N.E.R.D – No_One Ever Really Dies (2017)

Mais focado no hip-hop, mas também com faixas dançantes e climas jazzy

Por Gabriel Sacramento

Antes mesmo de virar um popstar de sucesso estrondoso – impulsionado pela deliciosa “Happy” e seu discaço G I R L (2014) -, além de produtor de cinema e compositor indicado ao Oscar, Pharrell Williams já fazia parte do grupo N.E.R.D (acrônimo de No_One Ever Really Dies), que formou com os amigos Chad Hugo e Shae Haley. O grupo está associado ao duo Neptunes – composto por ele e o Chad -, que já produziu vários nomes gigantes da indústria como Britney Spears e Gwen Stefani. O N.E.R.D sempre foi conhecido por inusitadas misturas de gêneros como rock, eletrônica, hip-hop e R&B e por um espírito livre para improvisações e experimentações. Isso rendeu álbuns malucaços, exuberantes e inebriantes como In The Search of… (2002) e Fly or Die (2004).  A banda também é conhecida por tocar em assuntos sérios de uma forma mais descontraída e inesperada.  

O próprio Pharrell disse em uma entrevista que não consegue ficar alheio ao que ocorre no planeta, principalmente agora com tantas denúncias de assédio sexual sendo jogadas ao ventilador, a repercussão de Donald Trump no poder e as dificuldades cada vez maiores de ser um negro nos Estados Unidos. Mas ele também diz que eles não gostam de soar ideológicos demais ou preachy, termo em inglês para algo como proselitista. Então, a saída para eles sempre foi expressar opiniões com metáforas inteligentes e sutis e, de alguma forma, adequando seus conceitos líricos ao mundo e os eventos contemporâneos e vice-versa.  

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Mas por ser uma banda experimental, cada álbum deles é uma incógnita. O último foi o bom Nothing (2010), que é um álbum consistente, mesmo que seja odiado pelo Pharrell por causa da pressão externa que eles sofreram na época para lançar algo mais comercial. O novo álbum auto-intitulado marca uma volta do controle por parte do trio, com a produção assinada somente pelo Pharrell, mesmo que tenhamos diversos produtores vocais. E musicalmente, o álbum reflete essa diferença. Ainda possui uma série de convidados famosos, como Kendrick Lamar, Rihanna, Future, Wale, M.I.A. e outros.

No_One Ever Really Dies apresenta a banda focando mais em aspectos não-orgânicos, diferente, por exemplo, da abordagem dos primeiros álbuns. Temos menos de rock e mais de música eletrônica e de sintetizadores – aqui tocados pelo Chad. “Lemon” abre o tracklist, com uma participação maravilhosa da Rihanna fazendo rap e uma batida vibrante e sacolejante. A letra possui referências políticas implícitas, inclusive, algumas que apontam para o presidente americano. “1000” também segue a proposta com uma batida eletrônica marcando ritmo e um aspecto dançante e divertido. “Deep Down Body Thurst” alterna momentos mais lentos com outros mais dançantes, só que com um feel mais orgânico. “Don’t Don’t Do It” é uma faixa bem cool, quase jazzy, que fala sobre um tema seríssimo: descaso pela vidas dos negros nos Estados Unidos. A letra aborda isso na forma de crônica sobre a história do Keith Lamont Scott, que foi morto pela polícia americana em 2016, e citando alguns casos de abusos das autoridades contra jovens afro-americanos. Temos nessa faixa uma participação poderosa do Kendrick Lamar, com um flow bem rápido sobre uma base mais distorcida. “Lightning Fire Magic Prayer” tem uma letra difícil de decifrar e uma estrutura bem malucona, com duas partes e vários refrãos. A faixa alterna um clima mais viajante com outro mais ambiente, inclusive fazendo uso de um som de água corrente na segunda parte.

Pharrell Williams acertou em cheio na produção do novo álbum. Ele consegue costurar as faixas com um senso de coesão fantástico, equiparando os beats para balançar e os climas mais reflexivos, ensolarados – com a mix também cooperando para que tudo soe muito bem -, sem abrir mão do contraste entre sintético e orgânico e entre som mais moleque e som mais sério. Os arranjos das faixas são lineares e estabelecem bem o aspecto experimental do álbum, equalizando a força das seções, sem muita ênfase à grandes momentos especiais como refrãos. Essa abordagem difere da abordagem do Nothing, com seus grandes ganchos melódicos cantaroláveis. Isso faz com que o ouvinte sempre esteja interessado nas reviravoltas dos arranjos e no que eles têm a dizer. E monotonia é uma palavra que nem parece estar no dicionário desses três: o álbum é inquieto e sempre encontra formas de surpreender e rotacionar ideias, de forma que nunca nos pegamos distraídos na audição. Mesmo definindo um ponto central para trabalhar, Williams consegue explorar a diversidade de ideias e um senso de inovação e originalidade que faz com que tenhamos momentos jamais ouvidos na discografia do trio.

A produção também consegue organizar bem as participações, de forma que todos cooperem positivamente e, realmente, nenhum artista convidado parece mal alocado. Essa organização me lembrou um pouco do bom trabalho de produtores como Calvin Harris e Kaytranada em seus últimos álbuns, que também conseguiram trazer vários nomes e alcançar um resultado satisfatório. Assim como os produtores das décadas passadas que costumavam contratar artistas para cantarem e tocarem em seus discos, Pharrell conseguiu total controle artístico do produto final, sendo que as referências e personalidades dos convidados dialogam bem com os três membros principais do N.E.R.D.

Dá para dizer que trata-se de um álbum de hip-hop majoritariamente, mas com abertura para outros estilos. Tentar definir o álbum precisamente é um problema, já que o objetivo da banda sempre foi brincar com eles e não subjugar-se aos mesmos. Este é o fator que mais destaca o N.E.R.D: eles não são nada e por isso podem ser o que quiserem. Mas, de fato, é o mais focado no rap da carreira, inclusive com aquelas batidas profundas que parecem beats de trap por todo lado. Sete anos depois, esse álbum soa como um belíssimo presente para os fãs que aguardaram ansiosamente e é sem dúvidas um dos mais curiosos e interessantes desse quase finalizado 2017. Não deixe o ano acabar sem ouvir esses caras.

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Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante.

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