Marilyn Manson – Heaven Upside Down (2017)

Em tempos de ameaça e incertezas, o novo bicho-papão não está debaixo da cama. Está liderando a nação

Por Lucas Scaliza

Nada como ter um presidente belicoso, agressivo, impulsivo, conservador e até meio destemperado como Donald Trump para fazer um libertário como Marilyn Manson produzir um excelente disco de rock, voltando à forma contestadora de seus discos dos anos 90 sem perder o balanço blues de The Pale Emperor (2015).

Heaven Upside Down é nervoso do começo ao fim e surpreendentemente ganha fôlego da metade para a frente, entregando faixas irrepreensíveis, catárticas e lotadas de guitarras pesadas. O próprio Manson não economiza no vocal dessa vez, soltando os berros sempre que possível em quase todas as faixas e refrãos. É libertador gritar com ele JE-SUS-CRI-SIS em “Jesus Crisis”, desde já uma das melhores faixas que o americano já entregou ao mundo. Aliás, ele continua craque com os trocadilhos que são marca de suas composições.

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O mundo continua errado, a sociedade americana continua hipócrita e temos um desejo de manter as coisas assim maior do que a capacidade de arrumar a nossa bagunça. Com um governante como Trump no comando da porra toda, fica ainda mais fácil para Manson destilar seu veneno. Ou melhor, o “nosso” veneno, que escorre para o campo social e que vira a matéria-prima para todos os seus temas e críticas. Embora a faixa “Saturnalia” – uma volta e tanto aos tempos de Mechanical Animals (1998) – seja sobre a morte de seu pai durante a gravação do álbum, todo o restante de Heaven Upside Down tem contexto político.

“Revelation 12”, “Say10”, “You Know Where You Fucking Live”, “Blood Honey” são todas faixas poderosíssimas e que, de uma forma ou de outra, trafegam entre o poder de fogo de Antichrist Superstar (1996) e uma maturidade mais roqueira de Holy Wood (2000). O lado industrial continua presente (principalmente em “Tattoed In Reverse”, mais uma volta ao disco de 98) e garantindo que Heaven Upside Down seja até um pouco dançante, caso a festa seja num clube sujo, escuro e lotado de gente esquisita com roupas de bondage e SM. A libidinosa “Threats Of Romance” poderia até ser trilha de um vampírico strip tease. Já faixas como “Heaven Upside Down” e “Kill4Me” trazem uma influência de blues rock mais direto e divertido.

Se The Pale Emperor se beneficiou do clima estrada-interior-dos-EUA proporcionado pela atuação de Manson no seriado Sons Of Anarchy, a cinematografia continua influenciando sua música. O novo disco foi feito em meio às gravações do seriado Salem, mais um em que o cantor participa atualmente. Parte das músicas foi gravadas na Louisiana, mesmo Estado em que Antichrist Superstar foi concebido.

O disco é enxuto (47 minutos) e direto (10 faixas), feito por uma banda bastante consistente. Manson nos vocais e na produção, Tyler Bates na guitarra, teclados e produção (ele inclusive faz a trilha sonora para Salem), Twiggy Ramirez no baixo e Gil Sharone na bateria. Sem participações especiais, sem músicos extras. É Marilyn Manson com todo o seu potencial e confiando nos recursos que tem.

Mesmo sendo um ano cheio de músicas políticas, fica o gosto de quero mais. The Pale Emperor mostrou que a banda podia inovar e sair dos trabalhos apenas medianos em que estava metida. Heaven Upside Down não choca a sociedade, não tem personagem para Brian Hugh Warner vestir e não terá livros sagrados sendo rasgados no palco, mas traz de volta a carga de inconformismo quando tudo aquilo era parte da receita estranha da banda. Neste tempo de tensão social, guerras cibernéticas e incertezas, um disco para se ouvir sem medo do bicho-papão debaixo da cama, mas com um olho nos líderes que escolhemos.

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Lucas Scaliza Autor

Jornalista e ariano, joga truco e tarô. Nunca teve amnésia alcoólica. Tem vários discos mas não tem vitrola. É host do Escuta Essa Podcast e ouve tanta música tão alto que é capaz de ficar surdo um dia.

Comentários

    Tonga

    (28 de setembro de 2017 - 21:20)

    Chato e infantil como sempre.

    luizadosanjos

    (29 de setembro de 2017 - 16:18)

    Estou disponibilizando a discografia completa do Marilyn Manson no meu site

    Flávio Augusto

    (8 de outubro de 2017 - 12:20)

    Fiquei agradavelmente surpreso com este novo álbum. Um dos melhores da carreira sem qualquer dúvida!

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