The Flaming Lips – Oczy Mlody (2017)

Disco deixa espaços demais entre boas canções

Por Lucas Scaliza

Claramente, Oczy Mlody, é um todo coeso e belo. Para quem esperava um álbum mais amigável para o público, como eu, acabou se deparando com um misto de canções – como aquelas que Wayne Coyne compôs em discos dos anos 90 e início dos 2000 – e pirações psicodélicas instrumentais que não são pesadas como em The Terror (2013), o disco mais difícil do The Flaming Lips, mas também não deixam de representar um desafio para o ouvinte menos acostumado a longas músicas ambiente.

Assim, embora a ideia sonora que perpassa o trabalho seja um primor, nem sempre as canções funcionam bem, podendo causar tédio em alguns momentos, principalmente se o ouvinte não estiver no momento mais viajante de seu dia.

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“Oczy Mlody”, a linda introdução, dá o tom para músicas como “How??”, “Sunrise (Eyes Of The Young)”, “The Castle”, “We a Family” (esta com participação de Miley Cyrus) e a primeira parte de “There Should Be Unicorns”, todas com potencial para embalar o ouvinte e, de fato, representam o melhor do Flaming Lips neste novo disco. Mesmo que existam algumas interferências mais psicodélicas, que servem justamente para tirar um pouco da segurança do ouvinte, elas não são nenhum desafio.

O restante das faixas serve muito mais como exploração de texturas e experimentação do grupo, uma lembrança de um lado musical de Coyne e Cia que realmente é capaz de afundar na psicodelia enevoada. “Nigdy Nie (Never No)”, “Galaxy I Sink”, “Do Glowy” e a longa “One Night While Hunting For Faeries And Witches And Wizards To Kill” se desenvolvem ao longo de diversos tipos de sons de teclado e sintetizador e um baixo que ora soa orgânico, ora eletrônico, ora distorcido. Aliás, a mistura dos timbres de baixo e sintetizador é o que move a estética de Oczy Mlody até o fim da audição.

Todas as faixas são tristes, noturnas e cósmicas, como se a viagem de ácido nos tivesse levado para um espaço repleto de estrelas néon. Há conforto nessa vista, mas estamos em gravidade zero, à deriva.

Levando em conta diversos fatores, dá para dizer que o álbum começa bem, termina bem (Miley Cyrus se beneficiou muito da parceria com a banda e vice-versa) e em seu miolo tem várias ótimas ideias, mas as explorações instrumentais tomam tempo demais e tornam a paisagem sonora turbulenta. É claro que isso tem um lado positivo, que é a recusa do Flaming Lips de se tornar mais pop e menos exigente, contudo Oczy Mlody parece dividido entre dois universos e não decide em qual deles quer ficar.

Os singles se salvam todos, mas teremos que esperar mais alguns anos se quisermos ver o palco de Wayne Coyne transformado em uma festa surreal novamente, com papel picado, serpentina e bolas coloridas. Por enquanto, reflete apenas a nossa tristeza interior.

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Lucas Scaliza Autor

Jornalista e ariano, joga truco e tarô. Nunca teve amnésia alcoólica. Tem vários discos mas não tem vitrola. É host do Escuta Essa Podcast e ouve tanta música tão alto que é capaz de ficar surdo um dia.

Comentários

    […] It Ends”, com sua dose de emoção e de maluquice, parece saída da mente de Wayne Coyne, do The Flaming Lips. “Choke On Love” e “Junko Ozawa” apostam em riffs tropicais. Nem mesmo a balada “Where […]

    […] do The Verve – e por muito pouco não entra em uma psicodelia suave, mas potente, como a do The Flaming Lips. “Aliens”, com pegada eletrônica e timbres sofisticados é talvez a melhor composição que […]

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