Eminem – Revival (2017)

Rapper está de volta com o álbum mais pop da carreira

Por Gabriel Sacramento

Quatro anos depois de Marshall Mathers LP 2, o rapper Eminem chama mais uma vez a atenção do mundo para si. Ele que já fez isso várias vezes por causa das polêmicas, controvérsias e do espírito rebelde e contestador do começo da carreira, agora está mais maduro, com quase 50 anos de idade, longe das drogas e com uma visão de mundo diferente. E sua música naturalmente reflete essa mudança.

Dessa vez, a participação do mentor Dr. Dre foi reduzida somente à parte administrativa e financeira do processo e a produção artística contou com nomes como Rick Rubin – colaborando pela segunda vez com o rapper -, Alex da Kid, Skylar Grey, entre outros. O álbum conta com a participação de muitos nomes famosíssimos do pop mundial, como Beyoncé, Kehlani, Ed Sheeran, Alicia Keys e Pink – mais artistas pop que rappers, o que desapontou alguns fãs. O álbum é bem longo, como todos os outros do rapper de Detroit, com 19 faixas.

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Os produtores do álbum trazem uma abordagem definida e bem segmentada. Isso faz com que seja possível dividí-lo em várias partes, como se fossem vários EPs dentro do álbum completo. No entanto, não há necessariamente um problema de identidade, já que o principal objetivo fica bem claro. Temos as faixas de bases simples, com foco no rapping e no poder de escrita, como “Believe”, “Chloraseptic” e “Offended” – um dos pontos altos, com aquele flow super veloz que lembra “Rap God” do álbum anterior; faixas mais pop que abusam dos colaboradores, como “River”, “Like Home”, “Nowhere Fast” e “Need Me”; e faixas que tentam mesclar os dois direcionamentos, como “In Your Head” e “Castle”.

Os momentos mais hip-hop do álbum acertam, pois focam na capacidade do rapper de cativar o ouvinte pelo seu flow e suas letras. Ele é muito bom fazendo isso e hoje, mais de 20 anos depois de seu surgimento, não restam dúvidas. Já os momentos pop são os mais burocráticos, pois soam como canções genéricas com participação do Eminem e não canções suas de fato. Os pontos focais desses momentos são as melodias, que não são tão marcantes assim e os artistas que participam parecem caricaturados, reduzidos ao que dita a fórmula, sem nenhum desenvolvimento adequado. Até a Alicia Keys, que fez um ótimo disco recentemente, um show memorável no Rock in Rio 2017 e está no auge da carreira, colabora com algo terrível, sem sal e sem vida, que nem parece algo dela mesmo. Ou seja, as participações, além de tirarem o brilho do álbum, ofuscam os próprios convidados.

Alguns momentos merecem destaque especial. Rick Rubin produziu sozinho as faixas “Heat” e “Remind Me”, que possuem samples de rock e que funcionam bem, estabelecendo um bom diálogo entre os dois estilos. Ponto também para a mixagem dessas faixas, que estabelece boas doses de energia e impacto. Inclusive, “Remind Me” usa sample de “I Love Rock’n’Roll”, hino dos anos 80. Outro bom momento do álbum é faixa que fecha, “Arose”, com um conflito saudável de ideias no arranjo: vocal melódico em contraponto com o rap e uma batida percussiva em contraste com um piano melancólico.

Nas letras do álbum, no geral, Eminem expressa uma variedade de sentimentos sem uma noção de uniformidade. Se na séria “Bad Husband”, ele pede desculpa a sua ex-esposa – que já foi tema de muitas das suas músicas polêmicas – e em “In Your Head”, ele parece refletir sobre algumas letras e atitudes de outros verões, em “Offended”, ele demonstra não se sentir mal por todos que ofendeu ao longo dos anos. Já em “Untouchable”, Em aproveita para expor sua insatisfação com relação aos Estados Unidos com o Trump no poder. A letra foca na condição dos negros, sob o ponto de vista dele como um branco em uma parte da faixa e da comunidade negra em outra. Nessa, temos uma boa demonstração de como ele continua escrevendo muito bem e sabendo como contar histórias com letras fortes e políticas. Ele também se mostra preocupado com sua filha em “Castle” e falando em um tom humilde, reconhecendo suas falhas como humano em “Walk on Water”.

Musicalmente, Revival é muito mais pop que os anteriores – dá para dizer que é o mais pop da carreira -, mas não foge demais ao que o rapper já tinha apresentado nos últimos anos, só aumenta a dosagem. Até mesmo nos momentos mais interessantes, nada soa muito diferente do estilo típico do americano que já ouvimos tantas vezes ao longo desses nove álbuns de estúdio. O rapper diz estar antenado com o que está rolando, ouvindo J. Cole, Lamar, Travis Scott, mas sua música não acompanha diretamente a evolução do hip-hop e ainda possui muito daquele feel do passado, com um olhar muito respeitoso para o estilo pessoal que desenvolveu.

Outra coisa que não é novidade é o fato do álbum perder força no meio. Como ele sempre fez álbuns longos, eles acabam inevitavelmente caindo nessa armadilha da monotonia, embora o rapper tenha conseguido contornar isso em alguns como os excelentes The Eminem Show (2002), Marshall Mathers LP (2000) e Marshall Mathers LP 2 (2013). Mesmo sendo um tanto diversificado, igual o anterior, Revival perde força justamente por apostar tanto em um som pop fraquíssimo e fortemente diluído e em outras ideias, que mesmo boas, não são surpreendentes. E para quem queria saber: o título não se refere à volta do estilão Slim Shady de escrever, nem ao tom humorístico e fortemente sarcástico dos primeiros lançamentos, aliás, não há nenhum tipo de revival significativo, só mesmo um artista olhando para frente, com pretensões comerciais cada vez maiores. Talvez a rebeldia juvenil e a mágoa por causa da infância difícil tenham sido superados e por isso a agressividade tão marcante de tempos atrás não esteja aqui, mas além disso tudo, falta consistência, segurança e aquele aspecto básico que faz qualquer álbum ser considerado bom: uma sequência regular de boas canções.

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Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante.

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