Tim Bernardes – Recomeçar (2017)

“Recomeçar” é sobre tudo ter jeito, não importa quantos são os finais

Por Eder Albergoni

Em 1969, Roberto Carlos definitivamente dava um passo à frente. Depois de superar a Jovem Guarda com Em Ritmo de Aventura (1967) e O Inimitável (1968), o Rei alçava voo sobre um precipício muito pouco comum, mas já ensaiado antes. O disco de 1969 é a praia deserta no dia mais chuvoso de Roberto Carlos.

Em 1971, Graham Nash, depois dos dois discos lançados junto a Crosby, Stills e Young, elevava seu folk a um patamar além da simplicidade interiorana de paisagens bucólicas. Seu primeiro disco solo, Songs For Beginners, é um chamado emocional em uma tarde ensolarada na São Francisco pós Libertação Gay.

Em 2012, Tim Bernardes estabeleceu com O Terno uma carreira sempre em crescimento. Mais dois discos d’O Terno depois, ele lança, sem a banda, Recomeçar. Assim como Roberto em 1969, Tim dá um passo à frente, rumo a experimentações que talvez não tivessem sentido se feitas com a banda. Essas experimentações, escolha de instrumentos e arranjos, são tão somente a visão pessoal abordada no tema central, que percorre todo o disco, trazendo à tona e espelhando o comportamento e a dinâmica desses nossos dias de extremos fervorosos.

Tim honra o que lhe é atribuído como referência. Do pai Maurício Pereira, passando por toda vanguarda paulistana, até alcançar o rockinho do pessoal de 66. E ainda remonta a estética impregnada no visual exibido ao longo da carreira. Mas assim como Nash em 1971, Tim responde a tudo isso com um chamado emocional e otimista disfarçado de melancolia e desconfiança. “Tanto Faz”, por exemplo, fala de polaridade e manipulação ao mesmo tempo em que veste a reflexão sugerida.

A sequência “Ela Não Vai Mais Voltar”, “Pouco a Pouco” e “Não” reforça a autorreflexão e traz versos tão didaticamente diretos que a gente também sente a dor, muito embora a dor seja revestida de empatia. É aí que o disco atinge o ápice. Como se fosse um vinil e você agora decidisse mudar ou não do Lado A pro Lado B. Do mesmo jeito que Roberto Carlos e Graham Nash também propõem esse exercício em seus discos.

Seguindo, você acompanha Tim editando o capítulo dos nossos dias. O que se especulava só emocional vai transbordando às reações. E a gente passa a ser uma espécie de emplasto nos cortes que Tim expõe. Às vezes mais fundos, outras vezes mais rasos, servimos também como cúmplices de sua ação. Porque assim como 1969 e 1971, a história se desenvolve no nosso dia-a-dia de forma rotineira e converge no estranhamento que se equilibra entre opostos e desafetos. Esmiuçando nossas manias e nossos ócios, Tim coloca de vez seu nome na cabeça da lista dos melhores compositores da geração. Eis, enfim, o disco certo para toda a juventude.

Eder Albergoni Autor

4º elemento, 10º homem (sempre do contra), pinkfloydiano e adepto do meteorismo. Cresceu ouvindo e herdou os LPs do tio. Às vezes suas resenhas parecem crônicas. Às vezes, contos. Às vezes parece resenha também.

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