Björk – Utopia (2017)

Björk cria seu próprio jardim das ninfas para reavivar o amor e o sexo em mais um álbum experimental

Por Lucas Scaliza

Já sabemos que a Björk pode fazer música convencional, mas há algum tempo não é isso que ela quer fazer. Seu estilo já rompeu a barreira do pop e do eletrônico, chegou à fronteira do erudito e agora, mais do que nunca, é difícil não defini-la como experimental, ou vanguarda, a frente de qualquer outra categorização possível. Sua voz continua tão característica quando há 20 anos, e seu jeito de criar melodias é cada vez mais particular e livre. Desde Biophilia (2011), está tão conceitual que nega qualquer apelo pop comercial. Seu comprometimento com aspectos biológicos, tecnológicos, espirituais e com seus próprios sentimentos está acima de qualquer regra de mercado.

Em Vulnicura (2015), Björk se abriu de forma corajosa, dolorosa e crua sobre o fim de seu relacionamento. Cada música retratava uma parte dessa história, desde os últimos suspiros do relacionamento, até a inevitável morte, o período de luto e então o “renascimento” da cantora e compositora islandesa para a vida. A turnê de Vulnicura foi interrompida quase abruptamente porque o instinto criador da cantora falou mais alto. Ela tinha que escrever músicas novas sobre sua nova fase. Não fazia mais sentido insistir naquela narrativa que, apesar de ter gerado um disco tão belo e difícil, já estava superada.

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Utopia é o reavivamento amoroso, sexual e espiritual de Björk, mas dessa vez ela não o faz com a humanidade do anterior. Para simbolizar tudo isso da maneira mais lúdica possível, criou uma alter-ego misto de fantasia, ficção científica e cosmologia. Uma fada flautista de outro planeta em seu próprio Éden. Uma nova narrativa portanto, com uma estética muito própria que satisfaz o gosto pelo mágico, não convencional e até pelo bizarro que a cantora sempre demonstrou ter em seus clipes, figurinos e performances ao vivo.

A difícil tarefa de expressão sonora ficou novamente com Arca, o venezuelano radicado em Londres que já tinha cumprido o papel de produtor da islandesa em Vulnicura ao lado de Haxan Cloak. Quando “The Gate” foi apresentada, a primeira faixa de Utopia, o clima geral da produção era muito próximo ao de Vulnicura, chamando a atenção para a falta de variação estética de Arca. Pairou no ar a impressão de que mais do mesmo poderia vir por aí. Felizmente a ternura de “Blissing Me” veio nos mostrar que não, que o produtor era totalmente capaz de se integrar ao universo de Björk e criar novos sons. E Utopia no geral é como um Éden mesmo, cheio de arranjos de flautas, de orquestrações sintetizadas, vocais um tanto litúrgicos (“The Gate”, “Body Memory”) e de batidas poderosas, caóticas e industriais. E de vez em quando, sons de animais de outro mundo surgem na mixagem, sempre reiterando que estamos ouvindo Björk em seu próprio jardim das ninfas.

A forma musical escolhida por Björk e Arca às vezes faz o ouvinte perder a noção de tempo, de compassos musicais. Há faixas em que o canto é tão particular, feito para expressar a letra, que fica a impressão de Arca ter criado um acompanhamento especial para aquela seção, correndo atrás de Björk literalmente, como ocorre nos versos de “Claimstaker” e “Future Forever”. Já uma música como “Courtship” embaralha nossa cabeça pois parece que voz, sopros e percussão seguem métricas distintas. Foi necessário que eu prestasse muita atenção para não me deixar enganar – ou ser levado – em faixas ternas como “Blissing Me” e “Saint”. A primeira é um 4/4 convencional, mas a dinâmica da harpa na base da música facilmente pode confundir sua percepção. Já “Saint” tem acentuações graves no primeiro tempo, mas após o refrão essa acentuação cessa e os arranjos de flauta ficam mais altos, em contraponto com a voz, e então ficamos sem a noção temporal mais uma vez. Mas continue firme batendo o pé para ver que ela também é 4/4. Ou seja, ela dá um jeito de fazer até o andamento mais comum da música parecer complexo usando técnicas bastante simples.

Björk sempre teve um jeito de escrever letras bastante diretas, mas se mesmo assim ela te pareceu difícil, Vulnicura e Utopia são dois poços de sentimentos crus. Ela diz o que tem que ser dito sem muitos floreios. Ela fala sobre a batalha jurídica com o ex-marido, o artista plástico Matthew Barney, pela guarda da filha Isadora, fala sobre se apaixonar enquanto troca MP3s, sobre como uma perda pode ser definitiva para formar quem somos, e não deixa de colocar amor e sexo sobre a mesa, de forma muito pessoal, como há 20 anos em Homogeniac (1997). Aliás, ela própria diz que “Loss” é uma espécie de continuação de “Pagan Poetry”, assim como “Body Memory” é a resposta para “Black Lake”, do álbum anterior. As conexões não param por aí: “Future Forever” sampleia “All Is Full of Love” discretamente. Samples de “Quicksand” e “Jòga” também estão na mix, mas nada que salte aos ouvidos.

Utopia é mais transcendental do que nunca, mais etéreo do que qualquer outro disco que ela já tenha feito, e muito menos preso ao formato canção. A primeira faixa, “Arisen My Senses”, é uma das melhores do álbum e, como uma celebração desse estado de abertura para o amor e para o sexo, espalhando pólen e feromônios para todos os lados, funciona como uma música que congrega todo o estilo de Björk e Arca, com batidas pesadas, vocais e vocalizações sobrepostos, e uma temperatura mais alta do que encontramos em seus dois trabalhos anteriores. Cabe dizer que Björk continua exercendo o papel que tomou para si na música, e não está um decibel que seja mais fácil de ser ouvida. Utopia, como lugar, é uma ficção. Utopia, como álbum e narrativa, é um estado de espírito, afinal.

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Lucas Scaliza Autor

Jornalista e ariano, joga truco e tarô. Nunca teve amnésia alcoólica. Tem vários discos mas não tem vitrola. É host do Escuta Essa Podcast e ouve tanta música tão alto que é capaz de ficar surdo um dia.

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