Gorillaz – Humanz (2017)

A playlist do fim do mundo é divertida e alucinante, mas os versos são cinicamente amargos, mais uma vez

Por Lucas Scaliza

2-D, o vocalista com olhos vazados. Murdoc Niccals, um baixista com ligações ao oculto. Noodle, a guitarrista japonesa que faz playlist de empoderamento feminino. Russel Hobbs, o baterista americano que às vezes é possuído por algum entidade ou espírito. Eles são a cara da banda virtual Gorillaz, que chegaram à fase quatro de sua existência com Humanz, um disco que tenta capturar mais uma vez o zeitgeist e mostrar o poder da ficção de escancarar o que está bem debaixo do nosso nariz com a maestria de Damon Albarn em coordenar músicos do rock, do pop, do hip hop, do reggae e da música eletrônica e com toda a inventividade de Jamie Hewlett por trás da forte iconografia da marca Gorillaz, que não é apenas uma banda, mas uma grande empresa que passa por diferentes mídias para realmente ser o que é.

“Ascension”, com Vince Staples, inicia a festa do fim do mundo. Na confusão, libido, o fácil acesso a armas e drogas, questões raciais e de desigualdade social. Como já é praxe, questões sérias tomam a forma de uma música frívola, em uma situação descabeçada para retratar o que é não apenas os EUA, mas principalmente os EUA. Afinal, Humanz começou a ser feito antes da corrida presidencial americana de 2016, mas Damon Albarn já pensava em contar essa nova história como se Donald Trump fosse presidente.

“Strobelite”, com Peven Everett, mantém a festa em andamento e denuncia a alienação do prazer. Enquanto tudo vai pelos ares, continuamos vivendo pela strobe light da balada.

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“Saturnz Barz”, com o DJ de reggae jamaicano Popcaan é uma das faixas que melhor define o que é o Gorillaz. Uma das mais originais apostas do álbum, com um parceiro que está galgando espaço no reggae jamaicano e consegue se encaixar tão bem no dancehall e no pop do grupo, estilhaçando as fronteiras dos gêneros musicais. Na letra, Popcaan canta da perspectiva de um indivíduo (ele próprio) que foi criado pela avó, tinha que andar mais de 4 quilômetros até a escola, mas fez uma carreira na música e foi viver o sonho americano, o sonho de possuir “casa, carros e motos”. E quando 2-D canta, deixa claro os problemas financeiros em que se encontra em decorrência do jogo, virando inclusive uma pessoa de mal caráter (debaser) por isso. E o clipe, todo animado em 360º, é um dos marcos não só para o Gorillaz, mas para os clipes musicais do ano.

Ao que me parece, Kelela empresta sua belíssima voz à Terra em “Submission”, para que fale conosco, da forma mais doce que consegue, como está sendo sugada ao ponto de ser impossível manter a humanidade neste pedacinho do mundo. Mas os versos de Danny Brown, claramente falando sobre seu problema com drogas, me fazem pensar que pode ser uma faixa sobre algo diferente, com Kelela chamando a atenção para situações humanas que podem ser pensadas como becos sem saída.

O mundo não pode acabar sem que algumas almas sejam levadas daqui. A pop “Andromeda” (com D.R.A.M, um cara ascendente no R&B) lida com a morte, citando Bobby Womack, que contribuiu com o single incrível de “Stylo” de Plastic Beach (2010) e da morte de Ethel, mãe de sua companheira. No meio disso tudo, ele lembra da Andromeda, uma boate em Essex onde se tocava soul music e um lugar para onde se podia ir e curtir de verdade, deixando porta afora os problemas da vida.

“Busted and Blue”, uma das melhores do álbum, sem participação especial (Ok, tem backing vocals da Kelela), totalmente cantada por 2-D, é, para mim, o ponto de virada mais expressivo de Humanz. A produção reproduz com competência a contemplação espacial de 2-D refletindo sobre a origem do mundo e a forma como todos viraram antenas com a internet. Até “Andromeda”, tudo o que ouvimos tem uma forma leviana, alegremente chapada e cínica, considerando que todas as situações ocorrem a beira do precipício. A partir de “Busted and Blue”, as músicas se tornam mais lúgubres e sombrias.

Não apenas a faixa é mais pesada, mas “Carnival” traz Anthony Hamilton colocando Humanz no contexto do apocalipse de vez. “Oh, não vi a glória/ Chegando pra valer / E jogamos / Jogamos, jogamos, jogamos como se fosse carnaval / Jogo, risada, piada / Rodopiando como se fosse carnaval”. A cantora gospel americana Mavis Staples e o rapper Pusha T aprofundam o buraco na dark “Let Me Out”, subvertendo o significado de mudança, que se uma vez era uma palavra usada para nos levar a algo melhor, neste mundo (ou nestes EUA) governado por um agente do Juízo Final, é uma palavra que exala preocupação. “A mudança está vindo/ Melhor estar preparado pra ela”, canta Mavis, ao que 2-D responde: “Algo que comecei a temer está prestes a mudar de forma/ É, é, é, os tempos estão mudando/ Mas não vou me cansar, não”. Em seguida, “Sex, Murder and Party”.

Se as referências diretas a Obama e Trump acabaram substituídas por sons de buzinas na mix final de Humanz, pelo menos “Hallelujah Money” entrou inteira e sem cortes no álbum. Uma das músicas mais diferentes que o Gorillaz já fez, com participação do poeta e músico Benjamin Clementine, é um ataque irônico certeiro aos EUA de Trump, à política que se resume a um balcão de negócios e ao poder de quem tem mais verdinhas no cofre.

O caminhão de participações especiais são marca registrada do Gorillaz, mas enquanto tudo parecia totalmente sob controle de Damon Albarn, no campo musical, em Demon Days, em Humanz elas soam mais libertinas, mais donas de si, mais absorvidas pela banda do que geradas dentro do projeto do grupo. O lado ruim disso é que fica evidente como o Gorillaz, como banda, é uma grande ficção mal disfarçada e 2-D é nosso único ponto de contato real com os quatro virtuais. Noodle, a guitarrista, deve ter assumido de vez os sintetizadores, por além de “Charger”, as seis cordas não são definitivas em mais nenhuma outra faixa. Mas o lado bom disso é que os convidados sentem-se tão à vontade que temos performances memoráveis de quase todos eles, mas em especial de Staples, Kelela, Mavis, Clementine, Popcaan e Jehnny Beth. Eles preenchem o álbum com a alma, o cinismo e a crítica que faz do Gorillaz o fenômeno artístico que são.

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Assim como Demon Days, Humanz é uma longa e diversificada crítica ao mundo em que vivemos. Mas enquanto Demon Days escrutinava a cultura contemporânea, Humanz toma um fato real (eleição presidencial), a converte em ficção no universo do Gorillaz e empresta histórias reais de seus participantes para devolver uma obra que consegue problematizar como agimos e como escolhemos ser mesmo quando o mundo que conhecemos parece absurdo demais. E como sempre, a banda usa uma multiplicidade de linguagens para isso: vídeos, rede social, música, apps, shows, entrevistas, storytelling, marketing e o cinismo de fazer músicas com alto poder de penetração pop que, na verdade, narram a decorada de nossa vida, nossa hipocrisia, nossos descaminhos.

A única faixa verdadeiramente positiva de Humanz – e outra das minhas preferidas – é a última, “We Got The Power”. É quando o grupo afirma o poder das ações e intenções humanas, da união e da bravura para passar pelas tribulações. Jehnny Beth, da Savages, faz uma das melhores participações do álbum e o cativante refrão une pela primeira vez Damon Albarn e Noel Gallagher, já distantes da competitividade dos anos 90.

Como Saturnz Barz nos lembra, com o mundo espelhado, Gorillaz é uma banda virtual que conta histórias de pessoas do mundo real. E dessa vez, sem querer, previu como nosso mundo estaria. Só a festa do fim do mundo não foi organizada pelo Facebook ainda. Ou será que já estamos vivendo ela e nem reparemos?

Lucas Scaliza Autor

Jornalista e ariano, joga truco e tarô. Nunca teve amnésia alcoólica. Tem vários discos mas não tem vitrola. É host do Escuta Essa Podcast e ouve tanta música tão alto que é capaz de ficar surdo um dia.

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