Youngr – This is Not An Album (2018)

Pop simples, multiclimático e cheio de detalhes

Por Gabriel Sacramento

Dario Darnell (Youngr) parece fazer de tudo para tentar nos convencer que seu novo projeto – que ele sugestivamente batizou de This is Not An Album – é uma coleção de faixas pop agradáveis, climáticas e sem profundidade. Pois é, mas aí é que vem o plot-twist quando ouvimos o álbum: tem profundidade sim e muita, pois a intenção é o acessível, mas a forma como Dario chega a isso é o que faz essas canções soarem especiais.

O jovem produtor de 28 anos tem angariado certa notoriedade com seus singles e um certo destaque na cena eletrônica de Manchester. Motivado pelo sucesso das faixas isoladas, ele decidiu juntá-las numa compilação – que não chama de álbum, porque as canções já tinham sido lançadas. This is Not An Album impressiona pelos seus sofisticados detalhes.

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Além de um bom produtor, Dario é também um excelente arranjador. Ele sabe criar seções instrumentais memoráveis, aproveitando bem pequenas ideias, utilizando corretamente e cuidando do tempo que elas duram dentro dos arranjos. É como se enxergássemos as canções do ponto de vista do vocal, mas dos instrumentos emulados também. Ele usa uma gama variada de timbres e de instrumentos para gerar uma sensação de riqueza e uma paleta diversificada de sons, que convergem bem para o objetivo principal. Das guitarras flamejantes de “Ooh Lordy” à bateria inquieta e cheia de groove e síncope de “Out of My Sistem”, passando por riffs marcantes e tão cativantes quanto as melodias como em “Disappear” e uma excelente linha de baixo em “93’”. Já em “Monster”, ele usa a estratégia de fazer o synth executar a mesma melodia do refrão, o que valoriza a mesma e apresenta ela sob um outro ângulo.

Além de criar instrumentais interessantes, Youngr também trabalha bem os climas de suas canções. Em alguns momentos, ele foca mais em climas mais relaxados, leves, já em outros, temos mais exagero de volume para soar mais dançante. Em “What’s Next”, temos um feel meio nostálgico, que é ainda mais aprofundado em “Monster”, que parece uma ode aos anos 80 de Stranger Things – e poderia até ser trilha do seriado, já que a letra fala sobre uma criança (no caso ele mesmo no passado) que costumava desenhar monstros na aula ao invés de prestar atenção na professora.

Ainda sobre as letras do álbum, temos uma que se destaca por abordar um tema relevante com muita profundidade: “93’”, que fala sobre como era a vida antes das redes sociais e dos smartphones. A letra traz comentários espertíssimos acerca da liquidez das relações na contemporaneidade, em virtude do uso exacerbado da tecnologia, com algumas linhas sensacionais, como na ponte, quando ele diz: “ok, me fale sobre os amigos que você segue/qual deles é real e qual é vazio?/ estão aqui hoje, mas não amanhã”. Críticas como essas são sempre bem-vindas para nos fazer refletir, seja de uma forma crua e pesada como em Black Mirror, ou de uma forma mais cool em álbum pop, como o Youngr fez.

O grande destaque de This is Not An Album é justamente este: não é um álbum propriamente dito, mas todas as canções funcionam perfeitamente juntas. É pop, simples, feito para alcançar multidões, mas com um nível absurdo de detalhamento e acabamento, típico de um produtor exigente com seus trabalhos. Aliás, a forma como ele pensa os detalhes e os explora bem lembra bastante o Sampha em seu Process (2017). Youngr já é uma revelação interessante da cena inglesa nos últimos anos e merece várias audições. Surpreenda-se.

 

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Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante.

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