Arca – Arca (2017)

Alejandro Ghersi faz seu disco mais musical e mais pessoal

Por Lucas Scaliza

O novo trabalho de Arca marca uma mudança importante na carreira do produtor venezuelano Alejandro Ghersi. Após a monstruosidade cinematográfica de Entrañas (2016) e da tortuosa música de Mutant (2015), Arca é seu disco mais musical, que mais confia no poder do uso de harmonia, melodia e ritmo de forma mais convencional. Enquanto nos anteriores tínhamos a impressão de que um monstro era criado e estava à solta, dessa vez parece que Arca resolveu exibir a alma melancólica de Ghersi.

Arca é também seu disco mais pessoal até agora. Pela primeira vez, é o próprio Ghersi que canta ao longo de todo o álbum. E graças a uma intervenção da amiga Björk, que o encorajou a cantar, todas as letras são em espanhol, sua língua materna. “Piel”, na superfície, pode ser estranha, mas ouvidos atentos perceberam que trata-se quase de uma canção de ninar. E no resto do álbum adentramos no estado onírico de Arca, que embora mais musical, ainda tem todos aqueles efeitos elétricos e eletrônicos e de música concreta que fazem nossa imaginação voar dentro de seus ambientes escuros e perigosos (“Saunter” e a ótima “Reverie”).

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Entrar nos sonhos de Arca é parte dessa mudança importante. Por mais ameaçador que pareça, não chega a ser o pesadelo que eram os trabalhos anteriores. Aliás, entre tudo o que o produtor já fez, Arca é sua coleção de faixas mais acessível – embora ainda não seja o exemplo mais fácil ou comercial de música eletrônica que temos. Ainda é preciso estômago para encará-lo do início ao fim.

Com exceção da masterização e da arte de capa e encarte, tudo o que ouvimos em Arca foi feito pelas mãos de Alejandro Ghersi: voz, instrumentação, composição, programações eletrônicas, batidas, produção e mixagem. O resultado é o esperado: faixas com uma personalidade forte, um tanto esquisito às vezes, e que recusam a felicidade. A presença de Ghersi é tão forte que mais do que nunca você nota quais são os sons que ele usa em Arca que também utilizou em Vulnicura, álbum que coproduziu com Björk.

Embora seu canto também não seja convencional – e nem cristalino, seja pelo timbre ou pela forma mais abafada de captação da voz –, tem uma beleza quase barroca. Em “Sin Rumbo”, Ghersi chega a cantar liricamente. “Anoche” é um poço de drama e melancolia. Em “Desafio” em murmura menos e entrega um canto e uma música que é o que mais se aproxima de uma produção comercial sob a assinatura de Arca (e aí nos surpreendemos novamente). Já em faixas como “Fugaces”, “Miel” e “Reverie” ele deixa claro que aposta suas fichas em sua faceta como vocalista, e não tanto como cantor. Outra coisa que fica evidente é a raiz venezuelana de seu canto. Um discreto sabor hispânico na forma de empregar as palavras na sequência melódica se aloja no som e faz dele algo ainda mais especial.

Apesar de qualquer surpresa que possamos ter com Arca, todas são mais advindas de uma nova postura que o artista toma do que exatamente uma mudança sonora. Ainda que suas faixas agora sejam mais musicais e não puramente ruidosas e experimentais, as trevas e a angústia que sempre rondou suas músicas continua presente. Agora com uma voz e uma sensibilidade muito mais humanas, fazendo de Arca algo mais pessoal para ele e para nós.

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Lucas Scaliza Autor

Jornalista e ariano, joga truco e tarô. Nunca teve amnésia alcoólica. Tem vários discos mas não tem vitrola. É host do Escuta Essa Podcast e ouve tanta música tão alto que é capaz de ficar surdo um dia.

Comentários

    Renato De Melo Medeiros

    (18 de setembro de 2017 - 18:16)

    Lucas, antes de Ale ghersi criar Arca o projeto musical dele se chamava Nuuro. Nesse projeto existem canções bem melódicas e até pop, românticas q vale a pena conhecer. Sugiro começa por Un paseo

    e conhecer e escutar atentamente The Red Dest Ruby

    q infelizmente sumiu integral do You Tube mas ainda tem como encontrar algumas canções.
    The Red Dest Ruby é um dos álbuns mais interessantes já feitos.

      Lucas Scaliza

      (19 de setembro de 2017 - 10:46)

      Muito obrigado pelas referências, Renato. Vou ouvir bastante e me preparar, pois tem mais Arca este ano, já que ele coproduz o novo disco da Bjork!

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