Loreen – Ride (2017)

Uma abordagem peculiar do pop que vale a audição

Por Gabriel Sacramento

Depois de vencer o Eurovision Song Contest, tradicionalíssimo festival de música europeu, a cantora sueca Loreen cedeu ao mais fácil e entregou um primeiro álbum de eurodance e pop. Obviamente, o disco fez bastante dinheiro, ganhou platina e consolidou a parceria com a Warner Music. Heal (2012) é relativamente bom, no entanto, é genérico, parece mais algo para cumprir contrato e sua fórmula perde força fácil. No entanto, felizmente, ela acabou assinando com a BMG e indo por um caminho diferente em sua música: canções mais midtempo e menos comerciais.

O primeiro lançamento a marcar essa nova fase foi o EP Nude deste ano, que junto com os singles novos, desagradou alguns fãs que esperavam mais do pop dançante de Heal. Agora ela surge com um álbum inteiro, de nove faixas, produzido por Fredrik Sonefors, Samuel Starck e o duo Cazzete e que demorou basicamente três anos para ser finalizado, chamado Ride.

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E se o primeiro álbum soava como algo genérico e que demonstrava o quanto de interferência houve no projeto, Ride soa exatamente como a Loreen quer que soe – o disco é a cara dela. A equipe de produtores aplica uma abordagem intimista que valoriza bastante a cantora, sua voz e interpretações, enquanto utiliza a instrumentação como um pretexto para criar ambientações espaciais e esvoaçantes. O intimismo é perceptível facilmente na forma como a voz da Loreen soa bem próxima de nós, o que sugere um cuidado na captação dessa voz, mas também na mixagem, com a voz bem maior em termos de amplitude do que os outros instrumentos. A produção também enfatiza melancolia e um certo apelo pop, que faz com que percebamos que se trata, sim, de um álbum pop, afinal.

“‘71 Charger” foi o primeiro single e abre o álbum com um quê de soul music, que com certeza não foi proposital. Já percebemos como tudo soa bem abafado, com muito reverb, mas, sobretudo, muito pop. O refrão é muito bom, diga-se de passagem. “Dreams” parece, em termos de som, algo produzido pelo Danger Mouse e impressiona pelo nível de abafamento e distanciamento dos vocais. A música é sobre sonhos e a atmosfera é devidamente pesada e onírica. “Jupiter Drive” resgata elementos dos anos 80, como o timbre de bateria típico do Phil Collins, utilizando a sua famigerada técnica de gated reverb. A faixa-título faz o álbum soar um pouco mais roqueiro, mas não no sentido guitarreiro da palavra, pois conta com uma guitarra limpa e despretensiosamente dedilhada e uma bateria que ganha mais destaque na mix. O grande single do álbum no entanto é “I Hate the Way I Love You”, que começa como se a Loreen estivesse escrevendo um diário e registrando ali, sem um por cento de receio, seus sentimentos mais íntimos e escusos. Lá pelo final, o arranjo permite que ouçamos a cantora rasgar o coração em uma interpretação apaixonada e apaixonante e uma explosão de sensações: inconformismo, amor, carência, frieza e paixão.

A mixagem de Ride é muito estilosa. Os vocais da cantora ganham diferentes tipos de ambientação, ficando cada vez mais distante com o passar do tempo e com um tratamento especialmente dinâmico que se adapta às diferentes nuances. Mesmo com toda a preocupação com o clima, temos a bateria soando abafada, mas com uma equalização precisa que permite que o ouvinte compreenda perfeitamente o que está sendo tocado. O baixo também soa interessante, roubando a cena em alguns momentos com graves profundos. A mix também consegue fazer orquestrações surgirem e desaparecerem de uma forma tão sensivelmente incrível, que às vezes não temos plena certeza se realmente é uma orquestração ou simplesmente altos níveis de reverb e ruído preenchendo. Isso também impede o álbum de cair para algo mais teatral ou erudito, mesmo com muito uso dessas orquestrações. Se na crítica do mais recente do Dhani Harrison, eu falei sobre o seu design de som inesquecível e o uso poético do reverb, isso se aplica ao novo da Loreen também. O álbum todo parece algo que o filho do George poderia ter feito e eu imagino que uma possível parceria entre os dois seria bem interessante.

 
Ride demonstra um domínio incrível da personalidade da Loreen e suas preferências por parte dos produtores do álbum e escancara as peculiaridades da cantora na forma como ela enxerga o pop. Em alguns momentos, inclusive, as semelhanças com a Björk não são meras coincidências, mas fazem todo sentido dada a influência que a islandesa – e a falta de ortodoxia na sua concepção de música – tem na europa. Se Nude apontava um caminho que parecia ser o futuro da carreira dela, o novo álbum confirma isso e assume suas esquisitices sem medo, se orgulhando delas, mesmo com uma sensibilidade pop muito boa que garante que as faixas sejam memoráveis por seus ganchos. Poucas vezes o pop soou tão singular. Ouça o quanto antes e se perca na elevada altitude.

Thomas Niedermueller
Thomas Niedermueller

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante.

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