Paloma Faith – The Architect (2017)

Um hinário inglês que deixa até 007 rendido

Por Eder Albergoni

Com o vácuo causado pela morte de Amy Winehouse, várias cantoras se arriscaram na onda do soul, neo-soul e vintage. Casos de Adele, Duffy e até Joss Stone. Inclinadas mais ao pop, outras ainda alternativas e rockers, de Kate Nash a Emili Sandé, passando por Jessie Ware e Lily Allen, também tiveram seu espaço. Todas alcançaram algum destaque na entressafra de gerações. Porém, a que mais ousou e conseguiu imprimir características próprias foi Paloma Faith.

The Architect é o quarto álbum da carreira da cantora e compositora de Hackney, no norte de Londres. Se nos três primeiros discos havia uma direção segura, em The Architect ela atira pra todo lado. Utiliza a experiência da recém maternidade, aliada às questões políticas e humanitárias e cria, por si mesma, referências que a permitam enxergar e fazer música de um jeito diferente do que fazia.

Todas as características de Paloma ainda estão lá. O vocal com timbres variantes, do agudo ao grave de uma palavra a outra, os arranjos orquestrados e coros, uma relevância pop feita para o rádio e para execuções festivas, tudo com um frescor irresistível, mesmo que recorra a soluções já encontradas por outras artistas como, por exemplo, a quantidade de produtores e parceiros de composição.

The Architect abre com um texto lido por Samuel L. Jackson. “Still Around” é uma parceria com Tobias Jesso Jr., o queridinho de 9 entre 10 cantoras. A quase inocente, mas épica, “I’ll Be Gentle”, tem participação especialíssima de John Legend. O acerto de Paloma é se manter constante e eficiente, nada é nota dez, mas o disco é cheio de emoção e personalidade. Exemplo são “Crybaby”, uma balada dançante com elementos eletrônicos, mas muito suaves, fazem a faixa entrar redondinha no ouvido, criando uma ótima sensação de conforto, e “Till I’m Done”, que além de criar os mesmos efeitos, tem um maravilhoso swing no baixo e nos riffs de guitarra.

“Guilty” e “Lost and Lonely” trazem o clima do soul clássico e vintage. “Kings and Queens” é do tipo que cairia muito bem na voz de Taylor Swift, mas Paloma doma o pop com um refrão chiclete de tão grudento, e nem soa estranho. Por fim, “The Architect” é a conexão central do disco, é a síntese de todo um novo movimento na carreira da cantora. Resultado da soma de três bons discos, que coerentemente alcança agora um patamar acima.

O arquiteto do título é como se fosse um espectro criador, alguém que nunca cede e sobrevive apesar de. A rendição é um tema constante no álbum. Então, enquanto todo o resto do disco é desenhado para a rendição até mesmo do mais durão dos 007, Paloma constrói sua obra fundamental ignorando vilões e fantasmas de artistas passados, criando uma casa à prova de qualquer catástrofe proveniente de um tsunami ou de uma marolinha.

Eder Albergoni Autor

4º elemento, 10º homem (sempre do contra), pinkfloydiano e adepto do meteorismo. Cresceu ouvindo e herdou os LPs do tio. Às vezes suas resenhas parecem crônicas. Às vezes, contos. Às vezes parece resenha também.

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