Rag’n’Bone Man – Human (2017)

Ele é humano e gosta de coletar velharias e revendê-las como novas

Por Gabriel Sacramento

A voz é de um bluesman. O nome “Rag’n’Bone Man”, também. Mas o inglês Rory Graham – que começou realmente cantando blues, enfatizando seu timbre vantajoso para o estilo – agora parece aceitar seu lado pop sem preconceitos. Na verdade, ponto para ele e toda a equipe que trabalhou em Human, seu debut, por imaginar: “E se levássemos esse timbre blueseiro para o pop, soaria bem diferente e interessante”. E realmente soa.

No entanto, outro estilo foi referência e ideal a ser alcançado por Graham em sua carreira: o hip-hop. Foi no cenário urbano inglês que ele idealizou o nome “Rag’N’bonez”, que virou Rag’n’Bone Man, seu atual nome artístico. Nos seus primeiros EPs, percebemos que o cara ainda transitava entre o hip-hop e o blues, sem muita delimitação entre os gêneros.

Rag 'N' Bone Man by Deans Chalkley

Human é resultado de cooperação entre diversos profissionais. Alguns deles bem conhecidos: O produtor Mark Crew, conhecido por trabalhar com a banda Bastille, além de Johnny McDaid, colaborador do também inglês Ed Sheeran, fora os diversos nomes que constam nas assinaturas das canções. A verdade é que o grupo trabalhou bem e chegou a um consenso interessante diante de todas as possibilidades que o talento do Rag’n’Bone poderia criar. São muitas facetas a explorar.

Human é um trabalho bem pensado e bem produzido, com um repertório que começa com canções mais encorpadas e termina com baladas. A abertura é com a faixa-título, com versos reflexivos, em que ele admite sua fraqueza e que não pode resolver tudo: “Algumas pessoas têm seus problemas, outras pensam que posso resolvê-los, mas eu sou apenas humano afinal de contas, não ponha a culpa em mim”, ele canta, usando melodias que não saem da cabeça.”Innocent Man” traz batidas pop, vocais sobrepostos, ganchos melódicos e mostra o cantor em dia com seu lado mais comercial. “Bitter End” deixa evidente uma forte influência de cantores da saudosa soul music no estilo vocal de Graham. À medida em que vamos avançamos no setlist, conhecemos sua voz mais crua, com menos tratamento e com mais sentimento. “Grace” é uma prova disso. Uma canção sensível, com piano ao fundo no início, melodias que, mesmo sutis, tocam profundamente. “Die Easy” é fantástica e blueseira até o talo, dispensa instrumentação e somos convidados a ouvir o vozeirão cru e forte do Rag’n’Bone e sua habilidade para segurar o ritmo e a emoção.

A equipe de Human soube bem explorar as facetas mais interessantes de Graham, deixando tudo muito atrativo. As possibilidades eram muitas, mas aqui foram reduzidas para algumas, as mais fortes e com mais potencial. Além do blues, há uma forte veia soul, com toques de hip-hop e um molho pop deixando tudo ainda mais saboroso – e acessível. Se o disco não tenta entregar profundidade em termos estilísticos, entrega um retrato sonoro fiel à pessoa talentosa de Rory Graham.

O quê pop do álbum pode ser – e tem sido – decisivo para colocar o cantor no topo das listas de mais vendidos e de mais ouvidos nos serviços de música online. Mas em Human, até esse apelo é bem administrado, ressaltando as boas características particulares do cantor e mantendo tudo bem embalado para o mercado. Foi uma ótima sacada trazer esse timbre soulful e blueseiro para o pop comum. Deu um aspecto singular ao trabalho dentro do gênero.

Uma curiosidade é que seu nome artístico – Rag’n’Bone Man – era usado para definir um profissional antigo que coletava objetos velhos e inservíveis para revendê-los a outro mercado. O interessante é que isso tem muito a ver com o que Graham faz: coleta elementos de soul e blues que poderiam ter se perdidos no meio do caminho em meio à evolução musical e os revende com uma nova roupagem, mais agradável para as grandes massas. Rory não é o único a fazer isso, embora seu jeito de fazê-lo seja único.

O disco mostrou que o cara é um dos destaques de 2017. O seu vozeirão, sua atitude (reforçada por sua imagem) e originalidade são os fatores que fizeram o projeto dar certo e o produto ser bem recebido. Vale a pena ficar de olho nos próximos trabalhos desse Rag’n’Bone Man que em 12 faixas fez o suficiente para agradar a todo mundo, sem soar banal.

ragnbone-man_2016

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante.

Comentários

    […] 07. Rag’N’Bone Man – Human […]

    Márcia

    (28 de setembro de 2017 - 13:31)

    Parabéns Gabriel, pelo texto impecável. Sou jornalista e já fui produtora e programadora musical. Realmente você tem razão. É, talvez, uma das poucas promessas desse tempo, dessa geração perdida. Quando ouço Rag’bone, jake bugg e outros garotos que estão na trilha musical do século passado, em termos de som, voz e arranjos, mas com letras profundas, soturnas e contemporâneas , sinto que a música ainda tem salvação e não precisaremos ficar só ouvindo gente morta.

      Gabriel Sacramento

      (28 de setembro de 2017 - 13:43)

      Obrigado pelo feedback, Márcia. Fico realmente feliz que tenha gostado. E sim, esses artistas têm sido a luz no fim do túnel da pop music. Pena que muitos deles não conseguem o devido espaço.

      Abraço.

    Marcia

    (29 de setembro de 2017 - 10:23)

    Esse cara é um fenômeno . Uma revelação desse ano, dessa era, dessa geração. Um bluseiro com voz absurda que fez um apelo pop amparado por uma influência do soul que ficou do caralho. Não canso de ouvir o álbum desse desse monstro.

    […] se destacado no Reino Unido nos últimos anos: Ed Sheeran, Passenger, Lewis Capaldi, James Bay, Rag’n’Bone Man, Gavin James e James Arthur são alguns dos nomes. As tendências mais comuns entre esses artistas […]

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