Ty Segall – Ty Segall (2017)

Garageiro/bem produzido, doce/ agressivo, rebelde/comportado

por Gabriel Sacramento

Ty Segall é um veterano do garage rock. Seja em sua carreira solo ou em seus incontáveis projetos paralelos, o californiano mostra que sabe fazer um som sujo, cheio de psicodelia, ruídos e boas referências anacrônicas. Rock barulhento e fora da caixinha, bem diferente dos sons radiofônicos que se ouvem por aí. Se quiser ouvir mais do estilo, procure um de seus discos. Não vai se arrepender. Os álbuns do Fuzz, uma de suas bandas, também são bons.

O cara também é muito prolífico. Já lançou cerca de nove álbuns em menos de dez anos de carreira solo. É quase um disco por ano. O ritmo, no entanto, não prejudica a seriedade e o comprometimento do músico com seu som e ele sempre mantém uma boa constância e uma média de qualidade em seus lançamentos. Ty Segall, seu novo trabalho, é o segundo auto-intitulado (o primeiro foi liberado em 2008) e no disco, ele traz uma boa definição de si mesmo.

Para o novo álbum, Segall recrutou uma banda completa que tocou tudo, diferente do álbum anterior, Emotional Mugger, no qual ele mesmo tocou vários instrumentos nas faixas. A banda – conhecida como Freedom Band – é composta por Emmety Kelly na guitarra, Mikal Conin no baixo, Charles Moothart (companheiro de Fuzz) na bateria e Ben Boyle no piano, e gravou as canções ao vivo, o que acrescentou mais intensidade e espontaneidade à proposta, tornando a experiência auditiva ainda mais compensadora.

ty-segall-ty-segall-3

O disco soa menos lo-fi que o anterior, mas é um pouco mais setentista. Os timbres de guitarra  lembram os que eram usados pelos guitarristas quando o hard rock e blues rock explodiam no Reino Unido. “Break A Guitar”, por exemplo, é cheia de fuzz bem timbrado e setentista, mas possui riffs bem metálicos. A sujeira das seis cordas vai continuar impregnando as faixas, como em “The Only One” – que remete ao som Stoner do Black Sabbath, com os riffs cheios de pausas e o clima arrastado e mais dark. Segall também explora um lado mais folk: “Freedom” trabalha uma mistura entre violões e guitarras, não soando tão suja quanto a “Break A Guitar”, mas é também barulhenta. “Orange Color Queen” é uma balada cheia de melodias suaves e envolventes, amparadas por violões aconchegantes. É uma música de amor escrita para a namorada do Ty, Denée. “Talkin'” é folk rock e possui algumas harmonias vocais que lembram os Beatles.

“Thank You, Mr. K” possui uma veia agressiva punk. É simples, ruidosa, barulhenta e evoca a rebeldia, como um bom punk deve ser. E quando pensamos que Ty não surpreenderia mais com a alternância de estilos, ele aparece com uma música de dez minutos que mescla uma jam psicodélica, com momentos de fúria e outros de mais calmaria. “Warm Hands (Freedom Returned)” é uma ode à psicodelia dos anos 60 e 70, feita no século XXI, com muita propriedade.

Fuzz, riffs setentistas, psicodelia, melodias doces, uma veia folk rock e muita energia: Esses são os componentes do som do Ty Segall em seu novo álbum. Como disse acima, ele traz uma ótima definição de si mesmo, agregando seus gostos e as várias referências que o inspiraram em um álbum nostálgico, sobretudo forte nos dias atuais. Não é daqueles álbuns que possuem valor somente por referenciarem o passado, mas possui valor por chocar o presente com o melhor da fúria, atitude e energia que caracterizou o rock nas décadas de ouro e ainda por lançar mão de várias ferramentas estilísticas com uma coesão admirável.

ty segall ty segall 2.jpeg

Em alguns momentos, o seu som lembra o grunge dos anos 90. As guitarras enchem o espectro sonoro, mas também dão espaço para a bateria de Moothart – que aqui toca muito bem, variando bem e fazendo escolhas decisivas para solidificar os arranjos – e para o baixo também. O violão também aparece nos momentos certos, reforçando o aspecto mais folk. O contraste entre o domínio do violão e da guitarra dá o tom do álbum e estabelece a pluralidade como um dos aspectos marcantes. E a produção trabalha bem esses aspectos distintos, unindo-os para formar um som único.

É garageiro, mas muito bem produzido. Tem doçura, mas também gritaria. É rebelde, mas também bem comportado. Tem faixa de dez minutos e tem faixa de dois minutos. É um disco de vários adjetivos e características diferentes. E Ty Segall consegue ser tudo isso em dez faixas, sem nenhum conflito. 

brunochair Autor

Funcionário público, ex-jogador de ping pong amador, curte literatura, música, fotografia, esportes, cervejas artesanais e bons filmes. Meio brasileiro e meio uruguaio, acha que a cidade perfeita é uma mistura de São Paulo, Rio de Janeiro e Montevidéu.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.