Run The Jewels – RTJ 3 (2017)

Dupla faz manifesto em forma de rap e trilha incendiária da revolta dentro de nós

Por Lucas Scaliza

Quando penso que o rock perdeu muito de sua relevância e impacto social, penso logo em Run The Jewels. Embora o rock tenha perdido seu posto contestador e espaço radiofônico e midiático para o rap e o hip hop muito anos antes do surgimento de RTJ 1, foram Killer Mike e El-P que conseguiram elevar o rap, como o Public Enemy havia feito anteriormente, e mostrar que a black music pode e deve sim ser música de protesto, não apenas para dançar, para curtir ou usar palavrões como entretenimento vão. Com três discos, todos dedicados ao melhor do rap, o Run The Jewels mostra que letras autobiográficas, palavrões e versos cuspidos sobre bases eletrônicas têm um papel de resistência social, artística e política.

Com um efeito quase hipnótico, RTJ 3 é um tour de force que interliga uma faixa na outra e mantém você ligado e instigado do começo ao fim. Se o Rage Against The Machine conseguia fazer isso aliando o hip hop ao som roqueiro da banda, o Run The Jewels o faz simplesmente com um rap ritmado, moderno, sem frescuras, e que é forte o suficiente para mostrar seu lado roqueiro. Não estamos diante de um álbum para dançar, afinal. É agressivo sem perder o balanço e sem faltar rima.

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Diferente do rap mais popular que entope as paradas musicais por aí, onde o rap é mais um artifício do que o protagonista de uma faixa, Killer Mike e El-P rapeiam por todo o RTJ 3, com verve, angústia e fúria. As raras aparições de vocais melódicos – como na excelente dobradinha “Thieves! (Screamed The Ghost)” e “2100” – ajudam a dar ritmo e cadência à canção, não roubando o espaço do rap. Também não deixaram de incluir o peso pesado dos saxofones Kamasi Washington, que faz a diferença na incrível “Thursday In The Danger Room”, uma das faixas mais interessantes que a dupla já gravou, chegando até ao apoteótico final com a pesada e incrivelmente bem produzida “A Report To The Shareholders: Kill Your Masters”, em que dão uma da Khaleesi do gueto americano e mandam a mensagem sem rodeios, primeiro se preocupando com a harmonia e depois, na metade final, investindo tudo em ritmo e textura.

Era para RTJ 3 ser lançado apenas em 13 de janeiro, mas acabou sendo colocado para download gratuito no final de 2016, um dia antes do Natal. Killer Mike e El-P se posicionaram totalmente contrários à candidatura de Donald Trump e inclusive lançaram o primeiro single do disco, a raivosa “Talk To Me”, nas últimas semanas da corrida presencial americana, na esperança de uma reação do eleitorado. Um dia após a vitória do milionário dos hotéis, Killer Mike estava em um programa matinal dos EUA tentando explicar em parte porque Trump foi eleito. RTJ 3 não é um disco anti-Trump por si só. Não poderia ser. Mas Trump – ou o populismo de Trump e a onda conservadora que ele representa – faz parte do ideário que norteia os versos.

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Como nos registros anteriores da dupla, este álbum não usa metáforas engraçadinhas ou palavrões para adolescentes repetirem ao léu em redes sociais. Seja como Kendrick Lamar em To Pimp a Butterfly, Beyoncé em Lemonade ou PJ Harvey em The Hope Six Demolition Project, as palavras têm peso e, enquanto produto de entretenimento, o álbum parte de canções que pretendem causar alguma mudança em quem as ouve tanto quanto divertir esse mesmo público. Durante todos os 51 minutos de música de Run The Jewels 3, um grande chamado às armas, ao não-conformismo, ar de denúncia, de raiva, e a intenção de inflamar as massas contra o que está aí, e isso explica o ritmo constante e empolgante com que cada faixa é conduzida.

O disco mais poderoso de Killer Mike e El-P continua a ser RTJ 2. Chegou na hora certa, conseguiu a atenção que merecia e foi um tiro de bazuca certeiro na cara da sociedade e do rap e hip hop mais brando em geral. Engraçado pensar que após Yeezus e seu “Black Skinhead”, e depois da carga dramática que Lamar e Run The Jewels apresentaram, Kanye West tenha se restringido ao seu gossip rap de The Life Of Pablo. RTJ 3 não consegue ser mais bombástico que o anterior, embora seja tão poderoso quanto, mas supera o segundo ato em produção.

A trilogia se encerra, mas a quantidade de previsões, análises e denúncias de RTJ 3 deixa claro que a dupla terá muito combustível para queimar enquanto olharem para a sociedade e, com empatia, conseguirem transformar em versos a opressão, a humilhação e a injustiça de seu país e do mundo. Desde a era George Bush filho, Killer Mike e El-P se indignam com os rumos dos EUA. E não pararam de se indignar durante os anos Obama. Com Trump na Casa Branca, Run The Jewels será a trilha sonora não (só) da oposição, mas da revolta que há ou poderá haver dentro de cada um de nós.

 

Lucas Scaliza Autor

Jornalista e ariano, joga truco e tarô. Nunca teve amnésia alcoólica. Tem vários discos mas não tem vitrola. É host do Escuta Essa Podcast e ouve tanta música tão alto que é capaz de ficar surdo um dia.

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