorquinos Maxwell e D’Angelo, principalmente no quesito repetitivo e enfático dos arranjos e na atmosfera meio lounge. Ou seja, em suma, é como um bom resumo de tudo de melhor que a música negra produziu da década de 90 até hoje, do hip-hop mais orgânico da atualidade ao neo soul sensual dos anos 90.

No entanto, as canções possuem a assinatura do seu criador e um foco em uma certa esquisitice e um aspecto mais viajante que o destaca. A forma como a mixagem do Ben Kane aborda a bateria, por exemplo, atribuindo mais espaço que o comum no espectro e acrescentando uma sensação de expansão caótica com ruídos, que nos momentos intensos explodem nos nossos tímpanos, é um dos aspectos que fazem desse álbum uma experiência bem singular. Também temos um trabalho de timbragem muito cuidadoso, mas diversificado, tudo para satisfazer as demandas da mente criativa do bandleader. Em termos de imaginação da construção de arranjos à pós-produção, não há do que reclamar.

Baterísticamente falando, o álbum é irrepreensível também. Dave é conhecido pelo uso de síncopes e aqui, ele encharca os arranjos com elas, abusando da sua capacidade de tocá-las com perfeição. Temos muito do feel de improvisação do jazz, que vai dos solos à forma como ele pensa as estruturas de suas faixas, com liberdade para deixar os arranjos fluírem e não necessariamente precisarem ser resolvidos. Mesmo sendo um álbum de um baterista, que quer deixar claro que é muito bom tecnicamente, somos expostos a momentos de conduções mais simples, que mostram que ele também tem sensibilidade.

O primeiro álbum do projeto novo do Chris Dave passa bem pelo teste do tempo e chega bem ao final. É um álbum delicioso, que compila bem as influências diversas do músico e todo o background dele – como uma boa biografia sonora -, trazendo melodias cantaroláveis e solos insanos de bateria. Mas também aponta para frente, nos deixando ansiosos para mais desse projeto fantástico. Um álbum muito bem produzido, com um controle absurdo de uma pessoa, que curiosamente, gerou um produto que parece livre de controle para ser, simplesmente, musical.

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante.

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