Ty Segall – Freedom’s Goblin (2018)

Quando o fuzz vira poesia

Por Gabriel Sacramento

O pedal de fuzz começou a ser amplamente usado no rock na década de 60, depois da clássica gravação de “You Really Got Me” pelos Kinks, na qual Dave Davies conseguiu um som insano para a época, ao, simplesmente, furar o amplificador. Daí, Keith Richards, Jimi Hendrix, Santana e até o Paul McCartney passaram a utilizar os pedais que emulavam esse efeito para conseguir aquele som característico que, junto como o LSD, enlouqueciam a juventude da época. Era a década dos excessos, descobertas, do mais alto volume, da rebeldia e quebra de padrões. E o fuzz era a trilha sonora, rapidamente se tornando uma marca do rock da época e das primeiras “bandas de garagem”, mas só voltando à tona quando o grunge explodiu nos Estados Unidos nos 90’s (inclusive sendo usado em produções mais polidas, o que contrariava aquela ideia de sujeira e DIY do início). Hoje em dia, com a onda das bandas revival, o efeito tem sido usado frequentemente para fazer alusão a uma versão mais agressiva, animalesca e explosiva do rock. E um dos artistas-autoridade no uso do efeito é o Ty Segall.

Dono de uma discografia abarrotada de álbuns, projetos e bandas, o guitarrista e vocalista faz questão de focar em uma forma barulhenta de música, sempre tentando encontrar sentido em toda a desordem, ou simplesmente chutando a barraca ao não conseguir. Depois de lançar um álbum no ano passado, o seu segundo auto-intitulado, Segall está de volta com um álbum que sobeja pretensão: 19 canções, 1 hora e quatorze minutos de uma verdadeira e categórica fuzzeria, mas com escapadas para outros gêneros e referências.

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É o segundo álbum que o Segall teve a cooperação da sua banda, a Freedom Band, além de diversos músicos convidados fazendo metais e percussões. A engenharia do álbum é assinada por ninguém menos que Steve Albini, um mestre na arte de conseguir sons lo-fi fenomenais e de impacto. Freedom’s Goblin é álbum com muita sujeira intencional, mas os timbres são excelentes: marcantes e demonstram que houve bastante cuidado na confecção de cada um deles.

A produção exagera as esquisitices e a garageria típicas do som do Segall – nunca tentando fazer isso soar bonitinho ou tentando nos fazer aceitar com facilidade – e sempre priorizando um senso de improvisação e de liberdade de ideias, como uma espécie de “free rock”. A própria inclusão de metais e percussão denuncia uma valorização maluca de ideias alternativas e que fogem até mesmo do rótulo “rock de garagem”. Em algumas faixas, como na que fecha o álbum, “And, Goodnight”, temos vários minutos de contrapontos de guitarras sujas, junto com mini-solos dos outros instrumentos, como se tivessem apertado o rec quando uma grande jam tava rolando no estúdio. Temos faixas mais diretas como “Meaning” e “Shoot You Up”, sempre com protagonismo das guitarras e altíssimas doses insanas de distorção e faixas com refrões interessantes como a que abre o tracklist, “Fanny Dog”. Mas também temos boas surpresas, que caem como uma luva com o objetivo de dinamizar o álbum: a hipnótica e dançante “Despoiler of Cadaver” e o cover cheio de malemolência, mas com o fuzz onipresente, ““Every 1’s a Winner”, da banda Hot Chocolate. Já “She” é mais setentista, lembrando os primórdios do stoner rock e alguns momentos do álbum anterior.

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Outro mérito da produção do Segall e Albini é a captura de momentos mais emocionais. A administração desses momentos é muito bem feita, pois além de acrescentar uma conexão maior com o ouvinte, eles conseguem diversificar bem mais o material. “Rain” é uma balada belíssima, com o Ty cantando e interpretando lindamente e uma harmonia tocante. Temos também os momentos mais folk rock, como “My Lady’s On Fire”, “The Last Waltz” e “I’m Free”, que lembra as diversas bandas sessentistas do gênero, inclusive, algumas harmonias vocais remetem aos Beatles.

E, acima de tudo, é um disco sobre o fuzz. O efeito aparece em diversos momentos, mesmo os menos imagináveis – em alguns, fica até parecendo uma obrigação puramente estilística – e rouba a cena em todos que aparece. A mixagem engrandece os ruídos difusos e os timbres indefinidos, tornando eles o guia do ouvinte, fazendo com que a experiência tenha um quê de amargo, mas um amargo especial. As guitarras soam sempre muito próximas dos nossos tímpanos e sempre bem divididas, e nos momentos mais intensos, elas pulam para os ouvidos, unidas com os outros instrumentos, criando uma chocante e inexplicável sensação de big bang sonoro. A mixagem também é muito versátil na criação de mundos diferentes para cada direcionamento sonoro que o Ty tenta, efetivando essas tentativas: seja em canções mais soltinhas e dançantes, seja em outras mais sisudas, ou outras mais contemplativas, os instrumentos sempre estão lá presentes para harmonicamente criar e tornar tudo muito facilmente perceptível e compreensível para o ouvinte.

Freedom’s Goblin é um álbum surpreendentemente longo, mas suficientemente diversificado, que nunca perde o ouvinte, mas sempre o impressiona pelas habilidades e ambições deste ser, Ty Segall. Dá pra dizer que é um dos seus melhores trabalhos, reunindo bem tudo o que ele aprendeu nesses tantos anos de rock, de fuzz e amor pelos sons esquisitos e fora do padrão. Um álbum poético, no qual, a poesia não se encontra em letras envolventes, nas rimas ou no esquema lírico; mas sim no nível de distorção usado, nos ruídos e na colocação desses efeitos para fazer a nossa cabeça viajar. E leves como nunca, nós viajamos. Como se fossem os anos 60 de novo.

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante.

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