Sampha – Process (2017)

Um estudo dos detalhes

Por Gabriel Sacramento

Dá pra dizer que 2016 foi o ano do R&B. Kaytranada, Anderson .Paak e Frank Ocean são alguns dos destaques, que inclusive apareceram na lista de melhores álbuns do ano aqui no Escuta Essa Review. Tivemos também lançamentos mais conservadores, como Alicia Keys, John Legend e Usher, mas 2016 foi um ano de expansão do gênero, que tem deixado de ser algo necessariamente associado com o pop fácil e tem se misturado com o jazz e rock, absorvendo as características vanguardistas desse estilo. Indo além das próprias fronteiras, o R&B tem sido origem de explosões musicais, sempre contundentes e relevantes.

Quem há algum tempo vem contribuindo para que o R&B seja um gênero frutífero  é o Sampha. Seu nome sempre aparece nas fichas técnicas dos álbuns mais conhecidos. Assim como o Kaytranada e o Thundercat, depois de trabalhar em álbuns de outros artistas, o cara lançou finalmente seu primeiro álbum solo. O músico chamou Rodaidh McDonald para ajudar na produção – o mesmo que coproduziu I See You, do The XX – e a gravação foi feita em vários estúdios profissionais, diferente do método que geralmente o músico prefere, gravando em casa.

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Quando damos o play, percebemos a principal característica do Sampha aflorar: o talento para compor. As faixas são pérolas que até parecem dispensar trabalhos absurdos na produção, embora não dispensem. O trabalho de McDonald é mais focado nas bases das músicas e ele faz isso com muita competência: arranjos que servem de fundo para  melodias criativas e dinâmicas. É tudo feito com uma precisão muito grande, que deixa claro a mão forte da produção acertando em cada detalhe.

Note como o desenrolar de “Blood On Me” é natural e inteligente, com  cada escolha de instrumento fortalecendo o aspecto dramático da faixa. O piano – muito bem arranjado – se destaca em alguns momentos, ficando em segundo plano em outros. Há um contraste interessante entre a bateria acelerada e as notas pontuais do piano. Mesmo que não se considere um grande cantor, Sampha deixa evidente uma grande paixão e entrega em cada performance vocal de Process. “Take Me Inside” é uma das faixas que enfatizam sua bela voz, que trabalha com mais suavidade alternando entre falsetes e voz de peito na primeira parte e enclausurada por efeitos na segunda. Destaco também o arranjo da segunda parte, um tanto futurístico, sintetizado.

Sintetizado também é o início de “Reverse Faults”, que mostra mais um belo contraste na relação base/voz. A base é eletrônica, esquisita e futurística; a voz é lenta, suave e emocional. McDonald e Sampha exploram essas distinções sobrepostas e enriquecem a experiência auditiva, gerando uma sonoridade bem particular. Além disso, quando o ouvinte percebe que a base não combina perfeitamente com o estilo do vocal na faixa, passa a prestar mais atenção nos dois elementos e tentar entender como se relacionam. “Kora Sings” é mais um trabalho de arranjo fantástico e um feel mais vibrante. No entanto, sua construção é feita aos poucos, com todo aquele esmero nos detalhes que permeia as outras faixas. Além do solo de kora, instrumento musical que aparece no título da faixa, temos uma bateria quase epiléptica, executada precisamente por Pauli Stanley-McKenzie.

Mais nem só de bases ultrainteligentes Process é feito. “(No One Knows Me) Like the Piano”, é envolvente, emocionante  e calcada no piano. Uma balada exemplar com melodia melancólica na medida certa e profunda, tratando sobre a mãe do cantor, que morreu de câncer no final de 2015.

As letras refletem um Sampha sofrido, lidando poeticamente com questões pessoais e se abrindo para os ouvintes. A morte da sua mãe, por exemplo, influenciou o trabalho e pesou para que o conteúdo se tornasse mais dramático.

Process é um ótimo álbum e traz toda a vibe R&B a que estamos acostumados, mas com muita criatividade e dedicação, chegando a um resultado digno de atenção. Os elementos de cada detalhe complementam o talento de Sampha, mostrando que ele foi além do que simplesmente nos mostrar o seu lado compositor. Ele aprofunda a imagem de si mesmo como um artista completo, apresentando um álbum impecavelmente bem pensado e arquitetado.

Não é um trabalho de vanguarda, mas é um disco com ótimas escolhas. Não tem pretensões absurdas quanto ao estilo, mas mostra o ponto de vista musical de alguém que já está no ramo há tanto tempo, mas que até então não tinha tido a oportunidade de se expressar completamente. Não é um som difícil, pelo contrário. Sampha nos ensina a trabalhar detalhes com precisão cirúrgica e ainda assim soar fácil, dentro do contexto de música pop, feita para o mainstream. O R&B já está cheio de lançamentos excelentes e Sampha fez questão contribuir. E com excelência.

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Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante.

Comentários

    Drake – More Life (2017) | Escuta Essa!

    (25 de março de 2017 - 16:37)

    […] Giggs em duas faixas foi definitiva para trazer um pouco mais do UK Garage. Já o talentoso Sampha ganhou uma faixa só pra ele: “4422”, na qual ele canta muito bem, do seu jeito sensível e […]

    gustavo

    (23 de abril de 2017 - 00:05)

    que disco foda!!!

    […] e “True Care”. A primeira começa com um piano que acompanha a melodia do vocal, lembrando o Sampha em “(No Ones Knows me) Like the Piano” – uma das melhores faixas do ano. A […]

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