Magnólia – Magnólia (2017)

Existe vida inteligente no rock independente brasileiro

Por Gabriel Sacramento

Entropia é um conceito da física para caracterizar o nível de desordem de sistemas isolados. É um conceito associado à famosa segunda lei da termodinâmica – uma das mais implacáveis da natureza – que enuncia que os sistemas tendem ao caos, ou seja, existe uma tendência ao incremento de entropia. Na música, a sensação de entropia pode ser alcançada de diversas formas e o uso devido do conceito como uma bússola para a criação de arranjos enriquece a expressão artística e aumenta as possibilidades de rompimento com o comum.

Hoje vamos falar da Magnólia. Imagine uma versão brasileira de algo como o Emarosa, Nothing But Thieves, Frank Carter & The Rattlesnakes e aquilo que os americanos chamam de post-hardcore – que é basicamente a versão mais extrema do punk rock com mais abertura para melodias e melancolia. Misture isso com o som e a veia de bandas brazucas como o Glória, Ponto Nulo no Céu e Aurora Rules e terás uma ideia do som da Magnólia. A diferença é que o som destes catarinenses transcende a noção perfeita e delimitada de gênero e foca na confecção de generosidades convidativas em formas de sons. O segundo álbum da turma já está entre nós, ganhou o próprio nome da banda e foi produzido pelo Rafael Pfleger no estúdio Pimenta do Reino em Santa Catarina.

zanelli de amorim caldas
Zanelli de Amorim Caldas

E a ideia de entropia está impregnada no jeito de pensar deles. Primeiro porque eles focam em construir caos sonoro, mas não um caos permanente e sim, um que gradua lentamente até o momento de explosão. O refrão de “Entropia” é caótico no ponto de vista instrumental, mas melódico e evoca uma espécie de reflexão no ouvinte. “Encruzilhada” também é bem legal, com umas sacadas inteligentes no arranjo para evitar a mesmice. “Introversão” segue na mesma pegada, mas traz uma surpresa no arranjo em um momento de alívio, de pausa dramática, que deixa o ouvinte ansioso para a volta do instrumental com tudo. “Libertà” lembra mais as bandas gritadas e possui um arranjo que recicla bem os mesmos elementos, mas especialmente misturando ingredientes orquestrais com o caos guitarreiro – que lembra o Red – e com uma modulação tonal super efetiva no final. Essa faixa é a própria definição de entropia sonora.

A produção do álbum novo consegue contrapor as guitarras e os riffs pesados com as melodias dos vocais, explorando muito bem a noção de dinâmica das faixas. Seguem bem a proposta do post-hardcore de equilibrar diferentes nuances, mas sem soar formulaico ou esgotar as forças em convencer o ouvinte que se trata de álbum desse estilo. Além dos dois extremos, temos vários tons de cinza no meio que são explorados e desenvolvidos e a forma como a produção administra os momentos de tensão intermediários é decisiva para que compremos a proposta e possamos captar a força desses extremos. A mix sobrepõe distorção para criar peso e preenchimento, mas também respeita os momentos limpos. A bateria em alguns momentos é bem difícil de ouvir, mas isso só reforça o aspecto da desordem, da claustrofobia, que gera uma sensação de incômodo devidamente proposital. Outro destaque: o som não é genérico, não há uma necessidade de soar como os americanos ou como os brasileiros já estabelecidos com esse tipo de som.

O vocalista Fê Machado é instrumental para o aspecto emocional das faixas, no entanto, sua performance é bem dosada e não deixa que o álbum caia no exagero. Lembrou bastante as nuances do vocalista do Emarosa, só que com menos entrega e contrição. O guitarrista Beto constrói um sustentáculo fundamental para as bases e o Rick no baixo consegue encontrar espaços inacreditáveis para frases e fills que colorem ainda mais a cozinha. O baterista JC também está muito bem, acrescentando precisão rítmica e pegada aos arranjos.

Com esse álbum, os catarinenses reforçam que existe, sim, vida inteligente no cenário do rock independente brasileiro.

Gabriel Schlickmann R. Cardosol
Gabriel Schlickmann R. Cardosol

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante.

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