Oito Mãos – Maré de Vento (2018)

Maré de Vento é a sensação emocional dos que absorvem a frustração rotineira com o país

Por Eder Albergoni

Depois de quase 5 anos, troca de integrante e a mudança radical no país, a Oito Mãos lança Maré de Vento, disco separado em dois atos que refletem e imprimem as personalidades e egoísmos humanos, o pessimismo em relação à política e a sensação de estarmos todos sem saída, num mundo pouco justo e tolerante, onde conquistas são enterradas e valores são subvertidos.

Analisar a banda depois da troca de integrante e a nova dinâmica a que foi submetida é um problema bem gostoso de resolver. Se comparado aos discos anteriores, Maré de Vento soa muito distante de qualquer característica primordial. Aquilo essencialmente atribuído à banda como parte de seu DNA musical e que alavancou os dois primeiros trabalhos. Em Maré de Vento essas conclusões não fazem sentido, apesar de funcionar do mesmo jeito. Seja nos vocais em falsete de Felipe Bier, seja nos vocais rasgados e emocionais de Felippe Pompeo, seja na composição e expressão delicadas de Leandro Publio, seja na energia rítmica de Leo Costa.

A primeira parte do disco entrega um ato pessimista e pesaroso. Uma contradição à lembrança dos discos anteriores que refletiam sensações mais amistosas. As desilusões sociais, por assim dizer, já encontram voz em “Cães” e “Ser Água”. Podem ser entendidas como o movimento que reprime e sufoca, e como a adaptação a esses momentos obscuros. É como ser afogado por alguma coisa invisível, o que explica filosoficamente o nome do disco.

A personalidade de cada integrante é posta à prova com a entrada de Leo Costa e a busca pelo entrosamento perfeito. Isso transparece já na faixa de abertura “Simone” com uma levada solo e em “O Encanto” com a incursão rítmica acentuada em destaque. “Fora Dentro” é uma típica música de Felipe Bier, com riffs detalhados e pensados para serem eficientes. Para quem conhece a discografia da banda, “Ex-Namorados”, do disco Aliás (2013), vem logo aos ouvidos. Mesmo que a letra não suscite um romance, a melodia serve como catalizador de paixões.

Já “Sentido Contrário” é a típica música de Felippe Pompeo. Divididas em partes que flagram a personalidade inquieta, quase caótica e brava na casca, mas calma e quase impassível na alma. “Sentido Contrário” termina o primeiro ato reforçando a coleção de ótimas frases do disco, em um trabalho muito aplicado em escrever boas letras e contar boas histórias. É o ápice do entendimento abstrato de Maré de Vento. Algo que vai criar liga com o segundo ato.

Foto: Christian Camilo

“Porcelana” – sobre mandos e desmandos de quem tem poder -, “O Dia Depois do Natal” – sobre o constante crescimento do conservadorismo – e “Cavalo Incerto” – sobre a escolha de lados e o binarismo político e social – costuram o tema central do disco. Falar de política sem panfletos e bandeiras, mas tomando partidos e tendo opiniões seguras, tendo como pano de fundo o sentimento da vida comum, do dia a dia. Se em Recomeçar, do Tim Bernardes, era uma sensação psicológica, se em Hoje Falo Por Mim, da Aline Lessa, era uma sensação filosófica e em Xênia, da Xênia França, era uma sensação física, em Maré de Vento a sensação emocional traduz completamente o ponto de vista dos que absorvem a frustração rotineira em relação ao país, seus representantes, e também a uma parcela bem grande das pessoas. Cabe ainda elogiar o trabalho do produtor Rafael Gomes, que tirou o máximo de cada integrante na interpretação dessas três músicas e também na participação de LaBaq e Andrei Kozyreff na desconcertante e visceral “Primeiro na Vida”.

Maré de Vento surge em num momento onde a música do mundo é rap/ hip hop, onde a produção pop se volta cada vez mais a elementos menos orgânicos, onde o rock envelheceu e o indie faz plástica. A Oito Mãos se vira com a experiência que tem e com o que conhece da estrada que percorreu. Ego e orgulho se misturam e a ótima e recente entrevista de Mano Brown só ganha mais significado. Embora dominar o mundo através de listas de influenciadores e vídeos de em alta seja mesmo o caminho do entretenimento fácil, urgente e descartável. O que a Oito Mãos faz é plantar a ideia, semear o espírito, tocar a alma de um jeito único e quase sob medida. Deve ser desesperador e cansativo transformar as pessoas.

Foto: Christian Camilo

Eder Albergoni Autor

4º elemento, 10º homem (sempre do contra), pinkfloydiano e adepto do meteorismo. Cresceu ouvindo e herdou os LPs do tio. Às vezes suas resenhas parecem crônicas. Às vezes, contos. Às vezes parece resenha também.

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