Hanson – Finally It’s Christmas (2017)

Então é Natal… com Hanson, Sia e Tom Chaplin

Por Eder Albergoni

O Natal é a época do ano para lembrar e recuperar valores humanos, exercer caridade e refletir sobre as próprias realizações. Mas o Natal é também a época em que o mercado mais se agita, enxergando oportunidade em cada troca de presentes dos amigos secretos, ou entre amantes secretos, ou mesmo aquela lembrancinha para o sobrinho distante, ou ainda o panetone para o empregado ou para aquela prima do marido que você nunca vê. Seja como for, música sempre foi um ótimo presente, e as gravadoras descobriram no Natal o potencial pra fechar o ano com as contas no azul.

Depois da Segunda Grande Guerra, com o mundo vivendo uma aparente Era de Paz, as tradições natalinas encontraram em gravações musicais uma importante ferramenta para se manterem vivas. Cada vez mais os grandes artistas e bandas se empenhavam em tirar uma lasquinha do peru. Frank Sinatra foi o primeiro a gravar discos inteiros com o tema. Elvis Presley foi o primeiro a querer o peru só pra ele e tirou proveito da produção grandiosa que tinha: fora as dezenas de discos temáticos, Elvis estrelava especiais na televisão. Aqui no Brasil, nos anos 80, a TV encontrou em Roberto Carlos o correspondente nacional. Não é preciso nem dizer que hoje já estamos fartos da repetição eterna desse modo de comemorar o Natal.

Nos anos 90 vivemos um grande momento se tratando do redescobrimento de velhas canções. Simone com seu 25 de Dezembro (1995) é o grande feito da cantora, que além de estourar com “Então é Natal”, colocando a música no inconsciente coletivo do brasileiro, também trouxe a lembrança de John Lennon, compositor original de “Happy Xmas (War Is Over)”, um single de 1971 que se tornou instantaneamente um clássico da obra de John, mas nunca alcançou status máximo de música natalina. Simone abriu caminho para gravações de canções tradicionais revisitadas, primeiro pelos grupos de pagode – Exaltasamba, Negritude Jr., Art Popular e Só Preto Sem Preconceito -, que lançaram Samba de Natal em 1996, depois por Chitãozinho & Xororó, que no ano seguinte lançaram Natal Em Família e recuperaram “O Homem de Nazaré”, gravada originalmente por Antônio Marcos em 1973.

Nos últimos anos uma nova tendência surgiu. Se antes gravavam discos que entravam em categorias classificadas como coletâneas ou bootlegs, artistas e bandas agora compõem especialmente para o Natal e têm usado “os discos de carreira” pra isso. Katie Melua, em 2016, deu o primeiro passo. Apesar do disco ser em grande parte uma seleção de músicas pensadas especialmente para funcionarem juntas num contexto natalino, havia a preocupação artística de inovar e fugir das repetições. Um bom exemplo de inovação e fuga de repetições é o EP Happy Skalidays de 2014, lançado pelo Reel Big Fish, feito especialmente pra quem pula o Natal na praia.

Finally It’s Christmas não é a primeira empreitada de Natal dos Hanson. Em 1997, logo depois de alcançarem sucesso com Middle of  Nowhere, Snowed In era lançado com várias músicas originais intercaladas com covers dos mais tradicionais, caso de “Silent Night” e “White Christmas”. Finally It’s Christmas é um disco natalino de fato. Todos os elementos característicos estão lá: harpas, metalofones, xilofones, sinos e os imprescindíveis sleigh bells. Já as letras giram em torno dos climas de espera e paz, da alegria de estar com pessoas amadas, e mesmo do clima meteorológico. “Finally It’s Christmas” tem o DNA alto-astral dos Hanson e consegue causar uma boa impressão logo de cara. “A Wonderful Christmas Time” e “Til New Years Night” seguem a cartilha ligeiramente twist de trilhas sonoras para filmes de Natal.

Já “Please Come Home” revela  um Zac Hanson totalmente seguro e confortável, com uma voz madura e potente. Há anos as melhores músicas da banda são cantadas por ele. O mesmo se repete em “Joy to the Mountain”, “Winter Wonderland” e principalmente em “Peace on Earth”. Para além de só uma gravação natalina, esse é o principal desenvolvimento da banda durante os anos e garantia pra qualquer álbum futuro. “Someday at Christmas” é uma canção mais reflexiva, assim como “Blue Christmas” e “Have Yourself Merry Little Christmas”, essa última é o grande momento de Isaac Hanson no disco. Porém, destaque maior é quando eles juntam a horda de 12 filhos para cantarem na caixinha de música que é “Happy Christmas”.

Sia – Everyday Is Christmas (2017)

Aproveitando o Especial de Natal do Choque de Cultura, que diz que não é só porque um filme se passa na época de Natal, ele é necessariamente um filme de Natal, Everyday is Christmas da Sia parece se encaixar nessa definição. O disco é essencialmente pop, apesar de tratar da temática natalina em sua faixas. “Santa’s Coming For Us” quase poderia estar em This is Acting (2016) sem nenhum estranhamento. O que só reforça a tendência de discos natalinos fazerem parte da discografia normal de um artista. A parceria e coautoria de Greg Kurstin, o produtor ~mais querido~ dos integrantes do Escuta Essa, faz do disco uma peça pop, principalmente por trazerem referências de estilos e canções que nada teriam a ver com temas de Natal. “Candy Cane Lane” e “Ho Ho Ho” trazem elementos eletrônicos, enquanto “Snowman” e “Snowflake” suscitam a música da época dourado do rádio nos anos 1940. É um risco que no final se revela um bom acerto.

Tom Chaplin – Twelve Tales of Christmas (2017)

Tom Chaplin, vocalista da banda Keane, também faz de um disco natalino o seu segundo disco solo. Porém, Twelve Tales of Christmas usa só a ideia da mensagem bonita, igual o single “Do They Know It’s Christmas” planejado por Bob Geldof em 1984 em favor do Band Aid, deixando tudo mais contemplativo, emulando o olhar de alguém que observa o Natal de fora da correria das compras e consumismo, e também das tradições que mantem algum ritual espiritual. Tom quase cria um Natal neutro, e usa no meio de suas próprias composições, músicas de Joni Mitchell e The Pretenders. “River” e “2000 Miles” estão ali para completarem a ideia do Natal melancólico. Tom Chaplin se arrisca ao subverter a lógica das canções natalinas, como se quisesse alcançar e abraçar todo o tipo de pessoa possível, até mesmo aquela pessoa que se identifica mais com o Grinch do que com Kevin McCallister.

Nossos mais sinceros votos

Seja como for, qualquer um dos três discos é uma ótima substituição para aqueles compactos que tocam na sua casa desde que você era criança e traziam versões de “Bate o Sino” executadas na harpa. Não que essas ou os discos de Simone, Chitãozinho & Xororó, Samba de Natal, e os especiais de Elvis Presley e Roberto Carlos tenham perdido completamente a serventia. O Natal é tempo de se reencontrar e renovar as esperanças, e tudo isso, todas essas lembranças e referências guardam valores sentimentais que lidamos de jeitos diferentes. Seja qualquer um desses, seja os novos discos de tendência, seja a missa de Gloria do Vivaldi, seja a playlist com os singles da Anitta e dos MC’s, seja o barulho da família na cozinha ou simplesmente o silêncio, nós aqui do Escuta Essa desejamos que seus momentos de festa e/ou contemplação sejam muito felizes.

Eder Albergoni Autor

4º elemento, 10º homem (sempre do contra), pinkfloydiano e adepto do meteorismo. Cresceu ouvindo e herdou os LPs do tio. Às vezes suas resenhas parecem crônicas. Às vezes, contos. Às vezes parece resenha também.

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