Rashid – Crise (2018)

Quando o hip-hop amadurece e se torna humano

Por Gabriel Sacramento

A vida tem seus altos e baixos, não é? Já dizia o velho e agora finado Rush: um dia a gente se sente como se estivesse no topo do mundo e no outro, como se o mundo estivesse caindo sobre nós. Um dia, estamos otimistas, outro, pessimistas. Um dia a gente sonha bem alto, outro dia a gente nem consegue dormir. É partindo dessa premissa que o rapper Rashid abre as cortinas do hip-hop tupiniquim em 2018. Seu Crise é sobre nada mais do que ser humano com todas as boas e más implicações que vem no pacote.

O hip-hop tem um histórico de associação com o otimismo, que muitas vezes é sim, usado para ajudar e fortalecer os ouvintes, mas também cai para o exagero e para a alienação autoindulgente (discutimos isso nesse podcast). Essa visão alienante é carregada de muita inocência, como uma cor que só existe, não por sua própria composição, mas por falta das outras. Parece que falta realidade nas letras de muitos rappers, falta um pouco mais da vida e de humanidade. Dentro dessa lacuna, o disco do Rashid entra muito bem, chutando o pau da barraca mesmo.

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O álbum foi o resultado dos singles que o artista já vinha lançado na coletânea “Em Construção”, junto com duas faixas novas. A produção é do Nave Beatz.

Em termos de bases instrumentais, não temos nada muito ambicioso aqui. Rashid e seu produtor exploram bases orgânicas em alguns momentos e eletrônicas em outros, mas sem grandes sacadas nos arranjos ou na mixagem. Tentam ser diversificados e aplicar as tendências atuais. Mas o som não é tão marcante quanto o Galanga Livre, por exemplo, com todos aqueles graves pesadões que ameaçam engolir nossos tímpanos. Assim, tudo é organizado para que o foco seja no Rashid letrista e nessa faceta, ele dá um show.

Ele sempre foi muito bom em escrever e aqui não é diferente. Já começa com “Música de Guerra”, em que ele afirma quem é e que está de volta melhor que antes, mas sem cair na arrogância total. Também manda um recado interessante no segundo verso: “E digo: menino, não vá pro crime//No flow noiz chega nos plaque, tipo Guimê//Vamos achar outras rota”. Em “Estereótipo”, ele manda a real sobre o racismo, usando algumas expressões figuradas bem inteligentes em alguns momentos e sendo bem literal em outros. “Química” e “Bilhete 2.0” são românticas. Já “Primeira Diss” é sensacional: o rapper decidiu coletar as críticas que fazem ao seu trabalho e recitá-las. A faixa tem um tom forte e contundente, que casa com o tom das outras, mas é como se ele estivesse cantando para si mesmo em um tom irônico. A melhor faixa do álbum é “Se Tudo Der Errado Amanhã”, que acima de tudo, é uma prova da maturidade do músico e uma amostra de suas inseguranças, com relação à vida e carreira. E ainda conta com um refrão ótimo cantado pela Ellen Oléria (se você ficou com vontade de ouvir mais dela, recomendo o maravilhoso Afrofuturismo de 2016). Em “Mal com o Mundo”, ele, em um tom bem pessimista, fala das suas perspectivas políticas e sua leitura do mundo do jeito de uma forma bem pungente.

As letras de um rapper são um fator importantíssimo para ganhar o público. A forma como ele trabalha prosa e poesia, como aborda elementos da realidade, que relevância suas letras possuem e a força delas encaixadas no ritmo e no seu rapping, tudo isso conta muito. Nesse quesito, o Eminem sempre foi muito bom, principalmente no começo da carreira, e o Rashid é sensacional também. Suas histórias importam para o ouvinte, são profundas e cheias de camadas de uma forma que não esperamos, e nos pegamos sempre totalmente entretidos pelo que ele tem a dizer e pelo jogo de palavras que irá utilizar para fazer isso. Fora a riqueza de referências que ele utiliza muito bem em suas analogias, que deixam tudo mais bem claro para o ouvinte, ao mesmo tempo em que tudo fica mais robusto e bem situado no mundo real.

Crise é um álbum pessoal, reflexivo, crítico e intenso, que nos faz viajar nos temas que o Rashid propõe, mas nossa viagem sempre acaba em nós mesmos. Afinal, quando ele pega o microfone para falar das incertezas que compõem ele mesmo, está falando das mesmas que nos compõem, dos mesmos problemas que nos assolam e nos fazem levantar à noite. A vida não é um filme da Disney, nem a imagem que rappers como Projota tentam passar. Ela é dura e nos deixa diante de contradições o tempo todo. Crise é um bom e visceral retrato dessa vida.

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Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante. https://twitter.com/gabrielsacr https://medium.com/@gabrielsacramento

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