Marmota – A Margem (2017)

Jazz purista e improvisado com climas bem demarcados

Por Gabriel Sacramento

É fato que a música brasileira passa por um período complicado: muitos artistas mais populares se mostram mais preocupados com a fama e sucesso do que com a expressão artística; muitos artistas geniais no underground sufocados pela falta de luz para que os outros possam enxergá-los; uma bolha que cerca o público consumidor e o impede de alcançar nomes interessantes e inusitados – o que é reforçado pelos meios de comunicação que só investem no mais lucrativo. Mesmo que estejamos vivendo em um dos países mais ricos em termos de cultura e arte, os brasileiros não sabem disso.

Dentro dessa perspectiva, alguns gêneros ficam conhecidos somente por estereótipos pelo grande público. Já perdi a conta de quantas vezes eu ouvi dizer que jazz é um estilo chato, feito para dormir ou sem boas surpresas – logo o jazz, que deveria ser um velho conhecido dos brasileiros, já que é um dos pais da bossa nova. Poucas são as pessoas que, decididas a quebrar esses rótulos, embarcam em experiências exploratórias pelos lançamentos do gênero para descobrir e aprender a gostar de novas formas de musicalizar os sentimentos. Por isso, é nossa missão aqui no Escuta Essa Review apresentar a vocês diversos estilos musicais com a mesma ênfase, para que preconceitos como esses sejam derrubados.

anderson fetter
Anderson Fetter

Mas felizmente, bandas brasileiras têm tentado chegar ao público pelo jazz. Uma delas é a Marmota, grupo gaúcho promissor dos últimos anos, formado por Pedro Moser (guitarra),  Leonardo Bittencourt (piano), Bruno Braga (bateria) e André Mendonça (contrabaixo). Ao contrário de grupos também excelentes como Bixiga 70 e Black Mantra, que brincam com crossovers estilísticos, o Marmota foca na experiência do jazz puro, sisudo e cheio de reviravoltas improvisadas. O primeiro álbum, o ótimo Prospecto (2015), foi gravado na casa do pianista da banda, e esse novo foi captado no estúdio Áudio Porto, ao vivão mesmo, produzido pelo Rafael Hauck.

Pensando no jazz que se aproxima do rock progressivo, com temas que se sucedem acrescentando sentido uns aos outros nos arranjos, como eu falei na crítica do Anti-Hero (2017) do Kneebody, temos já uma primeira boa impressão do som dos gaúchos. A produção do Rafael Hauck consegue um certo senso de progressão fluída entre os temas e solos do álbum e tudo flui levemente dentro dos arranjos: cada ideia, cada nota, contornados pela variação de intensidade com que são executados. É como se estivéssemos assistindo a banda ao vivo em um teatro – e a forma como eles aproveitam o silêncio evidencia isso. Os 42 minutos passam tão rápido que quase nem percebemos, e a ligação entre as faixas é muito bem feita, com um feeling fantástico de mansuetude que perpassa todas elas.

Mesmo que o som deles não seja um jazz difícil e cerebral, há passagens que são bem intrincadas. Seja com tempos complexos e exóticos ou com uma certa abertura para contrapontos, a soma dos esforços gera um resultado bonito de ouvir que complementa os momentos mais fáceis e fortalece a sensação de dinâmica. O importante é que o equilíbrio dita as regras aqui. O álbum já abre com “Ar”, que é um “épico” de dez minutos e já evidencia a qualidade dos arranjos e do controle da produção com relação aos momentos específicos para improvisações e para o desenvolvimento dos temas. “Hades” deixa um senso de mau presságio no ar, mostrando como eles conseguem criar muito bem climas imaginativos sem precisar de muitos overdubs e basicamente confiando na dinâmica baixo-guitarra-piano-bateria. Temos ainda canções mais cool como “O Inevitável Fim de Todas as Coisas”, que fecha o álbum e nos deixa secos por mais.

Para este álbum, o grupo preferiu gravar só músicas autorais e focar mais nos climas e temas do que nas improvisações. Com a ajuda do produtor, chegaram a esse objetivo lindamente, com uma boa seleção do que entrou, que tornou os arranjos fascinantes. Destaco o trabalho do Pedro Moser nas seis cordas, com seu timbre scofieldiano maravilhoso e um bom timing. Todos os músicos estão muito bem, se balanceando bem, mas quem rouba a cena praticamente durante todo o álbum é o baterista Bruno Braga: suas levadas e escolhas exprimem uma euforia contagiante, que lembra o jeito de tocar do Marco Minnemann. É como se ele tocasse o tempo todo sorrindo – como o Minnemann – e essa alegria constante fosse transmitida para os tambores.

 
A mixagem de A Margem mantém tudo muito geográfico e espacial, como em uma configuração ao vivo mesmo, em que a posição dos instrumentos importam muito. Os instrumentos soam bem brilhantes e isso ajuda a compreender cada nota executada perfeitamente. O novo álbum da Marmota é superior ao anterior e demonstra como a banda evoluiu e agora está pronta para desafios maiores na carreira. No mais, é um álbum de jazz tão bom e gostoso de ouvir quantos álbuns feitos por gringos, mostrando que o Brasil não perde para eles nesse quesito. Mas infelizmente no quesito público sim, já que preciosidades como essas nunca são tão divulgadas como deveriam.

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Raul Krebs

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante.

Comentários

    Aquino Batista

    (22 de janeiro de 2018 - 22:02)

    Marmota é também um termo muito usado em Minas, para qualificar coisas “estranhas ou consideradas fora do padrão. Ex: ” Menino você cortou o cabelo desse jeito??? Ficou uma marmota”. Porém o som é de muito bom gosto e a crítica também. Áááá

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