Anderson East – Encore (2018)

Mais um para lista de obras-primas do soul moderno

Por Gabriel Sacramento

O grammy de melhor produtor desse ano deve ir para o Greg Kurstin – que, convenhamos, é um baita produtor -, mas há vários nomes que deveriam, ao menos, ter sido lembrados. Um deles é o Dave Cobb. O produtor tem acertado bastante em suas descobertas e parcerias dentro do cenário do rock, country e southern soul, tais como Chris Stapleton, Sturgill Simpson, Jason Isbell e Rival Sons, e colecionado uma série de discos maravilhosos nos últimos anos. É um cara que vale a pena ficar de olho, pois sempre que seu nome pinta nos créditos de algum álbum, a tendência é que esse álbum tenha uma produção muito bem feita.

Em 2015, Cobb chamou o jovem Anderson East para o seu selo, Low Country Records, e comandou a gravação do seu primeiro álbum em um selo grande, chamado Delilah. Três anos depois, Cobb e East surgem novamente com mais um álbum da parceria, Encore, que também apresenta canções escritas por Chris e Morgana Stapleton, Ed Sheeran e guitarras do Ryan Adams.

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E se no álbum dos The Suffers de 2016, a soul music experimentou um elixir para rejuvenescimento, Anderson East parece possuir a fórmula também, viaja com o velhinho para o sul dos Estados Unidos e se compromete em não deixá-lo apresentar sinais de desfalecimento. Sua música é viva, energética, alegre e cativante, mesmo que recicle os mesmos elementos do estilo que já ouvimos muitas vezes por aí. Mais uma vez, um artista grita para o mundo em letras garrafais: não é preciso ser inventivo para ser marcante na música. Reinventar a roda não é necessário.

Os metais, as guitarras aconchegantes, a percussão requentada, tudo isso já é ingrediente da faixa de abertura, “King For a Day”. Temos também piano, orquestra e metais dividindo espaço em “House is a Building”. Em momentos mais soltinhos, temos os instrumentos dançando e som de palmas em “Girlfriend”, com destaque também para um órgão muito bem colocado no meio da equação. A guitarra levemente swingadinha, que lembra guitarristas clássicos de soul como Curtis Mayfield, aparece sorrindo em “All on My Mind”, com um refrão bem forte e grudento. Em termos de tracklist, sem reclamações.

A produção de Dave Cobb para esse álbum lembra bastante a fórmula que ele já utilizou em outros trabalhos: bases instrumentais interessantes, mas simples, seções bem demarcadas com perfeito senso de início e fim e foco em interpretações apaixonantes, refrãos e no poderio vocal do cantor. Cobb consegue formatar os arranjos para que eles soem básicos, sem soarem preguiçosos, e gerem uma sensação de muitas camadas acontecendo, quase como uma wall of sound, que era tão comum nas músicas de soul de antigamente. Os instrumentos soam muito próximos na mix em boa parte do tempo, para destacar os vocais. No entanto, o produtor também sabe utilizar bem o panorama para separar os timbres e frequências, a fim de obter um outro efeito que alcança o mesmo objetivo: destacar as letras e interpretações.

Assim, o show é todo do Anderson East. O cara canta com muita paixão e entrega, com um estilo que parece uma mistura de maneirismos de vocalistas sensacionais como James Morrison, Jay Buchanan (Rival Sons), Chris Stapleton e James Bay. Mas seu timbre é muito peculiar e suas escolhas, direcionadas pelo Cobb, fazem com que suas performances sejam plenamente pessoais e impressionem o ouvinte. East domina as técnicas que utiliza, brinca com voz de cabeça, drive e experimenta até gritos super agressivos, como na excelente performance de “Somebody Pick Up My Pieces”. Nesta, ele despedaça a sua voz com veemência para falar para alguém “catar os seus pedaços”. É uma performance sensacional, errática e cheia de muito do feeling do momento, no estúdio, que ele com certeza não conseguirá emular novamente. Em alguns momentos da música, ele parece realmente abrir mão da preocupação com o rigor técnico e soltar a voz e tudo o que tinha guardado como sentimento, mostrando que sabe usar suas cordas vocais como um instrumento para fazer o mais gélido dos seres humanos sair por aí atrás de um lenço de papel.

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Aliás, faz pleno sentido estarmos falando de interpretações fenomenais em um álbum de soul, já que uma das contribuições do estilo para a música popular é justamente as grandes vozes. Desde o início, o estilo esteve muito preocupado com o conceito temático e com a paixão com que isso era transmitido para o ouvinte, daí a grande influência do gospel. Mesmo depois da “secularização”, essa característica ficou como pedra angular do gênero e até hoje temos belíssimas demonstrações disso.

 
Encore é mais um acerto do Anderson East, que é um dos nomes mais interessantes do soul moderno atual. E se artistas como Curtis Harding – que fez o melhor álbum de soul de 2017 – decidem apresentar ao mundo uma versão mais pessoal, viajante do estilo, East decide ir pelo “mais fácil”, se apegando aos conceitos preestabelecidos e deixando sua voz definir as suas idiossincrasias. Já temos uma das obras-primas musicais de 2018.

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Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante. https://twitter.com/gabrielsacr https://medium.com/@gabrielsacramento

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