Aimee Mann – Mental Illness (2017)

As valsas mais tristes e mais acústicas de Aimee Mann

Por Lucas Scaliza

Fica claro que Aimee Mann quis simplificar um pouco as coisas, ficar mais direta, encher menos a mix de elementos. Mental Illness tem grande melancolia, como naquele belo disco que foi aproveitado pelo cineasta Paul Thomas Anderson para o filme Magnólia (1999), mas não tem aquele ar mais pop de @#%$*! Smilers (2008). Contudo, ainda traz a voz imediatamente identificável da norte-americana, sua boa mão para levadas no violão e ótimo senso para melodias que ficam entre o folk e o pop/rock.

Mann continua cantando sobre as ilusões e desilusões da vida, de forma leve, bem leve, e reflexiva, bem reflexiva. Em comparação com os outros oito discos de sua discografia, é fácil perceber que ela tem bem pouco a oferecer em termos de inventividade dentro do estilo ou vontade de fazer algo diferente. Mesmo sendo uma artista independente nos Estados Unidos e referência para muitos indies (entre público, crítica e bandas), Mental Illness soa bastante acomodado dentro da gaveta do estilo e de sua compositora. Ainda assim, o trabalho é um álbum de canções bem feitinhas e, mesmo sem inventividade, ela nunca antes havia feito um disco deste tipo, tão acústico e tão cheio de valsas.

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Parece contradição, parece ironia, mas é Aimee Mann sendo ela mesma e o que acha que deveria fazer dessa vez. Pouca ou nenhuma percussão acompanham os acordes batidos de “You Never Loved Me” e “Lies of Summer”, o padrão clássico de valsa em “Stuck In The Past” e “Philly Sinks”, os arranjos delicados de “Goose Snow Cone”, os dedilhados de “Rollercoasters” e o piano tristonho de “Poor Judge”. De 11 faixas, apenas “Simple Fix” tem mais jeitão de banda e não de cantora folk solitária. Embora funcionem no formato voz e violão (ou voz e piano, em alguns casos), todas as gravações ganharam floreios de uma orquestra (arranjada pelo produtor de longa data Paul Bryan) e vocalizações extras provindas do pessoal de sua banda de apoio e do parceiro Ted Leo, com quem a cantora formou o The Both alguns anos atrás.

“Patient Zero” soa como um rock típico de Aimee Mann, mas apresentada agora sob a roupagem acústica, com piano e orquestração completando o arranjo. É fácil perceber porque foi escolhida como principal single do álbum. Acaba sendo uma das canções menos lineares. As seguintes, “Good For Me” e “Knock It Off”, também são dessas faixas que elevam Mann a um patamar mais elevado. Mesmo que Mental Illness não seja tão aprazível para você no geral, nessas faixas você se dobra para reverenciá-la e entender o papel ainda importante que ela ocupa no folk e na música independente.

Acredito que esteja no jeito como Mann trata os problemas emocionais que canta o maior brilho do disco. O Mastodon usou seu heavy metal para criar uma metáfora fantástica para falar do câncer em Emperor Of Sand, e a finlandesa Astrid Swan colocou sua própria experiência com o câncer de mama em formato pop, folk e eletrônico em From The Bed And Beyond. Ambas as obras, lançadas em 2017, tratam com lucidez o tema, não facilitando para o ouvinte e nem para o paciente que tenha a doença e que talvez vá ouvir esses discos. O Mastodon fala da sobrevivência e Swan é sincera, nunca caindo no vitimismo. Aimee Mann também não dá falsas esperanças, nem mesmo quando sua música parece mais fofa ou solar. Isso não quer dizer que ela seja negativa – e nem que olhe o “lado bom” da questão –, mas pode te fazer refletir sobre o que a vida é. E tudo bem ela não ser perfeita.

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Lucas Scaliza Autor

Jornalista e ariano, joga truco e tarô. Nunca teve amnésia alcoólica. Tem vários discos mas não tem vitrola. É host do Escuta Essa Podcast e ouve tanta música tão alto que é capaz de ficar surdo um dia.

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